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Sábado, 21/10/2017
Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ
ANDRÉ LUIZ ALVEZ

 
A máquina de escrever.

Não são normais os impulsos que me arrastam até bem perto de coisas antigas.

Se pudesse, moraria num antiquário, faria de velhos livros travesseiro, ouviria discos de vinil e manteria o olhar sereno, a voz calada, até ganhar a confiança da máquina de escrever jogada no canto fundo da loja, quase sem cor, num modo de mágoa, como se me cobrasse os tantos anos sem uma única visita.

Se houvesse gravado o instante do primeiro som das teclas invadindo meus ouvidos, ele não seria tão real como agora, quando aliso a máquina de escrever e apago o resto do mundo.

É aquele momento que o tempo – esse velho canalha e banguela – me arrasta até o ano de 1982.

Eu era um tímido rapaz do corpo esticado e dos cabelos ruins, repleto de ideais nunca concretizados.

A lida como aprendiz de ourives já havia me mostrado que eu não tinha habilidade suficiente para vencer naquela profissão.

Meu mestre, Gilberto Billerbeck, me falava, armado no seu assustador jeito sincero, quase todos os dias: “seu destino não é o metal, é o papel”.

Ele sabia o que falava: o alicate e as demais ferramentas judiavam das minhas mãos finas.

Eu precisava aprender a datilografar.

Ainda lembro com perfeição o lamber de dedos contando o dinheiro da matrícula, guardado na paciência de um monge, e a euforia assim que pude me sentar diante daquela que considerei a mais perfeita invenção de todos os tempos: a máquina de escrever.

O sistema quwrty logo dominei, em pouco tempo conseguia datilografar mais de quinhentos toques por minuto.

Aprendi ligeiro todos os movimentos, os dedos afundando as teclas, as mãos ágeis, quase um tapa, movimentando a alavanca, passando o carro para a linha de baixo, formando outro barulho inesquecível, como se fosse o eterno bater d'asas de um belíssimo pássaro. Tlec, tlec, tletlec, rec, rec, vupt!...

Era um tempo de medos, incertezas e tenebrosos segredos, daquelas coisas que só se confessa ao vento, mas naquele momento, o papel branco bem à frente dos olhos, pedia registros.

Escrevi desabafos no ritmo do barulho da máquina de escrever e depois joguei tudo no lixo.

Ah, que saudosismo bobo é esse provocando um fio fino de lágrima, quente e salgada, a riscar os meus olhos?

Ainda bem que não tem ninguém por perto

– eu choro, mas tenho vergonha – e lembro, naqueles tempos, os comandos usavam fardas.

Às favas com o seu autoritarismo!

Escrevi certa vez, marcando com tinta vermelha o papel virgem e branco, e depois completei, quase uma facada certeira na opressão, “se oprime o meu livre pensar e minha maneira de me expressar, és então meu inimigo!” frase forte que logo depois apaguei, com medo de perder várias coisas, principalmente me impedissem de escrever.

Anos depois, tornei a datilografar, na mesma letra vermelha e papel branco: Vencemos!”

Será?

. E foi na máquina de escrever o meu primeiro verso, torto, sem sentido, desprovido de sutilezas e ele também apaguei para nunca mais me aventurar em poesias, assim como elimineis com várias batidas na tecla X as sensações inconfessáveis que moça dos cabelos caracolados e boca carnuda, moradora da casa na esquina, me provocava.

Nem lembro mais o nome dela...

E agora, nesse canto úmido da loja de antiguidades, aliso com a ponta dos dedos o teclado da máquina de escrever e uma montanha de pensamentos me invade; quem sabe no futuro eu perca o resto de medo e escreva nela sobre tudo o que vivi - o corpo lasso, mas a mente sadia - somente para ouvir de novo aqueles barulhos confidentes de outrora e alimentar meu coração saudoso, sedento da vida, do ancião que desmorona e ainda guarda lembranças, doces, amargas, repletas de espantos, coisas que desde muito moço carrego e hoje já não me avassala.

Tlec, tlec, tletlec, rec, rec, vupt!...

Saí da loja de antiguidades levando nos braços a velha máquina de escrever, ansioso como um menino pobre que ganha um brinquedo.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
21/10/2017 às 14h32

 
A Joaninha e alguns vícios

Estava perdido nos labirintos do meu pensamento, buscando um assunto para escrever nessa crônica, quando uma joaninha pousou nos meus ombros.

Pensei dar um peteleco, mandar o bicho longe, mas logo a cor de suas asas tingiu meus olhos e tudo parou.

Como a natureza conseguiu aquele vermelho com pintinhas pretas, tão simétricas, tão perfeitas?

Por coisas assim, acredito na existência de Deus.

Bebi um gole de coca cola.

Atualmente, beber coca-cola é meu único vício.

Deixei a Joaninha caminhar sossegada pelo meu ombro e fiquei imaginando que no lugar dela, de posse daquele belo par de asas, não ficaria preso entre quatro paredes, escalando um corpo desconhecido, transpirante, quase medonho; estaria atravessando uma vasta planície, repleta de mistérios e coisas desconhecidas, encarando o verde, fazendo do sopro do vento uma espécie de canoa, na qual, feito um surfista dos cabelos espalhados ao vento, ergueria meu corpo num movimento oscilante, mas daqueles de deixar um sorriso na cara.

E não sentiria medo, apenas me deixaria levar até o lugar mais lindo que possa existir.

De repente, um cheiro de carne de panela despenca pelo ar.

Talvez a Coca-Cola não seja meu único vício.

Não sei se o pronome “eu” possui plural, mas sei que dentro de mim repousam vários eus e alguns deles, às vezes, me escapam, tomados pela loucura, a insanidade completa ao tentar enxergar os olhos de um inseto.

A curiosidade mata o meu decoro, armado por duvidas insanas: qual a serventia dessa sua antena, senhora Joaninha?

