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Quinta-feira, 21/9/2017
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É de fibra

Música
não se
ouve.

Música
se vibra

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Postado por Metáforas do Zé
21/9/2017 às 10h05

 
O indomável Don Giovanni


Cena do Jantar, Don Giovanni (Homero Velho). Fonte: SECULT-PA


A primeira experiência arrebatadora ao se assistir à Don Giovanni é a exposição temática introduzida por Mozart que nos anuncia a vida romântica, intensa e trágica do conquistador. A sensação é de que entraremos em um mundo não apenas fantasioso, de máscaras e capas, mas em uma espiral que, incessante e inevitavelmente, empurra o destino e a vida.

Na apresentação realizada no XVI Festival de Ópera do Theatro da Paz, esse mergulho vertiginoso, aliado especialmente à atuação memorável dos cantores, novamente se apresenta em toda sua dramaticidade. O que dá essa sensação pulsante a essa obra, encenada há 230 anos, ainda hoje?

Em grande parte, é justamente sua qualidade estética. É a música de Mozart marcando e acentuando o drama; tornando-o jocoso quando assim deve ser na personalidade de Leporello (em Belém, na interpretação e no canto contagiantes de Silverio De La O). Mas é também na temática que se relaciona com alguns dos nossos mais caros sentimentos e com as formas pelas quais eles se nos conduzem (empurram).

Bernard Shaw, o dramaturgo irlandês, escreveria em seu prefácio para sua peça Homem e super-homem (1903) que “filosoficamente, Don Juan [o arquétipo de Don Giovanni] é um homem que, embora suficientemente bem-dotado para saber distinguir com excepcional clareza entre o bem e o mal, segue seus próprios instintos sem nenhuma consideração pelas leis costumeiras, estatutárias ou canônicas. E assim, ao mesmo tempo em que ganha a ardente simpatia dos nossos instintos rebeldes (que se envaidecem com o brilho com que Don Juan os conjuga), coloca-se em conflito mortal com as instituições existente e defende-se à custa de fraudes e do uso da força, da mesma maneira inescrupulosa com que um fazendeiro defende suas plantações contra as pragas”.

Inalienável da temática da sedução, o destino cavalga em/com Don Giovanni (Homero Velho, em exemplar atuação no da Paz) e impele à conquista e, principalmente, à conquista de si. Estamos na constelação psicanalítica da sedução, segundo interpretação de Renato Mezan (A sombra de Don Juan e outros ensaios) a respeito do galanteador e de sua idealização narcísica. “O aspecto mais crucial da sedução, segundo Laplanche, é que ela veicula significações inconscientes para o próprio sedutor, significações estas que vão impor ao seduzido um trabalho de simbolização e repressão. Ora, não é o que ocorre com Don Juan, que acredita amar as mulheres, quando na verdade ama apenas a si mesmo?”.


Donna Elvira (Kézia Andrade) e Leporello (Silverio De La O). Fonte: SECULT-PA

Donna Elvira faz o par ideal para os excessos e as faltas que compartilha com e para seu amado. Ficamos com a impressão, na ária em que ela se pune por amá-lo tanto (no canto comovente, que ainda hoje a melodia ecoa, da soprano Kézia Andrade), que aquilo, de algum modo, nos atravessa. Ela, como seu amante, está condenada a esse destino indomável. Luta contra ele, mas ela é como Don Juan, que mergulha em sua angústia, em “seu ritmo dionisíaco infernal” e isso é “tanto uma corrida ‘para’ quanto uma fuga ‘de’”. Tanto um mergulho para o deleite que exalta as mulheres e o bom vinho, quanto um artifício para sua incontrolável incompletude (libido).

É o mesmo páthos que impulsiona o conquistador a atacar e se defender, inescrupulosamente, dessas “pragas”; é o que gera em nós a empatia juvenil da rebeldia que cria sua própria ruína.

Mas nós, durante o espetáculo, também ficamos encantados com essa crisálida que no humano habita. Repudiamos e torcemos pelo libertino. Parece quase – e esse quase é decisivo para a fruição – inacreditável seu ataque à “boa” Zerlina (Dhuly Contente) e sua dissimulação para com o valoroso Masetto (Idaías Souto). Mas sua fantasia é tão bem construída que, na cena em que ele lhe faz juras de amor (“Là ci darem la mano!” – “Lá nos daremos as mãos!”), de repente, esquecemos tratar-se de mais uma ilusão, e olhamos nos olhos dele e ele, realmente, parece acreditar no que diz. E, de fato, em certo sentido, acredita. O que para nós pode parecer uma ilusão, para ele é, sempre, necessariamente, fantasia.

