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Quinta-feira, 6/4/2017
Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ
ANDRÉ LUIZ ALVEZ

 
Made in Japan

Meu filho Bruno adora mangás e animes.

Quando lhe contei sobre como descobri a existência do Japão, ele abriu um sorriso e me mostrou um parafuso guardado na gaveta, desses novos, com carinha de smiley estampada como se fosse um sorriso.

Mas afinal, o quê tem a ver a terra do sol nascente com o parafuso?

Primeiro um volteio, num dia de outros outonos, ao instante que a esposa de um antigo vizinho, num tropel pelas ruas do bairro Guanandi, apanhou um objeto no chão e o ergueu até perto dos meus olhos: “o mundo não seria nada se não fossem os parafusos” – disse, fazendo aparecer a boca que o buço forte escondia, embaçada num olhar ao mesmo tempo sério e contemplativo.

Olhando atentamente para a cabeça do parafuso, li a frase impactante: made in Japan.

De posse do parafuso, pesquisei nos livros e logo fiquei sabendo se tratar de um país distante, exatamente do outro lado do planeta.

Alguém mais velho garantiu: “para chegar lá, basta cavar um buraco e depois se atirar a uma viagem até a terra do lendário povo dos olhos puxados.

Fiquei fascinado!

Quem poderia supor, debaixo dos nossos pés, existia um lugar fabuloso, antes impenetrável, mas agora bastava cavar para chegar até lá?

Quando contei a novidade, meu amigo Zé Lata ficou extasiado; no instante seguinte, já retirávamos com as mãos a terra barrenta da Sapolândia.

Desistimos da empreitada logo após os primeiros ventos de frio.

Tempos depois, no colégio Oswaldo Cruz, vi-me cercado por nisseis, e a amizade logo surgiu, marcada pelo riso aberto enfeitando aqueles olhos riscados: Oshiro, Arakaki, Katayama, Higa, Mori, Hokama, Paulino, Rose, Reginaldo, Maurício...

Com eles aprendi o significado do sol vermelho estampado na bandeira branca, também sobre a neve que cobria o topo da montanha, as histórias dos corajosos samurais, a valentia insana dos kamikazes, sobre o império e as encantadoras gueixas em seus vestidos de seda e dos cabelos presos num coque deslumbrante.

E a tristeza marcada nos rostos dos olhos puxados à simples menção do nome Hiroshima, “a rosa com cirrose, a anti rosa atômica”, que enfeita de forma triste os versos transformados em melodia na voz do Ney Matogrosso.

Agora me percorre a lembrança do friso pasmo em meu rosto ao me dar de frente pela primeira vez com alguém usando um kimono e ostentando com orgulho uma faixa preta presa à barriga.

O tempo passou, Made in Japan, a frase novamente ecoa pela minha memória enquanto afago os cachos dos cabelos do meu filho, adentrando ao seu sonho de conhecer o Japão, não por conta de um parafuso, ou via um buraco que atravesse a terra, mas pelos mangás e animes, sua adoração, desejo que agora também é meu, movido pela imensa vontade de ver de perto a neve que cobre o topo da montanha, o sol nascer no horizonte inverso, tão vermelho quanto está exposto na bandeira branca do Japão.

E num momento de pura magia, me perco sonhando enquanto aperto com os dedos o parafuso, desses novos, com a carinha sorridente, tipo smiley, desenhada na cabeça.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
6/4/2017 às 15h50

 
Turbulências

A primeira vez que voei ocorreu na semana seguinte ao atentado às torres gêmeas.

Antes eu não tinha medo de quase nada, só de fantasmas, lobisomem e ratos.

É bem provável que essa lista seja mais extensa, mas voltemos ao avião: o primeiro desconforto foi perceber que aeroporto é um lugar fácil de se perder.

Em meio a setas, monitores e gente estranha, me senti um vencedor quando encontrei o portão de embarque.

Eu estava um pouco ansioso, mas o meu queixo danou a bater quando uma voz feminina anunciou o embarque do vôo 6666 com destino a Campo Grande.

As escadas de alumínio refletiram alguns rostos e senti uma vontade enorme de fugir, recuar, mas nem tive muito tempo de pensar, já arrastado pelos passageiros que vinham atrás.