Percebes a minha existência?

Será que vale a pena lhe contar sobre a nefasta verdade humana?

Novamente acredito na existência de Deus, que não se mostra, para Ele sou apenas como aquela Joaninha...

Será?

Tenho o eterno vício de me prender em laços de dúvidas.

Qual será o pensamento da Joaninha?

Na loucura, às vezes me desespero: ei, joaninha, eu estou aqui, eu e o vento invisível!

E num instante, me apego à pequena fagulha da raiz inexata, mãe de meus sentimentos, aquela que permanece apensa, na rachadura da montanha que desaba, se transformando numa rápida certeza: Deus é como o vento, exatamente aquele que Espinoza contou.

Aliso a pintinha preta do bicho e a imagem me sugere o momento da criação, quando Deus fez primeiro o besouro, achou tão feio que resolveu pintá-lo de vermelho e encher de bolinhas pretas.

O bicho percebe meu desassossego, bate as asas e voa até a ponta da mesa.

Fico resmungando, chateado, tentando pensar noutra coisa e deixar o inseto em paz.

Lembro então que sou viciado em frases, agora mesmo, um delicioso aforismo de T. S. Eliot me ocorre: “Num país de fugitivos, os que andam na direção contrária parecem estar fugindo”.

Ela continua longe.

Penso em maldades: fique sabendo Joaninha, se eu quiser posso lhe dar um fatal peteleco com os dedos e acabar de vez com sua vida frágil.

Sorte sua que hoje tem jogo do Botafogo e estou de bom humor.

Sou viciado no Botafogo.

Sinto uma ardência no estômago. Será a coca-cola ou fome?

Fome, com certeza.

Em algum lugar da casa deixei metade de um bolo de fubá.

Mais tarde vou coar um café.

Tem coisa melhor que café com bolo de fubá?

Sou viciado nisso também.

Ando um tantinho viciado no whatsapp, embora algumas mensagens e os terríveis erros de português me causem aborrecimento e irritação.

Com toda certeza desse mundo a coca-cola não é meu único vício.

Anderson, meu irmão, chama nossa mãe de Joaninha.

Sabe-se lá o porquê, de repente, para ele, Vidalvina virou Joaninha.

Sou viciado na minha mãe, na mãe dos meus filhos, em todas as mães. Dona Creuza, mãe do meu melhor amigo, certa vez me convidou para um almoço surpresa. Serviu camarões recheados numa abóbora, sem saber que eu detesto camarões e não como abóbora nem por remédio. E ainda assim o meu sentimento pela dona Creuza sempre foi o do mais puro amor fraternal.

Isso já faz algum tempo, nem sei se dona Creuza continua viva. Agora, maduro e vivido, talvez eu comesse o prato que ela tão delicadamente me serviu...

O tempo passa depressa demais, estou chegando àquela fase da vida que bom mesmo é voltar a ser criança, permitir algumas loucuras, como essa de conversar com um inseto, que talvez me tenha como um porto seguro.

É o que sinto assim que ela retorna a pousar no meu ombro.

Mas que inseto lindo!

Sei, entretanto, que meus olhos logo irão acompanhar o vôo de despedida dessa Joaninha, um tanto torto até encontrar a liberdade após a janela.

Surgiu do nada e para o nada partirá, deixando em meu rosto os ares úmidos do adeus.

E já sinto saudades.

Acho que fiquei viciado em Joaninhas...

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
5/10/2017 às 10h03

 
O fantasma de Nietzsche

No cruzamento da grande Avenida, a visão de um par de tênis enroscado nos fios de alta tensão, chamou a atenção de Nietzsche.

Seus dedos finos se perderam entre o colossal bigode.

A lua refletiu seu rosto mostrando um sorriso que considero ingênuo, mas sei, dentro daquele corpo magro, atrás dos bigodes medonhos, repousa uma fera.

De repente, pergunta: “Consegue ouvir o barulho dos coveiros enterrando Deus?

Finjo que não o compreendo, formo dúvidas na testa, já não sei se ele está falando em português ou se sou eu que compreendo alemão.

Ele insiste: “Gott ist tot! ”“. Ah, meu bom amigo, você não contava com a fé cega dos incautos! - respondo e o fantasma de Nietzsche sorri.

Depois completa, armado numa voz baixa e rouca: “Quando disse Deus, me referia ao homem” ele responde afinal, colocando fim às minhas dúvidas.

Certo é que esse meu amigo sempre teve a vocação dos abismos.

Chegamos enfim à feira central.

Ele assovia “The boxer” do Simon and Garfunkel.

Firmei meus olhos naquele corpo magro no qual se destaca o pomposo bigode.

“Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas” ele diz, me arrancando um suspiro.

Depois dá de ombros e cumprimenta todos os garçons que se postam na frente das barracas armados com cardápios coloridos.

Mas eles não o enxergam.

De repente faz o par de sobrancelhas dançar na testa: “como esvaziamos o mar? Como apagamos o horizonte?” Ele pergunta e não sei responder.

Oh senhores do destino, porque não me enviaram Fernando Pessoa?

Uma senhora cruza o nosso caminho armada num rosto de espanto, como se fosse a única a enxergar o fantasma ao meu lado.

A mortalidade de nós humanos estava escancarada no rosto daquela mulher.

A cadeira da banca me aperta, faz lembrar que estou num processo irreversível de obesidade.

Nietzsche não tem esse problema, se encaixa perfeitamente entre o banco e a mesa, faz um sinal em minha direção e sei que quer comer sobá.

Quando a comida chega, seus olhos brilham e ele come com voracidade - a cena do macarrão triturado na boca pequena, avançando sem limites entre os bigodes espessos, jamais haverei de esquecer -.

Acho que Nietzsche, ao menos depois de morto, deveria raspar aquele bigode ridículo.