Talvez por isso ele, ao final, enfune o peito, encarando a morte, ao desafiar a estátua do Commendatore (Anderson Barbosa). A estátua instila nele uma dor tão grande que ele parece, pela primeira vez, ter visto algo “incontestavelmente” como realmente é. Ao apertar a mão gélida e se negar a mudar de vida, sua fantasmática prova de realidade é incapaz de modificá-lo. Ele grita: não! Negando-se, ele desce ao inferno, desaparecendo. Abrindo nossos olhos e fechando nossa cortina.


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 20 de setembro de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
20/9/2017 às 19h13

 
Caracóis filosóficos

Novelo de
ventos

Travesseiros
dobrados

Uma
morada
helicoidal-
mente
configurada

qual o
marulhar
dos próprios
pensamentos

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Postado por Metáforas do Zé
15/9/2017 às 09h07

 
O mito dos 42 km

Desde que comecei meu caso de amor com a corrida, não foi nada difícil uni-lo a outra grande paixão, que é a leitura. E, conforme esse amor foi crescendo, relatos de corredores amadores, atletas profissionais e livros sobre esse tema me foram apresentados como se fossem cupidos ansiosos por manter essa chama sempre acessa.

Entre os vários livros que li, alguns que mais me marcaram (e ensinaram) foram: O ultramaratonista, de Dean Karnazes, Rocco; Nascido para Correr, de Christopher McDougall, Globo; e Correr – o exercício, a cidade e a maratona, de Drauzio Varela, Companhia das Letras, isso para citar os mais conhecidos, pois a lista é extensa. E, mesmo lendo sob a ótica e a experiência de vários autores, com suas perspectivas e objetivos distintos, a essência das histórias é praticamente a mesma: o amor pela corrida.

Mas o que sempre me intrigou foram alguns relatos sobre a conclusão de maratonas (42 km). Muitos deles são extremamente desanimadores, para dizer o mínimo. Li relatos de corredores que correram com cãibras fortíssimas; corredores que chegaram se arrastando, totalmente desidratados; corredores que passaram mal durante e após a corrida, com febre e dores pelo corpo; muitos e muitos corredores que não conseguiram concluir a primeira maratona. Enfim, relatos que me fizeram avaliar seriamente a minha intenção de encarar o desafio dos 42 km. A única certeza que eu tinha era de que eu não poderia tentar correr essa distância sem estar preparado.

Protegido por essa fácil desculpa (a de não estar preparado), fui adiando esse sonho até o dia em que resolvi fazer a minha inscrição para a Maratona Internacional de Florianópolis, que seria realizada em 27/08/2017. Fiz a inscrição no dia 06/01/2017 e fiquei “dormindo” em cima dela, literalmente, pois ainda não estava convencido de que iria participar e se conseguiria fazer a preparação física e mental necessária para esse desafio. Na verdade, o próprio período de treinos (no meu caso, foram 14 semanas) já foi um enorme desafio, pois tive que aumentar o meu volume de treinos semanais, que era de aproximadamente 30 km, para quase 60 km na semana mais intensa, com “longão” de 34 km... Entre os treinos de corrida e fortalecimento, sobrava apenas um dia de folga por semana.

Vencido o desafio dos treinos, entrei na semana da prova com sentimento de dever cumprido e extremamente relaxado para aproveitar ao máximo a minha primeira maratona. A minha previsão de chegada, que inicialmente era de 4h30min, foi caindo conforme aumentava a confiança, chegando a 3h45min um dia antes da prova.

Mesmo com a confiança nas alturas, quem corre sabe que, no dia prova, muitas variáveis podem afetar o nosso rendimento, tais como: clima muito frio ou muito quente, mal-estar por alguma alimentação inadequada e, até mesmo, ansiedade pré-prova. No meu caso, o único contratempo aconteceu no hotel em que fiquei hospedado, que não ofereceu um café da manhã adequado no horário combinado, às 5h da manhã. Tive que procurar outro hotel nas proximidades, que estava preparado para o evento. Mas esse fato isolado não chegou a abalar a minha confiança em nenhum momento.

A largada foi mágica, assim como é a ilha de Floripa. O clima primaveril (apesar de ainda estarmos no inverno) estava tão perfeito para correr que me peguei correndo acima do pace médio programado por alguns quilômetros, tendo que me policiar constantemente para “frear” essa empolgação que poderia minar as minhas pretensões de chegada, coisa muito comum em corridas de longa distância. Esse é um erro extremante banal, mas que acontece com muita frequência entre corredores que participam de sua primeira maratona.