Meu lugar era na poltrona do meio e me lembro com detalhes o senhor enorme ocupando a janela e uma senhora muito magra que ficou na poltrona do corredor.

Exprimido entre eles, tentei mentalizar a quinta de Beethoven , embora o momento pedisse um rock pauleira.

A voz do piloto ecoou pela nave e bateu de vez o desespero.

Será que ficaria muito chato se eu pedisse para descer?

A comissária se postou ereta à nossa frente, fazendo gestos com os braços, aumentando minha aflição.

O suor quente escorreu por minha testa após o último aviso: em caso de queda no mar, as poltronas serviriam de canoa, ou algo assim: danou tudo, pensei, eu não sei nadar.

Tentei conversar com o sujeito da janela, mas ele estava entretido fazendo palavras cruzadas.

Olhei com olhar de filhote de cachorro para a dona magra no outro lado, mas ela estava em meio a uma oração.

A imagem das torres gêmeas era tudo o que eu conseguia pensar.

A voz do piloto me pareceu grave demais: “tripulação, preparar para decolagem”, e não disse mais nada, o bicho rugiu feio, os motores explodiram e eu percebi o quanto a vida não vale nada, bastava uma faísca errada e todos viraríamos carvão.

Joguei novamente as vistas para o lado da senhora magra e percebi, abismado, que ela simplesmente fechou os olhos e dormiu.

Como alguém consegue dormir estando próximo do fim de tudo?

Veio então o primeiro solavanco e meu olho esquerdo afundou.

Só o esquerdo, o direito permaneceu aberto mais que o normal, em constante vigília.

Novos solavancos se seguiram e tive ímpetos de gritar para que a dona magra do corredor acordasse ou o infeliz da janela parasse com as palavras cruzadas.

As luzes acenderam e a voz grave do comandante avisou que havíamos passado por uma zona de turbulência, garantindo tranqüilidade dali adiante; quanta maldade podia ter avisado antes, talvez eu não tivesse trocado o fígado de lugar com a garganta.

Quando enfim pousamos, abri no rosto o sorriso igual ao gato de Cheshire.

Meus pés tocaram o solo moreno da minha cidade e ainda que os ouvidos zunissem, senti um alívio tão grande que quis dançar a galopeira.

Nesse troço “num munto mais”, pensei, juntando restos de palavras misturadas ao suspiro de alívio.

Muitos vôos depois, já não sinto medo, apenas me entupo de calmantes e durmo a viagem inteira.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
9/3/2017 às 11h49

 
O fio de cabelo no lóbulo da orelha

Estava com o rosto diante do espelho contando as rugas quando percebi algo quase invisível se movendo.

Encostei o rosto até bem perto do espelho e me dei conta que havia um longo fio de cabelo no lóbulo da minha orelha direita.

Puxei o danado, gritei de dor.

Com o rosto abrasado, fiquei me perguntando por quanto tempo ele estava ali, sem que eu percebesse.

Por segundos insanos pensei em fazer com aquele fio de cabelo o mesmo que fazia com o cigarro nos tempos de fumante: puxar papo, conversar diversos assuntos.

Puxei novamente, a dor recuou porque já não existia a surpresa e no instante seguinte me preparei para dar fim ao incomodo, apanhei a tesoura e estiquei o fio até o fim, mas eis que reparando de perto, notei que o danado tinha um tom dourado.

Será que alguém vai acreditar que quando criança eu era loiro dos cabelos cacheados?

Talvez fosse o último remanescente dos meus tempos de cabelos cacheados e que tenha sobrevivido há mais de meio século.

Senti um inesperado apego por aquele fio de cabelo e até pensei em guardá-lo numa caixa de vidro.

Minha nossa, que louco é esse que guarda o fio de cabelo numa caixa de vidro?

Depois fiquei em dúvida se devia contar isso numa crônica.

Eis me aqui, decidido.

Devo declarar que desde muito moço sofro com a falta de cabelos.