“Humanos, somos demasiado humanos” afirmou entre uma garfada e outra.

Depois que se fartou, saímos caminhando pela feira.

Seus olhos atentos registravam tudo, quis saber como é que um bolo pode ser chamado de sopa; contei que era coisa dos paraguaios e ele quis saber quem eram os paraguaios.

Um trio armado de harpa, sanfona e viola, no canto final da feira, me salvou e ouvimos, encantados, os acordes e a voz maviosa do senhor grisalho ao centro: “Que dulce encanto tienen tus recuerdos mercedita, aromada florecita, amor mio de una vez...” e meu amigo ficou tão encantado que de seus olhos gotejaram duas pontas de lágrimas: “e aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música”.

Caminhamos mais um pouco.

Logo se deteve diante de uma garrafa de cachaça exposta num balcão do corredor. “vamos beber” ele disse.

Nem quis lhe contar daquela bebida, tão forte que queimava a garganta, sabedor que meu amigo bebia litros de absinto quando era vivo.

Depois do susto inicial, bebeu mais três ou quatro goles e seus olhos ficaram vermelhos.

Na saída, uma chuva fina compunha o ritual de despedida.

Acompanhei seus passos indo se perder no brilho fosco dos trilhos mortos, desaparecendo aos poucos no poço ao centro da rotunda.

E lá se foi, feliz, e eu fiquei esfregando os olhos com as duas mãos, absorto na imagem final daquele indecifrável delírio.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
7/9/2017 às 15h27

 
O batom

Naquele fim de tarde de um dia frio, Horácio decidiu que havia chegado o momento de trair.

O casamento de sete anos com Nair já estava desgastado e ele sofria horrores com fantasias sexuais: comia todo mundo; a mulher do vigia, a secretária gorda dos dentes falhos, a mãe de um amigo, a menina magra, completamente sem bunda, que vendia buquê de flores no sinal fechado.

Sentia remorso, jamais duvidou da fidelidade de Nair.

Quando dormia, sonhava que era o jovem de antes, de vinte e poucos anos, tão belo, tão saudável.

E, novamente, comia todo mundo; as que realmente conquistou, as que deixou escapar, algumas inexistentes, estrelas da TV e do cinema e até uma freirinha linda dos olhos azuis que conheceu quando ainda eram crianças.

Não aguentava mais o desespero.

Optou por marcar encontro com uma mulher que conheceu através de um site de relacionamentos.

Seu perfil era claro: "procura sexo casual".

O nome da moça, Carmem, despertou-lhe antigos desejos no simples lembrar da dona do puteiro mais famoso da cidade, uma paraguaia dos cabelos negros como a noite, longos até a cintura e dona da boca borrada de batom dum intenso vermelho, a quem ele sempre sentiu atração, mas o receio de frequentar um lugar daqueles, o fez recuar.

Antes de sair do consultório, sentiu um frio na barriga e uma última fagulha de arrependimento.

Ligou para a esposa:

- Filinha, faz aquele bife acebolado que hoje vou trabalhar até mais tarde...

Nair respondeu com a habitual cortesia, prometendo, além do bife, uma saborosa polenta.

Os ponteiros do relógio demoravam a passar mas Horácio não pensou em desistir.

Quando enfim fechou o consultório, acenou brevemente para a secretária gorda dos dentes falhos e ela sequer lhe respondeu.

Girou a chave de ignição do carro e partiu para a aventura.

Não tardou a identificar Carmem, debruçada no canto esquerdo do balcão do bar.

Ela tinha os olhos puxados e claros, os cabelos tingidos de loiros, a boca pequena, porém carnuda e um belo par de pernas.

Horácio sempre gostou mais de pernas. Trocaram palavras rápidas, conforme combinado no site de relacionamentos, beberam juntos e numa só golada o copo ao meio de conhaque.

Poucas palavras durante o caminho até o motel. Horácio percebeu que somente o nome e o intenso batom vermelho borrado na boca combinavam com a dona do puteiro de outrora.

A Carmem diante dele era mais nova e (imaginou) mais fogosa, desde que entrou no carro, não parava de alisar suas pernas, os joelhos, tudo o mais... E fizeram de tudo no quarto.

Carmem beijou Horácio como se ele fosse o único homem do mundo.

Ele devolveu todos os carinhos, na mesma intensidade.

Quando enfim saciados, cada um caiu para um lado da cama, exaustos.

Um cheiro forte de morango permanecia invadindo o nariz de Horácio.

Ele caminhou até o banheiro e sorriu ao verificar sua boca suja de batom.

Tentou limpar com papel higiênico.

Nada, o batom permanecia intacto.

Lavou com água e sabão líquido.

Sem efeito.

Um leve desespero percorreu sua espinha, trazendo a imagem cândida de Nair fritando os bifes. Resolveu pedir socorro a Carmem:

- Filinha, esse batom não quer sair da minha boca.

Ela o encarou como quem encara um fantasma:

- Ihhhhh...Esse meu batom é mesmo ruim de sair...

- Mas você deve passar alguma coisa, um líquido que retire...

- Não...Eu só uso esse...Vou retocando todos os dias pela manhã, ele prega mesmo na boca.

Horácio podia sentir o cheiro do bife e também os olhos de Nair pairando por cima da sua boca suja de batom.

O desespero bateu de vez.

Chacoalhou Carmem pelos ombros:

- O quê nós vamos fazer agora?

Ela sorriu, ligeiramente maliciosa:

- Você eu não sei...Eu uso batom desde os quatorze anos, quase nunca estou sem...

- Filinha, você tem que me ajudar!

- Ah cara, sei lá, tenta passar álcool.

Ele então jogou no rosto o tanto que coube de uisque nas mãos feitas em concha.

Esfregou com força, para cima, para baixo, para os lados.

Tudo o que conseguiu foi espalhar ainda mais o batom no rosto. Saíram do motel às pressas.