Após esse período de ajuste, consegui encaixar o ritmo programado até o km 36. A partir desse momento, comecei a sentir o verdadeiro peso dos 42 km. A sombra do mito criado em minha mente a partir dos relatos que li começou a pairar sobre mim, e, apesar de não ter duvidado em nenhum momento de que conseguiria completar a prova, já não estava mais tão seguro de que seria no tempo programado, ao ponto de não mais verificar o tempo total em meu relógio Garmin, monitorando apenas o pace médio, que começou a se distanciar assustadoramente da meta inicial.

Nessas horas é que se percebe nitidamente o quanto a nossa mente é importante nesse processo. Consciente de que tinha feito o dever de casa, comecei a “scanear” meu corpo em busca de algum sinal que pudesse comprometer o meu desempenho nos quilômetros finais. Após uma rápida verificação, constatei que essa velha carcaça ainda estava inteira e que não precisaria me preocupar. Feito isso, comecei a me concentrar ainda mais no movimento correto das pernas e dos braços, e na minha respiração.

A partir daí, cada quilômetro concluído foi uma vitória, celebrada com parcimônia, pois o quilômetro seguinte não me deixava esquecer a distância que ainda teria de percorrer. Somente no último trecho, quando tive a certeza de que conseguiria concluir a prova, é que me liberei completamente para o início da comemoração. Mesmo antes de visualizar a linha de chegada, comecei a sentir os bons fluidos da conquista me invadirem completamente. Meu corpo já estava em festa, minha mente, aberta para saborear cada segundo da minha chegada.

Nesse momento lembrei-me de verificar o tempo acumulado, e, faltando uns 100 metros, aproximadamente, vi o cronômetro marcando 3h45min. No mesmo instante, ainda sem acreditar na minha sorte, acordei do transe da vitória e, mesmo já forçando a passada desde a entrada no km 42, ainda consegui acelerar o passo para não deixar o cronômetro virar em 3h46min. Confesso que, nesse sprint final, eu já não era mais dono do meu corpo e as passadas firmes e seguras já não tocavam mais o solo, tendo a nítida sensação de estar flutuando. Ao cruzar a linha de chegada, um misto de sentimentos e euforia invadiu meu coração e uma sequência com vários momentos marcantes da minha preparação passou só para me lembrar de que todo esforço valeu a pena. E de que foram justamente os dias mais difíceis de treino (frio, chuva e “longão”) que me fortaleceram ainda mais para que eu conseguisse vencer esse desafio.

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Postado por Blog de Isaac Rincaweski
13/9/2017 às 11h15

 
Setembro Paulista

"Era infantil se sentir decepcionado, mas a infantilidade é uma coisa que acontece tão naturalmente a um homem quanto a uma criança..." – Asimov, Fundação.

Tantas foram as obras de ficção científica que me causaram profundo impacto como a série Fundação de Isaac Asimov em que a visão periscópica de futuro e de sociedade apresenta ainda que com ressalvas, singular esperança. Tantas, porque particularmente não resisto a uma boa ficção científica, mas essa é precipuamente a melhor delas.

Asimov!

De minha parte, gratidão por obra tão espetacular.

Ainda que me agradem particularmente na literatura contemporânea, a prosa analítica de Umberto Eco, o fantástico de Gabriel Garcia Marquez – a ficção científica clássica de Asimov, me causa um rubor de esperança. Singular esperança, tão acanhada porque os anos nos recrudescem dessa habilidade pueril de acreditar, mas que timidamente se perpetua como quando caminhamos por uma rua tomada pela escuridão e nos solilóquios que se instigam freneticamente disparados pelo medo, pelo escuro, aguardamos a luz fraca do próximo poste, ainda que a distância entre os postes seja tão irregular que caracterize impossível compreendermos um padrão.

Como em Cities in Dust (canção aguda que merece obrigatoriamente em algum momento nesse lapso espaço-tempo, um arranjo pareado num game explosivo) nossas cidades jazem em pó. Nossas estradas espaciais jazem em pó, tão lúgubre e nada matinal essa desesperança nos faz um convite rumo à passividade. Esse desassossego humano, sempre insano rumo ao desconhecido em sua ímpar experiência num ciclo de vida tão passageiro é o que nos persegue simultaneamente tanto e quanto o perseguimos.