Tenho cultivado ultimamente uma barba ralinha para disfarçar, que cuido com esmero, por vaidade e porque se tornou um motivo para eu ir a uma barbearia, costume que havia abandonado desde os anos noventa, quando os cabelos se foram e me tornei ligeiramente calvo.

Foi um tempo ruim, de repente, tudo despencou.

No começo, tentei disfarçar usando boné, mas não me acostumei, porque me pesava a cabeça e escondia os olhos.

Nunca entendi o sujeito que tem cabelos e usa boné.

Resolvi deixar para o outro dia o que fazer com o fio dourado. Quando acordei, corri para frente do espelho e procurei em vão o meu precioso fio dourado, mas notei apreensivo que só existia a maciez de sempre no lóbulo da minha orelha.

Será que durante o sonho puxei sem querer a ponta da orelha e o fio se soltou?

O que foi que sonhei, afinal?

Não me lembro de nada.

Mas recordei com riqueza de detalhes uma árvore imensa que existe bem à frente do colégio Dom Bosco, tão velha que deve ter visto de tudo, seus galhos secos insistem abraçar em tons cinza a cidade que engoliu o vilarejo, e lá no alto, bem no canto direito, num verde tão belo que emudece, despenca um fino galho de folhas verdes.

E me apeguei àquele galho verde para nunca mais, porque ele desperta a vitalidade, o conhecimento e toda a história que ainda pulsa na árvore antiga, talvez tal e qual o fio dourado, agora desaparecido na minha orelha.

Então pensei no amigo Marcos Estevão, que além de médico é poeta, psiquiatra dos bons, quem sabe numa boa conversa ele me indique algum remédio, ou apenas um bom gole de uísque, para por fim à falta que me faz aquele cabelo dourado, que sumiu sem se despedir, deixando esse inexplicável sentimento de vazio no lóbulo da minha orelha direita.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
5/2/2017 às 18h25

 
Toque uma canção antiga

Música antiga é atualmente um dos meus melhores passatempos.

Fico horas buscando no youtube aquelas canções do passado que de alguma forma me marcaram.

Tenho um gosto um tanto eclético, vou do rock ao brega, passeio em vôos rasos pela MPB, gosto também de samba e sertanejo, desde que sejam os de raiz.

É exatamente na raiz do samba que gosto de me perder.

Causa-me espanto quando alguém confessa que não conhece o Cartola, o compositor que afirmou que “as rosas não falam”, contrariando meu pensamento de outrora, que acreditava que as rosas sussurravam poemas.

E como sempre confundo rosa com flor, Nelson Cavaquinho me ensinou que espinho não machuca a flor.

Mas será que o espinho às vezes não se confunde com o perfume que a rosa exala?

Mais um clique na tela do computador e me torno apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco.

Por onde andará o Belchior?

Ele bem que avisou antes que iria sumir: “Se você vier me perguntar por onde andei...”.

De repente tudo muda quando ouço Creone, Barrerito e Mangabinha.

Quem?

O Trio Parada Dura, que navega num barco de papel em busca do castelo de amor e que acaba bebendo o orvalho das flores.

E já que falei tanto sobre rosas, espinhos e flores, devo acrescentar a canção divina que agora me invade os ouvidos causando enlevo: a pétala do Djavan.

Mas será que o amor é mesmo exato?

Rosa, flor, espinho, pétala...

Do que mais você precisa para compor um belo poema, amigo poeta?

Troco de novo o ritmo, curto Legião, Titãs, RPM.

Que coisa estranha esse Paulo Ricardo que nunca envelhece!

Fagner musicou os poemas da Florbela Espanca e da Cecília Meireles, e tudo ficou tão lindo...

Toca Raul! A minha turma costumava gritar para o carinha que dedilhava a viola, sentado num banquinho de bar.

E eu não sei se era efeito do álcool ou se por culpa da fumaça do cigarro, mas o cantor sempre se tornava a imagem perfeita do Raul Seixas.

Ainda que tivesse a cara lisa, o enxergávamos de cabelos longos e cavanhaque.

Nas iris de nossos olhos, entre um gole e outro de cerveja, depois de andar pelos quatro cantos do mundo, procurando, compreendíamos que somos feitos da terra, do fogo, da água e do ar.

E tudo voltava até dez mil anos atrás.