Procuraram uma farmácia.

O atendente, um senhor calvo e de óculos fundo de garrafa, não percebeu a mancha, mas entendeu o pedido.

Afirmou que tinha um removedor de manchas infalível. Horácio sorriu ao mesmo tempo em que pedia para ocupar o banheiro da farmácia na intenção de usar imediatamente o removedor.

Olhou antes para o espelho, suspirou num pequeno alívio e lambuzou o rosto com o removedor.

A ardência o fez recuar ligeiramente e tapou o grito que lhe veio à garganta ao perceber que o único efeito que conseguiu foi mudar a cor do batom, agora mais claro, do vermelho ao rosa, com tons azulados nas extremidades. Carmem se mostrou impaciente: - Desculpe, mas o problema é seu. Preciso ir embora, meu marido chega amanhã de viagem e... Horácio não permitiu que concluísse, armando no rosto rebocado de batom uma veia pulsante de ira, – Filinha, você disse que era solteira! Ela sorriu um tanto desajeitada: - Sou casada desde os 16 anos...Mas meu marido é caminhoneiro, vive viajando, então é como se eu fosse solteira. Horacio juntou as duas mãos em torno da cabeça, inconformado. – Seu marido é caminhoneiro? Nós transamos sem camisinha, entende como isso é terrível, filinha? - Você que não quis usar... - Porque pensei que você fosse pura. - Pura? Como assim? - Não digo virgem, mas com pouca rodagem... Ela fez um esforço para conseguir arregalar os olhos puxados: - Olha aqui, meu senhor, eu sou uma mulher limpa, de poucos homens! - Quantos? - Menos de trinta. - O quê? Trinta? Ela balançou a cabeça, nervosa, - Não contei os pintos, acho que a média é essa. - De todos, certamente eu fui o único que não usou camisinha. Carmem esboçou um riso falso e um leve balançar de cabeça. - Talvez...Bom, eu... Horácio sentiu um arrepio percorrer o corpo todo. - Mas o pior de tudo é o caminhoneiro. Ela colocou o dedo indicador nos lábios, se fazendo ingênua: - O que isso tem a ver com o meu marido ser caminhoneiro? Um longo risco de suor escorreu pela testa de Horácio: - Filinha, caminhoneiro come tudo o que encontra pelo caminho, até travesti! Carmem postou com firmeza as duas mãos na cintura, enfezada: - Olha aqui, meu senhor, meu marido é um homem honesto e trabalhador, fique sabendo! Enxugando o resto de suor da testa, Horácio preferiu se livrar de um problema de cada vez. Além do batom borrado no rosto, agora carregava a preocupação de uma doença venérea. Abriu a carteira e dela retirou cinqüenta reais. – Pegue um táxi e vá embora. Carmem balançou a cabeça: - Cinquenta reais não vai dar, moro na Moreninha 3. – O quê? No site você diz que mora na vila Planalto. Ela balançou a cabeça: - Trabalhava lá...Quando era doméstica, mas agora estou sem trabalhar e... – Ok, ok, de quantos você precisa? – Cem reais... – O quê? Cem reais? Ela sorriu diante do desespero do companheiro de aventuras. – Você não pensou que ia foder de graça, né? Vou pagar o táxi e no caminho comprar um vinho forqueta, duzentas gramas de mortadela e pão. Preciso reabastecer minhas energias. Amanhã tem mais... Horácio arregalou os olhos: - Escuta aqui filinha, por acaso você é puta? Foi a vez de Carmem formar na testa modos de ira: - Olha, o senhor me respeita! Aceitei transar numa boa, não exigi nada, fizemos um monte de coisas na cama, coisa que não faço nem com o meu marido, então o senhor me respeita, eu nunca fui puta nessa puta vida. Horácio deixou o ombro cair. – Desculpe, desculpe, não quis ofendê-la. Tome aqui os cem reais. Ela apanhou o dinheiro na ânsia dos desesperados. Depois tentou fazer um carinho ao limpar com os dedos molhados de saliva a marca de batom no rosto de Horácio. – Tadinho...Tenta gasolina. – Oi? O quê você disse? Perguntou completamente abraçado pela surpresa. Ela ameaçou um sorriso: - Acho que só sai com gasolina... Antes que Horácio pudesse responder, Carmem ajeitou o vestido e tocou os lábios com a ponta do dedo num gesto de adeus.

Assim que começou a caminhar, ainda teve tempo de ouvir a última pergunta de Horácio: - Não vai chamar o táxi? - Vou...Na outra esquina deve ter... E o mundo desabou na cabeça do traidor, combinando com o som de um trovão que explodiu num céu ali perto, clareando a noite.

Caminhou até o carro, estacionado há dois quarteirões, mas olhando ligeiro, parecia vários quilômetros.

O celular não parava de vibrar e ele resolveu dar uma conferida.

Sete mensagens de Nair.

Horácio respirou fundo e usando o resto de calma, leu uma a uma.

Todas as mensagens falavam da preocupação com a demora, o receio que “algo ruim” tivesse acontecido ao marido.

E carregava ainda a preocupação de esposa recatada e do lar: “Venha logo, só vou passar os bifes quando você chegar”. A dor do remorso fura fundo o peito. Danou a conversar sozinho, espantando os transeuntes. - Nair não merece isso, eu sou um patife, um canalha! O rosto da esposa cavalgava em sua mente, momentos bons que juntos passaram desfilavam a cada segundo, viu de perto o precipício e o cheiro do inferno tinha o sabor de morango. - Ela nunca irá me perdoar... – pensava a cada passo dado, imaginando todas as virtudes de Nair, a mulher que abandonou uma próspera carreira no ramo imobiliário para se casar com ele, aquele merdinha cheio de maus costumes, um sem noção presunçoso que se referia a todas as mulheres pela mesma palavra: “filinha”.