Não se trata aqui de uma ode à ciência inabalável, metódica, pois ainda que a Crítica da Razão Pura de Kant tenha me conferido um pouco de racionalidade, devo ignorar que para Kant “toda sensação é suscetível de diminuição, de tal sorte que ela pode decrescer e desaparecer insensivelmente”. Persisto numa auto sabotagem distrativa que me permite ignorar os desvanecimentos das sensações que há tempos me causavam súbito estupor. O fato é que para mim, a ficção científica incorpora o que há de luminescente nessa amplitude vazia a que estou submetida, tal como um vestígio de luz, cuja faísca da Graça adiada, resiste! (Não, não me refiro à graça cristã ululante que berra, estampada no rosto de Teresa de Ávila de Bernini, depois de ter tido a experiência orgásmica com a seta do amor cupido-deus. Blasfêmia? Não! Definitivamente não. Teresa de Ávila era mística e eu no meu ceticismo, não a compreendo. Nem preciso! É óbvio que a questão é quanto ao uso da palavra Graça restringir-se tão somente ao ideário judaico, cristão, católico, não importa. A Grace de Lar Vons Trier me apetece mais do que a graça divina. Reside nesse conceito de Graça, do qual me aproprio, um expurgo da religião e de toda essa fé cinzenta vendida e que não se aproxima ao menos, na minha soberba e intimista opinião, à magnitude do pôr-do-sol, da aurora boreal e da singularidade das marés, ou bem mais óbvia de ser compreendida como a comoção que Hades despertou em Orpheu que decidiu por Eurídice conquistar o reino dos mortos).

A ficção científica é a prima-irmã do Iluminismo, a Graça encarnada nas páginas escritas, sonhos da razão, que em seu rastro luminoso, resiste na perspectiva de bonecos humanos de elastômero para a satisfação de desejos, resiste no braço biônico, resiste na publicidade desnecessária do Bóson de Higgs ou para os mais pessimistas como eu, resiste no borralho de ausência de humanidade ou naquela experiência louca de Playtest em Black Mirror. Essa vazão catártica de mim mesma, é o mais próximo que eu consigo chegar do enleio da Graça! Embalada numa Graça agônica à minha própria existência, minha existência se dá porquanto resisto. Resistir. Eu resisto. Todos resistimos nessa vértebra frugal que nos compele diariamente, ainda que o auto engano nos dissimule a infelicidade, nos dissimule o vazio e nos dissimule o medo de nossa finitude. Esse auto engano que me abranda dentro dos convescotes corriqueiros, nos feriados em família, nos acalantos sinceros e naquela sensação entorpecida de que tudo está exatamente onde deveria estar, quando por um tempo esqueço dessa carne que definha pouco a pouco. A ficção científica é a ciência do impalpável que se materializa na literatura de vanguarda, no futurismo da produção cinematográfica, na Arte daquilo é inatingível conceitualmente. A ficção científica nos sublima, quando assumimos nossa identidade como replicantes de nós mesmos e aguardamos tacitamente o aparecimento de um tricorder e nos projeta, quando ousamos um dia sonhar com um pulo paradoxal do tempo num universo paralelo.

É provável que essa mesma ciência do inacreditável, aquela que causa prostração diante de algo deslumbrante, que cega-nos diante de tanta incandescência, seja a que causou profundo terror aos europeus ao se depararem com civilizações tão desenvolvidas, quanto a dos ameríndios. Daí, a razão de Hernan Cortés em suas cartas sobre a conquista do México relatar com profunda naturalidade a barbárie dos crimes de guerra. “Lutaram conosco bravamente, mas quis Nosso Senhor dar tanta força aos seus que entramos pela água até o peito e fomos conquistando a vitória. Matamos mais de seis mil índios entre homens, mulheres e crianças, número que se tornou considerável em vista da ação dos índios nossos amigos, os quais, vendo como íamos conquistando a vitória, iam matando a torto e a direito. Quando chegou a noite recolhi a minha gente e pus fogo em algumas casas”. Para Cortés que sequer imaginava encontrar numa civilização supostamente primitiva, aspectos de vida inteligente, a imperceptibilidade do ouro enquanto despojo, o sol encapsulado em monumentos astronômicos cravados em rocha, erguidos com perfeição matemática é de se esperar que a única coisa que ao desbravador feroz restava, era primar pela completa dizimação do povo.

A verdade é que em tempos sombrios, (a escuridão é ainda pior que essa luz cinza! – Renato Russo) como já disse, Chine Miéville: “Nunca houve época tão boa para ser fascista”. Somos mesmos todos fascistas com as vontades alheias que sobrepujam as nossas ou nosso altruísmo consegue ser maior que nossas misérias internas? Não sei. O que sei é que o cotidiano, monstro escondido nas frestas da cidade, precipitado no noticiário da manhã, no pó que se intromete na soleira, na geladeira vazia, no painel do elevador, nos humanos com quem não escolheríamos compartilhar nossa existência se tivéssemos tal opção, nos explora... Quem é que suporta o peso dos dias? Eu não consigo mais! Agosto me empurrou ladeira abaixo num soluço doentio permanente como um cozido demorado de miúdos, intragável, nauseante como a minha própria cara esgotada, envelhecida e descoberta.