No final, o carinha do violão provocava: “tente outra vez”.

E a gente prosseguia tentando.

Uma noite de Nagibão – o melhor barzinho que já existiu em Campo Grande- era tudo o que precisávamos para que a vida prosseguisse pelos caminhos ternos da juventude.

Ah, que dor eu sinto quando hoje passo em frente e percebo que o Nagibão agora é apenas um estacionamento.

E troco de novo a música no Youtube, sim querida Mercedes, “el tiempo pasa, nos vamos poniendo viejos”.

Hoje eu entendo perfeitamente o trecho daquela canção do Geraldo Espíndola: “saudade existe pra quem sabe ter”.

Saibamos então sentir saudades, que no meu caso, basta um clique no youtube que o tempo volta, dói um bocado, mas é uma dor tão gostosa que acaba ajudando a viver.

E o que é a vida? É a rosa, os espinhos, são as pétalas que voam através do tempo em forma de lindas canções.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
26/1/2017 às 09h22

 
Ano novo, casa nova.

Depois de quase duas décadas morando na mesma casa, eis que enfim nos mudamos para a casa nova.

Mudanças me causam o assombro de tudo que é novo e qualquer pensar ligeiro, remete à antiga morada.

Na casa antiga deixei meu pé de limão, boas lembranças e os gatos que não quiseram nos acompanhar.

As paredes que agora nos cercam são azuis e até o cheiro daqui é diferente, mas posso ver da sacada a cidade abaixo, pulsando no ritmo acelerado de sempre.

Dizem que para ser completo, todo homem precisa escrever um livro, ter filhos e plantar uma árvore.

Eu já escrevi quatro livros e tenho dois filhos, então, só me falta plantar a árvore.

A casa nova é de esquina, no cruzamento de duas ruas de pouco movimento, típico dos condomínios fechados, cortado pelo verde das árvores lá fora, o que me faz sentir falta da jabuticabeira no antigo quintal, que dá frutos adocicados, que eu tentava dividir com os passarinhos, mas que quase sempre acabava em brigas, porque os bichos bicavam as frutas maiores antes que os meus dedos a tocassem.

Passarinhos existem aos bocados por aqui, como o casal de coruja que fez casa cavoucando o barranco que fecha os muros.

As corujas também estão de casa nova.

Num relance percebo que preciso mudar a posição da última lâmpada, que dela desprende um feixe luminoso que apaga o arco-íris.

Um casal de tucanos corta o ar, seguidos de pássaros que desconheço, trazendo até a minha lembrança os tempos que as andorinhas tingiam de cinza o céu da cidade a todo entardecer.

Que fim levaram as andorinhas?

Ajeito meu corpo na almofada do sofá com todo cuidado, que o sofá me custou os olhos da cara.

Dois mil e dezessete há de ser melhor que o ano passado.

Os pássaros prosseguem atravessando o céu da nova casa, cortando o silêncio, que só não é completo porque é rota dos aviões, mas que na imaginação, faço deles desenhos de outros pássaros maiores, daqueles que não existem mais.

Ainda há pouco, percebi a distante luz dos olhos de um novo vizinho e fiz com as mãos um aceno breve, sem jeito, que selou talvez o início de uma nova amizade.

Algumas boas lembranças da casa velha me beliscam, provocando a dor da saudade:

Meus filhos nasceram na casa velha, grandes amigos moram nos arredores, o meu nariz reclama a falta do cheiro das telhas de barro e uma aflição toma conta de mim ao perceber que tudo era perto da antiga casa e que agora, até para comer, tenho que atravessar a cidade.

Detesto mudanças, mas entre um gole de café e outro, permito que a casa nova me preencha.

Por aqui espero passar uma velhice tranqüila, observando a tinta dos muros secar nos anos vindouros, durante os quais, solenemente permitirei o sopro do vento esticar a manga da minha camisa, até que a irresistível vontade me faça tocar a terra com as mãos e cumprir a última missão, aquela de plantar uma árvore, o pé de jaboticaba, que é para recordar sempre da casa antiga e ter o pretexto para quando as frutas ficarem maduras, brincar de brigar com os passarinhos.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
2/1/2017 às 18h43

 
O pulso do natal

O leitor que me acompanhar nessa crônica, certamente me tomará como uma espécie de Ebenezer Scrooge, o imortal personagem de Charles Dickens, que não conseguia incorporar o espírito natalino.