Até isso Nair aceitou sem reclamar.

Permitia que ele lhe chamasse sempre de filinha, assim como a todas as outras mulheres que conhecia. “Uma mulher exemplar!” – suspirou ao pensar que ultimamente haviam desistido de ter filhos e as noites de sexo foram reduzidas a quase nada, quando muito, uma vez ao mês.

Nair ficava em casa imaginando pratos, uma comida especial, algo bem apetitoso para compensar o dia certamente difícil do marido, isso sem se esquecer de manter as latinhas de cerveja sempre bem gelada.

Que ideia estúpida aquela da traição. Maldita hora que acessou o computador e encontrou aquele site de relacionamentos. Suspirou novamente ao pensar que os poucos minutos de prazer em nada se comparava com aquele total desespero. Descobriu, de peito aberto, que havia algo muito pior que a tão decantada marca de batom na cueca. A cara dele estava no lugar da cueca, lisa, límpida, ligeiramente oleosa e completamente entregue naquela cor rosa misturada com riscos azuis. - Vou processar o fabricante. – Pensou, tentando alguma forma de alívio Ligou o motor do carro, acelerou sem sair do lugar.

O quê dizer para Nair?

Passou a imaginar várias hipóteses:

Entrar num boteco, beber o bastante até provocar uma briga na qual levaria um merecido soco na cara, que certamente ficaria num tom róseo misturado com azul... Não...um murro causa dor, deixa seqüelas... Talvez se fantasiar de papai Noel e dizer que estava ensaiando para as festas do final do ano da empresa e, descuidado, não percebeu que esqueceu de trocar de roupa.

Imaginou até uma fala: - Você acredita, filinha, que as pessoas me olhavam no trânsito e eu pensei que estavam me achando bonito? Não...Tal recurso necessitava uma boa atuação e também do figurino de papai Noel que não tinha. - Maldita a hora que abandonei aquele curso de teatro... Acelerou levemente. O dedo tocava ligeiro no volante do carro na tentativa de espantar o nervosismo.

Novas idéias surgiam: Quem sabe desaparecer por uns dias, até o batom sair de vez do rosto e no retorno contar histórias mirabolantes de discos-voadores, abdução, coisas do gênero. Não...Mentira longa demais. Contou as horas no relógio, a madrugada estava por vir e ele ainda imaginava desculpas: Quem sabe colasse uma história bonita de visita a um hospital, no qual abraçou alguém sofrendo de uma doença contagiosa, cujo sintoma principal era aquele rastro róseo cheirando a morango na cara, mas, que bobagem filinha, logo sairia e o importante fora o gesto de caridade humana. - Não...Filinha sabe que nunca fui solidário com porra nenhuma...Que merda, ela sabe que detesto hospital e evito gente doente. De repente, um estalo: - E se eu falar que fui pegar a filha de um amigo no colo e a desgraçada da criança tinha a boca abarrotada de batom... - Não...Detesto crianças, filinha sabe.

O jeito era apagar aquela maldita marca na cara, convenceu-se por final.

Acelerou o carro num sinal amarelo e logo à frente avistou um posto de gasolina.

A sugestão de Carmem agora não lhe parecia tão sem sentido.

Gasolina poderia resolver.

Se não desse certo, usaria creolina, querosene misturada com Q-boa, qualquer coisa que lhe tirasse do rosto a marca da traição.

O frentista bateu no vidro do carro: - pois não? – Coloca cem reais...Mas preciso de uma golada nas mãos. – Oi, como é, senhor? – Preciso de um pouco nas mãos. O frentista era um homem enorme e de poucas palavras, daqueles parecidos a uma máquina, poucas palavras, breves atitudes.

Completou o tanque e deixou um resto na bomba, que esparramou pelas mãos ligeiramente trêmulas de Horácio.

Fez que não reparasse quando o cliente esfregou o rosto com a gasolina fazendo movimentos frenéticos.

Depois correu até o espelho do carro e vociferou:

- Merda, não sai! Me dê mais um pouco. O frentista homem-máquina obedeceu sem reclamar. Horácio esfregou novamente, correu até o espelho do carro e quase chorou.

A marca persistia intacta.

O frentista homem-máquina percebeu o motivo de tanta angustia, chegou a sentir a mesma dor, naquela de obedecer a regra pré estabelecida desde os tempos de Adão: todo homem ajuda o outro em situações como aquela. Resolveu por dar uma sugestão:

- Quem sabe se eu der uma esguichada diretamente no local, a força do jato, quem sabe tira. Horácio topou sem muito pensar, encheu de ar a bochecha e se ajoelhou.

O frentista homem-máquina fez mira e lançou um jato, dois, três. - Está saindo? – perguntou Horácio,numa voz alterada pelo desespero.

- Não...Precisa de mais – respondeu o frentista, já com o rosto suado, como se apertasse o gatilho de uma metralhadora.

- Então capricha nessa porra! Gritou Horácio, mas ao fazê-lo abriu demais a boca e levou uma esguichada de gasolina que lhe atravessou a garganta... - Puta que pariu! Que mais me falta acontecer? Tentou cuspir, mas acabou vomitando, sujando a camisa. - Agora terei que explicar a camisa vomitada também...Disse, olhando com tristeza para o frentista, também com os olhos caídos de desapontamento.

Horácio soltou um arroto prolongado e dolorido, daqueles que só quem já bebeu gasolina pode entender...

Depois entrou no carro, ligou a ignição e arrotou novamente.

Não tinha mais nada a fazer.

Seguiu para casa. Nair o recebeu de camisola, lenço na cabeça de cabelos presos a bobes e um sorriso que logo desfez.

Imediatamente percebeu o batom escorrido nos cantos da boca.

Rosa com fundo azul, sabor morango. - Posso saber o que é isso? Horácio pensou nas desculpas que antes imaginou.

Tirando a abdução, as outras ainda cabiam.