Setembro chega. Setembro chega com a Primavera e traz consigo o dia sete, Sete de Setembro.

Para mim, as opções que restam são poucas. Duas delas me comovem quase que por inteiro, esconjurar a Independência num grito ensurdecedor de desespero ou aguardar passivamente a segunda-feira que tão logo se avizinha com o prelúdio irônico da minha condição assalariada, (um queniz de trigo por um denário! Argh!) engrenagem descartável. Eu resisto. Todos resistimos. Resisto mais um dia, dois, um mês, toda uma vida! Guardo minha militância sonífera numa caixa de papel para os dias de luta que na medida da minha covardia torço para não acontecer...

Agarro-me à Asimov até dormir, acordo, vocifero contra o pote de biscoitos, fico à espreita do sol que não tarda em secar as flores amarelas caídas do Ipê que floresce tão próximo da janela das minhas tímidas esperanças tardias.

01/09/2017 – Lais Viajante
licabarbosa30@gmail.com

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Postado por Me avise quando for a hora...
12/9/2017 às 22h05

 
Apocalipse agora

Luz verde. Duas mulheres olham apreensivas para o semáforo, a troca das luzes lhes impõe uma missão. Luz amarela. É hora de se prepararem. Enfim, agora que o círculo vermelho acende, não perdem tempo em ocupar a avenida, postam-se à frente dos carros, segurando cada qual a ponta de uma faixa. Fazem isso sem qualquer entusiasmo, há no entorno delas uma evidente aura de constrangimento, ombros caídos, languidez nos olhos. Se ainda anunciassem o sonho da casa própria, algum saldão de ofertas ou as trinta e seis prestações que possibilitem a aquisição do mais arrojado dos automóveis SUV, mas o fato é que carregam o fardo pesado de terem que alertar a todos sobre questões apocalípticas.

Você está preparado para o apocalipse? É o que está escrito na faixa. Os motoristas e os pedestres leem a interrogação e inicialmente são tomados pela reação de quem se põe a refletir, cada um vai formulando sua resposta interna, mas isso dura pouco e logo se vê que os semblantes já estão novamente tomados pela impaciência, pela pressa, pela ansiedade, não é difícil imaginar a enorme figura do relógio mental que os assombra ao piscar incessantemente avisos sobre o horário da consulta médica, sobre o horário da escola dos filhos. Antes do apocalipse, há ainda muitos compromissos e preocupações com os quais é preciso lidar.

Chinelos de dedo, calça social, camisa de linho, um senhor pedala sua bicicleta pelo canto da avenida, deixa de girar os pedais e vai diminuindo a velocidade até parar junto ao meio-fio, já faz tempo que observa o teor da faixa estendida à sua frente. Agora olha para a calçada e procura alguém que possa esclarecer uma curiosidade: vocês acreditam nisso? Sem se importar com o fato de ter sido ignorado, ele retoma as pedaladas não sem antes emitir uma declaração para se for o caso de alguém querer saber: já passei tanta coisa na vida que tudo o que vier é lucro.

Num cruzamento movimentado, o maior dos pecados é a lentidão. Por mínima que seja a percepção de que algum veículo atrasou o arranque, tem-se aí motivo para a aplicação de um castigo cruel, que é o berro uníssono de muitas trombetas infernais, se a buzina estridente é o grito dos perturbados, dos irascíveis, a cidade se tornou a orquestra da insensatez. E é em meio a esse som ambiente que as duas mulheres continuam estendendo a faixa, juntam-se a isso o calor, a poluição, a exposição, o desconforto de serem alvo de olhares zombeteiros. Pelo que tudo indica, já estão tratando de se preparar.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
12/9/2017 às 17h29

 
João, o Maestro (o filme)

Eu confesso que tinha uma certa antipatia pelo maestro João Carlos Martins

Antipatia estética. Achava ele muito populista, nesta fase de maestro. Tocar com Chitãozinho e Xororó, para mim, foi o "ó"

Me parecia uma tentativa, barata, de conquistar certo público, pouco afeito às salas de concerto. Desconfio sempre quando a alta cultura tenta "se rebaixar". Alta cultura rebaixada deixa, imediatamente, de sê-lo

Com esse espírito, fui assistir ao concerto de 40 anos da Cultura FM, na Sala São Paulo, em Julho deste ano

Concerto encerrado pelo maestro que - tocando Mozart ao piano, sob regência de outro maestro, Júlio Medaglia - me comoveu

O que aconteceu? Não sei. Não foi apenas a execução, impressionante para quem tem tantos problemas nas mãos...