Acontece, porém, - e sei que estou sendo repetitivo - que a sinceridade me abraça quando digo que considero o natal uma festa chatíssima.

Acesso o youtube e escuto “O pulso” da banda Titãs.

Adoro essa música!

Que fim levaram os antigos cartões de natal? Antigamente eu passava horas escolhendo cartões que depois enviava para os amigos, como ainda hoje faz meu amigo Manolo, que dos EUA, todos os anos me envia cartões de natal: nunca consegui lhe enviar de volta sequer um reles cartão, e fico naquela de apenas agradecer, numa mensagem seca de muito obrigado, via whatsapp.

Nesses momentos, Mister Scrooge sentiria orgulho de mim.

Mas porque será que chove tanto em dezembro?

Eu detesto chuva.

Visito em pensamentos antigos natais, revejo os amigos e a canção que gostávamos de cantar longe dos adultos: Jingle bels, jingle bels, acabou o papel...

Ainda navega em mim a lembrança do pé de goiaba no quintal de casa, que enfeitamos com bolas de isopor, mas à noite veio a chuva de dezembro, forte e rápida, levou tudo embora e daquilo só guardei melancolia.

É no natal que esse sentimento aflora, assim que me vejo diante da figura nórdica do papai Noel: “ho, ho, ho” diz o senhor fantasiado de barba e roupão vermelho, sem se importar com a minha indiferença.

Talvez não passe de trauma de infância, porque nunca tivemos casa com chaminé e enquanto o filho da vizinha ganhava uma bicicleta, eu me contentava com um carrinho de plástico sem as rodas.

Ok, Mister Scrooge, eu também não gosto de vinho, peru tem a carne sem graça e castanhas me provocam engasgos.

Mas o pulso pulsa.

Arroz com uva passa? Não, passo, prefiro farofa.

Bebe-se muito no natal, penso, enquanto tomo mais um gole de cerveja.

Não devia fazer isso, um copo a mais é um neurônio a menos.

O pulso ainda pulsa.

Quando o fecho da noite de natal se aproxima, o único pensamento que me ocorre é que preciso urgentemente fumar um cigarro.

Eu não posso fazer isso.

Uma tragada a mais é um dia a menos de vida.

O pulso segue pulsando.

Alguém, por favor, me sirva um pedaço de panetone!

Eu sei que já disse diversas vezes que detesto panetone, mas talvez combine com o vinho, que agora está tão doce...

A noite termina e resta uma tênue luz que escapa de uma árvore de natal.

O pulso haverá de pulsar na manhã seguinte.

Suma daqui, Mister Scrooge!

É hora de preparar os festejos da virada de ano, que este que está acabando foi péssimo, levou David Bowie, Prince, Ferreira Gullar, Geneton Moraes Neto, um time inteiro de futebol.

No fim de tudo, fica em mim o inquietante sentimento que o natal é melancólico e é preciso permitir que o vento de coisas boas e novas assopre em meu rosto a brisa da fé e esperança, que o ano que vai começar seja muito melhor para todos e que o pulso prossiga pulsando por outros tantos natais.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
15/12/2016 às 10h04

 
Fogo que se alastra

Fico surpreso quando alguém me chama de poeta.

Nada contra, fico até envaidecido, mas não sou poeta, sou cronista, contador de casos, inventor de frases.

Devo isso ao gosto pela leitura, sou para sempre um devorador de textos.

Não tive uma infância diferente dos da minha geração, algum tipo de píncaro ou coisa assim, gostava de jogar bola, soltar pandorgas e competir com bolitas.

O único senão é que, diferente dos meus amigos, sempre gostei de ler, não dormia sem antes pegar um velho livro empoeirado na estante, daqueles que traziam na essência o prazeroso cheiro das páginas do livro.