Mas não teve forças.

A noite tinha sido longa e o cansaço o dominou.

Resolveu se entregar: - Eu...Bom...Esse batom...você sabe.

- Não, eu não sei. Mas quero ouvir.

Ele arrotou gasolina antes, esfregou os olhos em busca de lágrimas e descarregou tudo de uma vez:

- Eu te traí, Nair.

Foi isso o que aconteceu.

Estava sentindo muita falta de sexo, sabe?

Mas não o nosso costumeiro papai e mamãe, eu queria pegar uma mulher diferente, que se entregasse de todas as formas, em todas as posições, deitada, de lado, de quatro, em pé...

Eu queria ouvir outro gemido.

Queria cheirar outro cheiro.

Explodir num orgasmo dentro de outro corpo.

Errei, eu sei.

Sei também que não tem volta, só quero saber se você pode me perdoar.

Ela olhou primeiro com chispas de ódio.

Mas logo depois arrefeceu:

- Estamos quites. - Como é? - É isso mesmo, Horácio. Eu também te traí. Estamos quites. O rosto de Horácio empalideceu num tom intensamente rosa, praticamente cobrindo a mancha do batom. - Mas como assim, filinha? - Você acha que é fácil ficar o dia todo presa dentro de casa, olhando para as paredes sem ter o que fazer?

Mulher também sente prazer, Horácio.

Muitas vezes fantasiamos e fica nisso, mas às vezes não dá para segurar. - Com quem... - Não vou dizer. E deu voltas nos calcanhares, indo parar na cozinha.

Ele pensou segui-la, mas a surpresa lhe prendeu no assoalho.

De dentro da cozinha, Nair, calma e refeita, gritou para Horácio: - Como quer o seu bife? - Hein? - Bem passado ou mal passado? Horácio esfregou pela última vez a marca do batom no rosto e logo depois tentou abafar com as mãos um arroto forte, do gosto misturado de gasolina com batom sabor de morango.

Só então conseguiu responder:

- Tanto faz filinha, tanto faz .

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
6/9/2017 às 10h53

 
Enquanto as pandorgas singram os céus...

No final da tarde, da varanda de casa, contemplo o céu.

Simone de Beauvoir certa vez afirmou: “O inconsciente não tem idade”.

Penso nessa frase enquanto ergo o nariz para cima e tento sugar na brisa gelada todos os cheiros da natureza.

Minhas vistas se embriagam, vejo várias pandorgas singrando os céus.

Eu nunca soube fazer pandorgas, por receio da eficiência alheia e também porque os moleques mais velhos não permitiam.

Gostava da eufonia provocada pela rabiola de plásticos coloridos enquanto a linha era esticada: o gemido da vida ganhando forma num brinquedo colorido.

Aquele barulho da subida aos céus ainda navega na minha mente.

Ficava então rodeando a brincadeira, até que alguém me permitia apanhar a latinha envolta em linhas banhadas de cerol e meu coração pulsava acelerado: agora, a pandorga, presa a uma tênue rede de linha, dependia da firmeza da minha mão. Era como se a vida pulsasse no céu.

No anseio do momento, muitas vezes os dedos sangravam, mas eu nem ligava, eu era criança, ah, eu era uma criança soltando pandorgas...

O tempo malvado passou e de repente sou esse senhor de cinqüenta anos, com dores no joelho e nas juntas do corpo, sem nenhuma linha nas mãos para puxar.

Quanto tempo ainda me resta para ficar na varanda de casa observando as pandorgas?

Há certa gravidade naquele cheiro no ar, porque o conheço tem um bom tempo, desde quando eu era criança.

O cheiro é o mesmo, já eu, abismado, não enxergo os rumos do vento.

E dano a riscar na cabeça vãs filosofias: tal e qual a pandorga, nossa vida é segura por um fio.

Às vezes o cerol inimigo corta a linha, outras vezes a linha se rompe e a impressão é de uma quilha cortando a onda fina do rio; basta um sopro mais forte do vento para a pandorga se soltar, devagarzinho, bailando no ar, até sumir no infinito.

Súbito, uma pandorga caiu estraçalhada nos fundos do quintal.

“O inconsciente não tem idade”, quando dei por mim, já estava com ela nas mãos.

Alguns ajustes e ela voa novamente – pensei num sorriso -.

Chamei o meu filho para brincar de soltar pandorga, a custos o tirei do computador. “O nome disso é pipa, pai!” ele disse, enquanto observava eu agachar com dificuldade, ajeitar as tiras do bambu e colar cuidadosamente o papel de seda, reclamando das vistas cansadas, com o dedo indicador pregando mais fundo os óculos no rosto.

Para mim sempre será pandorga.

Dias atrás, após uma inesperada crise de labirintite, o susto foi tão grande que pensei no fim da linha. Dominado pela tontura, vi de perto o pior, imaginei repousar no lugar dos esquecidos, prendi as mãos nas paredes, como antes as prendia com firmeza entre a linha que segurava a pandorga.

Por momentos me deixei levar pelo medo de morrer amanhã, mas hoje já é amanhã e prossigo tão vivo bem mais do que antes.

A tortura mandei embora e armei no rosto um sorriso de criança ao perceber que posso olhar para o céu, rever as pandorgas e cheirar o vento sem sentir tontura.

Enquanto as pandorgas singram os céus, cá embaixo eu cuido da vida, pedindo para o tempo passar devagar, na busca por aquele cheiro bom de antes e que ainda sopra no vento que envolve a varanda da minha casa.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
10/8/2017 às 08h46

 
Sudório dormiu na despensa

Na manhã fria de domingo, ao abrir a despensa, lá estava ele, estirado no assoalho, dormindo de olhos abertos, o menino de nome Sudório.

Depois do susto, rompemos em risos.

Como ele conseguiu dormir naquele chão frio em meio às panelas?