Talvez tenha sido porque ele relembrou que, quando resolver ser maestro, foi procurar Júlio Medaglia, e este igualmente se comoveu...

Ou talvez porque tenha sido uma noite especialmente comovente, para a Cultura FM e para a sua audiência. E João Carlos Martins soube respeitar isso. Não quis ser "a estrela"

Me comoveu tanto que, na saída, em direção ao banheiro, dei de cara com ele - e não consegui deixar de cumprimentá-lo e de reforçar o clichê (que tanto critiquei): "Parabéns, maestro, o senhor é um exemplo de vida"

Pois é. Não resisti. O maestro me pegou de jeito...

Também disse a ele que assistiria seu filme, cujo trailer já havia visto. E ele foi simpático: "Olha, no filme, sou eu quem toca tudo... Com exceção de algumas partes... que quem toca... é esta moça aqui!"

Estava com uma moça, claro. Como, aliás, tantas vezes no filme...

Apesar de superado o preconceito inicial contra o maestro, entrei meio desconfiado na sala de cinema, porque o filme era Globo Filmes. Ainda mais com um "toque" de Luiz Carlos Barreto e Cacá Diegues... (Só faltavam a Conspiração e a Natasha Records...)

E, de fato, o filme começa com aquela "sujeira limpa", típica das novelas da Globo - onde até as roupas velhas têm cara de novas (e bem passadas) e onde até a pobreza merece um rico tratamento estético

Resistindo, ainda no começo, pensei que estavam tentando transformar o João Carlos Martins, pianista, no Glenn Gould brasileiro...

Mas, aos poucos, fui sendo vencido... Primeiro, pela música

É difícil ignorar Bach no cinema. E a ligação de João Carlos Martins com Bach não é uma coisa que passa despercebida

Bach não foi um golpe de marketing, que ele usou para se lançar ou se promover, foi uma relação de vida inteira

Uma obsessão, como acusa uma de suas mulheres. Uma comichão (sim, comichão é feminino)

A Bach, ele retornava, nos piores momentos. Quando sua mão falhava, quando não conseguia tocar, quando sofria um golpe...

É com Bach que ele passa, também, os melhores momentos. Seja estudando, seja executando, seja gravando. Seja tocando as Variações Goldberg, de memória, num restaurante em Nova York, a pedido de ninguém menos que Leonard Bernstein...

Além da música, e de sua relação com ela, fui sendo conquistado pela obsessão do artista. A mesma que afastou suas mulheres

Afinal, João Carlos Martins não sofre um único acidente, mas *dois* - e leva sua carreira de performer até o limite físico

Sente dores antes do primeiro acidente, e vai perdendo o crédito na mídia em função deste. No meio de um projeto para gravar a integral de Bach, para teclado, sofre o segundo acidente

Passa a tocar no limite da dor. Até que a dor é tamanha... que ele finalmente aceita a operação. A mesma que sepulta sua carreira de pianista

Nasce o maestro

Mas nem tudo são flores. Começa a carreira de "pedinte", tão bem conhecida por quem realiza iniciativas culturais no Brasil...

Ser artista solo era muito mais barato. Para ser maestro, precisava ter orquestra...

Mas o homem que flertou com o suicídio, e poderia ter desistido tantas outras vezes, acaba conseguindo. E quando a Fiesp, através do Sesi, decide patrocinar não apenas um músico, mas a orquestra inteira, o maestro tartamudeia... e, imaginando sua emoção depois de tudo, emudecemos igualmente

No fim, João Carlos Martins, em pessoa, dá um descanso a Alexandre Nero - que está muito bem no papel - e aparece, regendo, na Sala São Paulo

Aí, eu chorei

Pois é, num filme da Globo Filmes, com um ator de novelas, cujo subtítulo é, literalmente, "uma história de paixão e de amor pela vida" - chorei, vai entender

Mas o Maestro merece

E eu fiquei com vontade de cumprimentá-lo novamente ;-)

Para ir além
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Postado por Julio Daio Bløg
12/9/2017 às 17h24

 
Metropolis e a cidade

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Com um crescente som orquestrado surge um nome: Metropolis. Ele se mistura com a imagem que vai aparecendo da cidade-Babel e, em seguida, várias engrenagens fundindo-se em imagens. O som é rápido, angustiante, temeroso, como se as máquinas estivessem a nos perseguir. Surge o relógio impiedosamente girando seu ponteiro, aparecem novamente as engrenagens e o apito da fábrica soa anunciando a troca de turno.