Numa época que não existia internet, eu mergulhava no mundo através da leitura e disso carrego enorme orgulho, aprendi muito, descobri até que a Lituânia existia, vi terras que meus olhos jamais alcançarão, conheci lendas, vesti roupas iguais às de Carlos Magno e junto dele caminhei em busca da conquista da Itália.

Fiz armas, armazenei amores impossíveis e, num rompante, desprezei Rapunzel.

Num espasmo de surpresa profunda, descobri que no interior da Inglaterra, viveu no século XIX uma escritora de excepcional talento para criar personagens que entraram na minha memória para nunca mais sair.

Era uma moça extremamente tímida chamada Emile Brontë, que me contou de um certo morro, pelo qual se espalhavam os ventos uivantes.

E desde então, o vento se misturou ao fogo que em mim se espalha.

Eu ainda não havia lido Vinicius de Moraes quando escrevi pela primeira vez “Fogo que se alastra”, até que me peguei diante de um texto que o poetinha escreveu, muito antes, em homenagem ao Antonio Maria: “Fogo que se alastra”, dizia em forma da saudade que a morte do amigo lhe causou.

Ah, eu achei aquilo tão lindo, mas ao mesmo tempo decepcionante, porque imaginava que a frase fosse minha, já que a construí num momento de incertezas, diante de um desses percalços da vida que a gente não sabe o que vai acontecer mais adiante e se assusta quando percebe as dificuldades aumentando sem cessar, sem dar trégua.

Então escrevi no canto direito do meu caderno a frase seca: “A dor que me consome é fogo que se alastra!”

E não parei nunca mais, permitindo que o fogo prosseguisse se alastrando.

Quando acordei nesse sábado, me detive diante da foto do Mário Quintana.

A ternura constante emoldurando o rosto do poeta serviu-me de inspiração para escrever essa crônica.

Diante dos olhos serenos do grande poeta, o fogo começou a se alastrar dentro de mim.

Mario Quintana escreveu certa vez: “O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.” E derreteu outra frase que eu vinha aprontando e que falava algo semelhante a isso, que se tornou imbecil depois que li o Quintana, algo mais ou menos assim: “Não se pode desprezar a suavidade do silvo do vento.”

Resolvi então deixar o vento em paz.

Mas sigo tentando outras frases, que logo virão, ainda que o vento não assopre e o silvo muitas vezes se perca entre as labaredas do fogo que se alastra.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
28/11/2016 às 10h52

 
Reflexos sobre a solidão

Escrever é um ato triste, solitário e muitas vezes doloroso.

Mas então porque raios você escreve? Perguntará alguém insensível e eu lhe responderei que escrevo porque senão alucino de vez.

Escrever é doloroso porque requer solidão.

No entanto, em alguns casos (aqui me encaixo) não há nada mais libertário do que escrever.

Eu só me sinto solitário quando estou escrevendo, ou quando acordo no meio da noite e não consigo mais pegar no sono, como na noite passada, que de repente acordei e o vazio da noite espalhou-se quarto adentro.

Virei de um lado para o outro e nada do sono retornar e me atingir feito um caminhão desgovernado, como de costume.

A esposa e os filhos dormiam.

É gostoso ouvir o ronco alheio.

Esfreguei meus olhos alucinadamente, estranhando a ardência do cansaço e a ausência de sono – deve ser fome – imaginei e já dei dois passos até a porta, num esforço tremendo para não fazer barulho.

Ao sair do quarto, dei de frente com o silêncio, senti o colossal clamor do frio das paredes e percebi o quão dolorosa é a solidão.

Como será que algumas pessoas conseguem viver sozinhas?

Caminhei coçando os dedos no assoalho até me dar de frente com a geladeira, que abri e fechei em segundos, sem perceber.

Girei os passos até o sofá da sala e a solidão caminhou junto.

Um pedaço de papel e uma caneta eram tudo o que eu precisava, mas o papel estava amarrotado e a tinta da caneta falhando.

Ainda assim, risquei algumas palavras e até tentei sorrir ao constatar que mesmo tendo a solidão como tema, definitivamente não sei fazer poesia.

Mas escrevi frases em esperanto, eu alucino quando escrevo.

Um blues cairia bem se eu soubesse onde guardei os fones de ouvidos.