Tudo o que sabíamos é que era um dos amigos do mesmo curso de Publicidade e Propaganda da Andreza, dos tantos a invadir nossa casa nos fins de semana de festa ou estudo.

Sudório é um pretinho (me recuso a falar afro-descendente) bem magro, dos olhos grandes, da voz faceira e do dom de fazer amizade na mesma proporção que distribui sorrisos e gentilezas.

É o típico amigo para qualquer hora, atende sem hesitar qualquer pedido: vamos cozinhar, ir ao mercado, limpar os pratos, organizar a bagunça? Ele sempre está disposto.

Dias desses me fez um desafio: “você podia escrever alguns relatos de experiências.

Ajudaria quando a faculdade acabar e o mundo vier nos engolir vestidos de publicitários”.

O convite permaneceu latejando na minha cabeça, até pegar um papel e escrever a primeira lição: jogue as palavras para o alto e vá apanhando as que conseguir catar.

Depois é só alinhar até terminar numa frase, que desembocará num texto.

Quanto mais ressonância, melhor será o resultado.

Junte crepúsculo com aurora e coloque a noite e a madrugada no meio.

Fale do sol como se fosse uma bola de fogo ao alcance das mãos, desenhe raios tortos, daqueles que racham as árvores ao meio, tente descobrir o que um louco está pensando, porque a loucura tem tudo a ver com o publicitário.

Procure se achar nem que para isso precise primeiro se perder; mergulhe nas pedras, as transforme em águas cristalinas e deixe os peixes passeando bem perto, sem se espantar, porque ao percebê-lo nadando e respirando debaixo d’água, o bicho não pensará que você é humano, mas um reles peixe estranho sem escamas.

Ao se deitar, prenda um travesseiro na cabeça e outro metido entre as pernas, é naquele momento de silêncio que ocorrem as melhores ideias.

De manhã, antes de esfregar os olhos, tente lembrar o que sonhou, geralmente os sonhos dão pistas de coisas geniais.

Desenhe na parede uma canção.

Isso mesmo: desenhe.

Porque quando um publicitário está criando, tudo é concreto.


E por mais belo que seja o resultado, jamais se dê por satisfeito: o melhor trabalho é aquele que ainda não foi realizado.

Leia, leia sempre, de tudo: uma crônica do Rubem Braga, algo do Guimarães Rosa, a poesia de Florbela Espanca, o realismos fantástico de Gabriel Garcia Marques.

Leia também porcarias; os tons de cinza e as tolices de auto-ajuda.

Vá sempre ao cinema, assista aos programas de televisão, é dever do bom publicitário conhecer tudo, das séries cativantes como Breaking Bad a coisas deprimentes como os reality shows.

Saiba um pouco de tudo, por exemplo, a diferença entre espada, sabre e florete; se pergunte por que a Anita faz tanto sucesso e os Beatles ainda tocam nas rádios.

Verá que há uma enorme ponte separando o efêmero do eterno.

Sobretudo, quando um murmúrio de ideias esvoejar sobre a sua cabeça, procure um papel e anote a ideia, que inspiração é caça preciosa, se bobear, voa longe para nunca mais voltar.

E se tudo que eu disse lhe causar cansaço, entre novamente na despensa e durma um sono bom.

Se preferir, pode usar o quarto de hospedes. Prometa-me apenas que um dia será o publicitário que eu nunca consegui ser.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
6/7/2017 às 09h46

 
A tirania dos segredos

Ouvi um velho sábio dizer que todos temos segredos.

Esse mesmo velho sábio afirma que nós, humanos, não sabemos guardar segredos.

Então fiquei um bocado de tempo analisando se eu tenho segredos guardados num canto da mente, trancado a sete chaves, repletos de senhas indecifráveis.

Segredos são solitários e singulares, concluí.

Não vou contar quase nada daquilo que me surgiu à mente, apenas deixo como pista o balançar de cabeça, de um lado para o outro, o riso fácil escapando de meus lábios e a lembrança que muitas vezes me surge em sonhos, a imagem trêmula, mas ainda real, tão assustadora que parece ter vida: um gavião pinhé montado no lombo de um boi, sem ser incomodado, passeando pelo pasto encharcado de lama, em torno dos capins das pontas secas, espalhados ao redor da Sapolândia, em meio aos quais nos escondíamos, um bando de guris descalços, armados de fundas, prontos para acertar à pedradas o gavião.

– É a sua vez! Gritou o menino mais velho, apontando o dedo para mim.

Ainda hoje sinto o cheiro da borracha esticada, o pedaço de pau em forma da letra ipsilon, envergando até não mais poder e o suor quente que da minha testa caía, inundando os olhos, cegando tudo ao redor e eu, que sempre fui ruim de mira, talvez por conta do anseio e das mãos trêmulas, acabei acertando bem no meio do peito do gavião pinhé, que caiu abatido e restaram os gritos de triunfo dos meus amigos, empolgados por ser aquela a primeira vez que eu fazia alguma coisa certa.

O barulho dos nossos pés amassando os gravetos secos estirados pelo caminho, se confundindo com os gritos da molecada em correria, ainda consigo ouvir com exatidão, bem como a dor nos pés a cada pisada em falso, nada se comparado à euforia do momento, o prazer inenarrável de ter abatido o gavião.

Mas quando cheguei perto, vi o sangue escorrer do peito do animal, debruçado, abraçado aos últimos suspiros, tentando voar, mas as asas não lhe obedeciam e eu tremi diante do sangue que escorria do seu peito, tentando controlar o choro que ameaçou escapar dos meus olhos.

O boi tentava reavivar o pássaro com as patas e aquela imagem me perseguiu durante muito tempo, até que alguém decifrou aos meus ouvidos o enigma: diferente daquilo que eu imaginava - uma incrível amizade entre bichos completamente diferentes - o gavião comia os carrapatos no lombo do boi, causando alívio.