Essa é a clássica abertura do nonagenário filme Metropolis (1927), de Fritz Lang, uma das mais importantes obras que se relacionam ao Expressionismo alemão. Importante por vários motivos conhecidos, por pertencer a esse movimento, pelo seu contexto histórico e social (a Alemanha pós-guerra, o desemprego e a inflação), por sua inovação técnica e dramática e por ser uma narrativa real e distópica, profética e consumada.

Esses elementos sempre são evocados para se falar do expressionismo e de Metropolis, o filme que mostra uma cidade futurista dividida entre os que moram confortavelmente na superfície em gigantescos prédios e aqueles que trabalham e vivem no subterrâneo, trabalhadores eternizados na sequência síntese na qual eles andam mecanicamente ao entrar e sair da fábrica.

“Os expressionistas não tinham por objetivo representar a realidade concreta. Interessavam-se mais pelas emoções e reações subjetivas que objetos e eventos suscitavam no artista e que ele tratava de ‘expressar’ por meio do amplo uso da distorção, da exageração e do simbolismo”, diz Luiz Carlos Merten em “Cinema: entre a realidade e o artifício”.

Com todas essas características, não por acaso, o movimento ficaria conhecido como um aviso, ou uma premonição, do que se seguiria na Alemanha, posteriormente, com o Nazismo. Na edição do filme lançada em 2010, já restaurada com o acréscimo de 30 minutos, há uma cena na qual, dentro de uma casa, elevadores sobem e descem, como cápsulas, e nos quais o habitante deve entrar para seguir o seu destino.



É uma cena aparentemente simples, mas ela pode muito bem ser pensada como um fragmento de uma sociedade na qual o indivíduo é parte de um sistema mecanizado que o condiciona como elemento orgânico, substituível, da cidade.

Em uma pequena nota de rodapé, Deleuze (1925-1995), em A imagem-tempo, faria alusão a essa relação entre massa e indivíduo nas formas estéticas, como teatro, cinema e ópera.

Diz Deleuze: “O teatro e a ópera se deparavam com o seguinte problema: como evitar reduzir a multidão a uma massa compacta e anônima, mas também a um conjunto de átomos individuais? Piscator, no teatro, impunha às multidões um tratamento arquitetural e geométrico que o cinema expressionista, e Fritz Lang, em especial, também adotará: é o caso das organizações retangulares, triangulares ou piramidais de ‘Metropolis’, só que é uma multidão de escravos”.

Não, não podemos ver unicamente essa relação como uma arquitetura maniqueísta, lembrando Freder (par de Maria) que vê Moloc, o deus, monstro-máquina, a devorar as pessoas. Mas, caminhando para o final do filme, desponta a cena na qual Freder alucinado vê a morte, o ceifeiro, a carregar a foice em sua direção. As plaquetas anunciam: “A morte desce sobre a cidade”.

A cidade então parece caminhar, inevitavelmente para o apocalipse, para o caos. Como aquela Metropolis tão sistematicamente organizada, arquitetonicamente erigida, sucumbe, justamente às maquinas que lhes construíram e aos homens que lhes sustêm, é o cerne dessa narrativa.

Não se trata de ver, hoje, uma luta, recorrente no cinema, entre homem e máquina. Mas trata-se de observar como a cidade surge como templo, em adoração e castigo. Continuamos a erguer uma maquinaria da qual nos glorificamos e com a qual nos sentimos, cada vez mais, impotentes e, antiteticamente, dominadores.

As cidades não são mais unicamente separadas entre espaços que não se relacionam, mas isso não diminuiu o caótico sentimento de que delas não pertencemos inteiramente. De que nosso mecânico caminhar, como autômatos a olhar para máquinas que agora portamos, permanece contido em uma ideia de que sempre, a cada passo, contraditoriamente, podemos nos libertar.

Isso também é um tipo de alucinação/fascinação na grande metrópole, mas colocamos uma película, uma tela, entre a urbe e nós e, resignados, como no final do filme – repudiado por Lang –, podemos até nos dar as mãos e seguir.


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 05 de setembro de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
11/9/2017 às 17h08

 
PETITE FLEUR

             Ora, a poesia vem

             qual uma chuva fria

             a me lavar por dentro

             ou, quem sabe, o outro

             que, sob meu protesto, parasita-me.

             Esfrega então meu rosto na vidraça,

             mas, vejam bem, é só uma metáfora...