Quando tudo está tão quieto, as paredes asfixiam de um tanto que reneguei os momentos que reclamei dos barulhos da vida.

Lembrei-me de uma frase impactante que li nas redes sociais, dessas que não citam o nome do autor: “Às vezes se fica tanto tempo sozinho, que a solidão deixa de ser ausência e passa a ser companhia”.

Conheci uma senhora que para fugir da solidão, criava cachorros e gatos.

Senti vontade de acordar todos de casa, mas que culpa eles têm se não consigo pegar no sono e as paredes da casa me asfixiam?

Resolvi fazer um café, mas não sei absolutamente nada da nossa cozinha e a chaleira apita quando a água ferve.

Pelas frestas da porta e nos vãos da janela, o dia sequer ameaçava clarear e eu contava aflito o passar dos ponteiros do relógio, um minuto apenas, mas que demorou uma eternidade.

Perdido em tantos pensamentos, acho que cochilei um tantinho, tomado pela felicidade ao abrir os olhos, soprados pelo despertador, que finalmente tocou trazendo aos poucos os movimentos da rua, o latido do cachorro, o ronco de um avião cruzando os céus e logo meus olhos cansados se deram com os rostos da minha mulher e dos meus filhos desfilando à minha frente, tapando enfim o silêncio das paredes, anunciando um novo dia, desenhando no meu rosto riscos de felicidades.

Sou um alucinado escritor que abomina a solidão.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
12/11/2016 às 21h19

 
A montanha

Descobri dias desses que ainda guardo na memória o cheiro da infância, e que o tal cheiro é de grama molhada de orvalho misturada com bosta de vaca.

Lembrei-me disso assim que meu caminho cruzou com o de uma senhora dos cabelos brancos e do riso meigo.

Toda senhora dos cabelos brancos me remetem à minha avó.

Não sei precisar quando foi que os cabelos da Lolinha se tornaram brancos, acho sinceramente que ela sempre teve os cabelos brancos.

Eu sinto muito a falta da minha avó.

Feliz o sujeito criado com avó.

Lolinha dizia que a vida é uma montanha, que começa nas gramas que cerqueiam a campina e termina numa árvore no centro do topo da montanha.

Para alcançá-la é preciso saber viver.

Hoje consigo vislumbrar a montanha e até mesmo as folhas verdes da frondosa árvore no cume.

Minha avó dizia que quando acaba a campina, nos arrastarmos pelo sopé, até que surgem as primeiras pedras, que muitas vezes conseguimos triturar, noutras as colocamos de lado, evitando o peso, ou simplesmente damos a volta, com medo do tropeço.

Um rio atravessa a montanha; alguns trechos são de água cristalina, na qual os peixes borboleteiam em saltos espetaculares, depois é água barrenta, por onde não se navega sem ter em mãos remos firme.

Visto de perto é um rio por demais violento.

E surgem os bichos, de todos os tipos, cores e tamanhos, formando barreiras medonhas que precisamos ultrapassar.

Silenciosas metamorfoses acontecem no trecho entre o rio e a mata.

No meio do caminho aparecem as rosas e é necessário prestar muita atenção, evitar os espinhos, porque uma dessas rosas, um dia será sua inseparável companheira.

As árvores vão surgindo, de todos os tipos e cores, algumas de raízes podres, outras tão imensas, que simplesmente não conseguimos nelas nos agarrar.

Lá pelos quarenta e cinco anos, finalmente chegamos ao cume da montanha e tocamos a grande árvore.

É quando o tempo passa mais depressa e logo se faz necessário retornar.

No caminho de volta, que agora é descida, por isso mais fácil, revemos na outra margem tudo o que passou, estranhando ao se dar com caminhos mais fáceis, que evitamos, sem querer, percebendo, num riso pasmo, que nem tudo foi tão verde, mas o que antes fora cinza, olhando de perto, nem era tão escuro assim.

É quando se faz possível rever o rio e identificar as margens que o oprimem, cada lasca de barranco que cai é o sinal dos passos dados, ás vezes firmes, às vezes tortos.

E embora na descida a saudade nos desmonte, não é recomendável remexer os escombros dos velhos quintais, procurar nas rachaduras da montanha algo que se perdeu, pois tudo é nuvem, vento que sopra, passou, não volta mais.

Finalmente consigo entender o que a minha avó queria dizer quando afirmava que as folhas das árvores, que antes eram ásperas e duras, agora estão lisas e soltas, que é preciso manter os olhos bem abertos aos insondáveis mistérios da vida, (dominado) pelo fascínio que sopra da montanha e aos poucos me preenche.

E tudo termina, depois recomeça, naquela mesma grama cheirando a bosta de vaca.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
31/10/2016 às 20h30

 
Quase milionário

Estava sem nada a fazer na barbearia, esperando o Bruno cortar os cabelos.

Ao lado da barbearia existe uma casa lotérica. .

Não sou dado a apostas, para mim jogo de azar quer dizer exatamente isso: azar. .

Mas como o corte demorava a ficar pronto, resolvi esticar as canelas e quando vi já estava preenchendo uma cartela da lotofácil, que foi a que me pareceu mais fácil de ganhar e que os números já seriam sorteados no final daquele mesmo dia. .

“Ficou rico da noite para o dia”, li essa frase em algum lugar e agora ela se encaixa perfeitamente nesse texto. .

O prêmio era tão vultoso que faria coçar as mãos de certos políticos. .

Um pensamento insólito, tão forte, garantia que eu iria ganhar, já cheguei em casa arrotando licor.

Quando abri a internet e consultei o resultado, decepção.

Por míseros três números, que não foram sorteados, continuo liso na lida.

Entre os três números que não saíram, o 13 me chateou profundamente, justo meu número da sorte, me abandonou.

Pensando bem, o que eu faria com tanto dinheiro?

Num divagar silencioso, a primeira atitude seria mudar os horários; dormir tarde, acordar tarde, comer a comida que me traria até o beiral da cama o mordomo Alfredo – sim, porque mordomo que se preza se chama Alfredo – depois tomaria banho na banheira de hidromassagem, beberia uma taça de vinho raro, ignorando o fato que nunca gostei de vinho, sempre preferi a cerveja, mas agora, podre de rico, o que me importa é a safra do vinho.

Daí usaria uma sandália de veludo e cobriria o corpo com tecido de seda, por cima, claro, um pulôver João Dória amarrado sobre os ombros, já ansioso que logo à noite, durante o jantar, finalmente descobriria que diabos de gosto têm o tal caviar.

E as horas caminhariam devagar, no mesmo ritmo dos meus passos, aborrecido com Jarbas, o motorista – sim, porque todo motorista que se preza se chama Jarbas - que demora a tirar o Jaguar da garagem.

Num estalo de dedos perceberia a necessidade de ser um ricaço benevolente, então, mandaria dinheiro para as ONGs dos amigos mais chegados e distribuiria brinquedos às crianças carentes no natal.

Nas reuniões com o seleto grupo de amigos, todos ricos, é claro, entre taças de champagne e arrotos de caviar, discorreria elogios sobre a obra de Warren Buffett, embora nunca tenha lido uma mísera página de seus livros.

E no final da reunião, noutro estalar de dedos, pediria para que Alfredo servisse a sobremesa, um doce insosso, de nome estranho e comprido “brownie de chocolate negro com baunilha de Madagascar”, que custou os olhos da cara, embora me corroesse o desejo quase doentio de comer paçoca de amendoim.

E na solidão de depois da festa, entre suítes, quartos e banheiros, acalentaria o sonho de comprar o Operário e assim reviver os tempos bons de infância, que a gente formava filas que entupiam as avenidas, marchando à pé - valorosos pés da infância pobre - até chegar ao Morenão e das suas arquibancadas de concreto, sentir novamente aquela felicidade de criança, só de ver o time em preto e branco entrar em campo, sensação muito mais saborosa que caviares, vinhos e champagnes.

Depois dormiria pesado, porque ser rico é bom, mas cansa.

Putz, ainda bem que aqueles números não saíram.

De qualquer modo, só para garantir, amanhã vou fazer uma nova fezinha na loteria.

Dessa vez, não vou apostar no 13.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
15/10/2016 às 13h33

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