             Cá estou eu, e não aquele outro,

             dando de cara em completo espanto

             com esta folha de papel em branco,

             e lá vou eu igual a uma criança

             como se alguém sem nome me agarrasse a mão

             a ensinar a ler e a escrever

             num absurdo jardim da antiga infância.

             Será mentira ou surto de insânia?

             Não sei sinceramente o que dizer!

             E ante mim, assim sem mais nem menos,

             na lauda em branco brota uma flor pequena

             sob a forma imprevista de uma poema

             que o outro,  com o prazer cruel da malquerença,

                      — talvez me ensine novamente a ler...

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Impressões Digitais
8/9/2017 às 17h13

 
O fantasma de Nietzsche

No cruzamento da grande Avenida, a visão de um par de tênis enroscado nos fios de alta tensão, chamou a atenção de Nietzsche.

Seus dedos finos se perderam entre o colossal bigode.

A lua refletiu seu rosto mostrando um sorriso que considero ingênuo, mas sei, dentro daquele corpo magro, atrás dos bigodes medonhos, repousa uma fera.

De repente, pergunta: “Consegue ouvir o barulho dos coveiros enterrando Deus?

Finjo que não o compreendo, formo dúvidas na testa, já não sei se ele está falando em português ou se sou eu que compreendo alemão.

Ele insiste: “Gott ist tot! ”“. Ah, meu bom amigo, você não contava com a fé cega dos incautos! - respondo e o fantasma de Nietzsche sorri.

Depois completa, armado numa voz baixa e rouca: “Quando disse Deus, me referia ao homem” ele responde afinal, colocando fim às minhas dúvidas.

Certo é que esse meu amigo sempre teve a vocação dos abismos.

Chegamos enfim à feira central.

Ele assovia “The boxer” do Simon and Garfunkel.

Firmei meus olhos naquele corpo magro no qual se destaca o pomposo bigode.

“Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas” ele diz, me arrancando um suspiro.

Depois dá de ombros e cumprimenta todos os garçons que se postam na frente das barracas armados com cardápios coloridos.

Mas eles não o enxergam.

De repente faz o par de sobrancelhas dançar na testa: “como esvaziamos o mar? Como apagamos o horizonte?” Ele pergunta e não sei responder.

Oh senhores do destino, porque não me enviaram Fernando Pessoa?

Uma senhora cruza o nosso caminho armada num rosto de espanto, como se fosse a única a enxergar o fantasma ao meu lado.

A mortalidade de nós humanos estava escancarada no rosto daquela mulher.

A cadeira da banca me aperta, faz lembrar que estou num processo irreversível de obesidade.

Nietzsche não tem esse problema, se encaixa perfeitamente entre o banco e a mesa, faz um sinal em minha direção e sei que quer comer sobá.

Quando a comida chega, seus olhos brilham e ele come com voracidade - a cena do macarrão triturado na boca pequena, avançando sem limites entre os bigodes espessos, jamais haverei de esquecer -.

Acho que Nietzsche, ao menos depois de morto, deveria raspar aquele bigode ridículo.

“Humanos, somos demasiado humanos” afirmou entre uma garfada e outra.

Depois que se fartou, saímos caminhando pela feira.

Seus olhos atentos registravam tudo, quis saber como é que um bolo pode ser chamado de sopa; contei que era coisa dos paraguaios e ele quis saber quem eram os paraguaios.

Um trio armado de harpa, sanfona e viola, no canto final da feira, me salvou e ouvimos, encantados, os acordes e a voz maviosa do senhor grisalho ao centro: “Que dulce encanto tienen tus recuerdos mercedita, aromada florecita, amor mio de una vez...” e meu amigo ficou tão encantado que de seus olhos gotejaram duas pontas de lágrimas: “e aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”.

Caminhamos mais um pouco.

Logo se deteve diante de uma garrafa de cachaça exposta num balcão do corredor. “vamos beber” ele disse.

Nem quis lhe contar daquela bebida, tão forte que queimava a garganta, sabedor que meu amigo bebia litros de absinto quando era vivo.

Depois do susto inicial, bebeu mais três ou quatro goles e seus olhos ficaram vermelhos.

Na saída, uma chuva fina compunha o ritual de despedida.

Acompanhei seus passos indo se perder no brilho fosco dos trilhos mortos, desaparecendo aos poucos no poço ao centro da rotunda.

E lá se foi, feliz, e eu fiquei esfregando os olhos com as duas mãos, absorto na imagem final daquele indecifrável delírio.

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Postado por Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ
7/9/2017 às 15h27

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