O menino mais velho apontou novamente para mim: “deixe de ser marica, senão vou contar na escola que você é um chorão”.

Engoli todo o sentimento e me pus de pé diante dele, a lágrima transformada em ira, já armado pela recordação de pouco antes, quando ele, se divertindo do meu rosto de profundo espanto, revelou, sem meias palavras, que era mentira a história da cegonha, e para que eu nascesse, terríveis atitudes foram tomadas por meu pai e minha mãe enquanto todos dormiam, certamente numa noite tenebrosa de lua cheia, que se transformou em tempestade sem fim, até que fosse criada “a criatura feia e desengonçada” que eu era.

Esse mesmo menino mais velho foi testemunha da minha cara de medo quando as nuvens de chuva se formavam sobre nossas cabeças e o pavor que eu sentia a cada raio, a cada trovão.

Dias atrás reencontrei esse personagem dos meus tempos de infância, sentando no banco de um boteco, copo de conhaque ao alcance das mãos, agora um senhor grisalho, pouco mais velho que eu, porém aparentando bem mais; estava tudo ali, naquele olhar murcho, perdido num começo de catarata, mas que manteve a altivez ao me reconhecer e eu novamente esmoreci, fraqueza que aos poucos consegui dominar, já sabendo que dentro daquela mente desfilava meus tenebrosos segredos de infância: ele sabe que eu matei um gavião pinhé.

Sabe também que eu chorava por qualquer coisa.

Ele se levantou e partiu na minha direção, as pernas trêmulas, mas o mesmo rosto de superioridade.

Quando recebi o aceno sorrindo, devolvi, num gesto frio, sereno e indiferente, o resto de mágoa que guardei, sentimento que me vi liberto assim que meus passos seguiram adiante e ele ficou para trás, como se fosse aquele boi, sentindo a falta do gavião pinhé a lhe bicar os cantos do lombo.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
8/6/2017 às 12h52

 
Quase todos os meus desejos

Há tempos não me ocorria dormir acordado, largado no pensamento, num trotar de imagens.

A moça à minha frente tem um piercing no septo. .

Peço um chope, ela nem olha para mim, pergunta a marca, digo Brahma, “não tem”, responde num jeito quase hostil; peço outra qualquer, ela prossegue sem olhar para mim.

Aquelas argolas no nariz me causam má impressão, fazem lembrar o mitológico minotauro. .

Quando por fim me passa a caneca, ergue os olhos e pergunta: “o senhor deseja mais alguma coisa?”. .

Então larguei os meus olhos abertos e a boca sorrindo enquanto o mundo apagava. .

Diante daqueles olhos miúdos e tristes, permiti milhares de desejos no pequeno segundo transformado em horas de pensamentos, sonhando com os olhos abertos, absorto na última pergunta: “deseja mais alguma coisa?”. .

Sim, querida desconhecida do nariz furado, desejo viajar para Paris, conhecer os Pirineus, entrar de manhã numa livraria e só sair de lá tarde da noite, sem me preocupar com o horário.

A cura do câncer, a paz entre os homens.

Desejo também nunca mais ter que dirigir, o trânsito me enlouquece, nem votar, desperdício de tempo, e que essa maldita dor nas costas desapareça para sempre.

Permita-me ainda desejar ganhar alguns milhares de dinheiro, dos quais ficaria com a metade, o resto distribuiria entre os mais pobres (será?) e daria as migalhas aos pombos. .

Um desejo bastante pessoal me ocorre, não que me faça falta (será?), mas gostaria se meus cabelos tornassem a nascer.

Sim, eu desejo ser cabeludo.

Também gostaria de ser invisível, não para sumir, mas para suprir um desejo de infância, bisbilhotar as outras pessoas sem ser visto.

Outro desejo me consome, aquele de ver o sorriso da pessoa lendo essa crônica e pensando: “nossa, eu também desejo isso”.

Faço sinal com o dedo e a moça do piercing já sabe que desejo mais um chope.

E os pensamentos prosseguem num desesperado trotar; eu desejo assistir ao show do Paul MacCartney, também do Chico Buarque, já que o do Belchior não vai dar mais. Desejo ainda o deslumbre do encontro com outros ídolos, apenas para um abraço ligeiro: olá Caetano, você é lindo, Ney que bom você existir, eu te adoro Gil, não faz idéia, Djavan, o quanto me faz bem, desde quando aprendi a sonhar o seu sonho.

Continuei sorrindo calado para a moça do piercing no septo e ela já começava a se inquietar, os olhos, antes miúdos e tristes, agora sobressaltados em alerta.

“Quer com colarinho”, faço um gesto afirmativo com a cabeça, enquanto meus olhos se perdem entre os brilhos que escapam do piercing

A espuma do chope escorrega pelos cantos dos meus lábios no exato momento que a idéia da eterna juventude explode nos meus miolos. Ah, seu eu pudesse voltar aos vinte anos com a maturidade que hoje tenho...

Imaginar desejos é beber um balde de água salgada: a sede nunca é saciada.

Lavo meus pés na enxurrada de desejos; Comidas venham, eu as desejo, costela de porco assada, pudim, sorvete de coco.

Sinto enlevo, sonhar é preciso e precioso.

Prossigo naquele tropel de pensamentos, ameaço um novo sorriso, mas recuo ao perceber que a moça arregala ainda mais os olhos, convencida de vez que eu não regulo bem das idéias, lava ligeira os copos, desconhece por completo meu novo pensamento: será dolorido colocar um piercing no septo?

Bebo tudo de uma vez e sem querer, bato com a caneca no balcão.

“Deseja mais um chope, senhor?”

Não, por hoje chega, respondi preocupado: quanto tempo irá durar esse tropel de desejos a desfilar na minha cabeça?

No fim, desejo nada mais desejar...

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
19/5/2017 às 09h59

 
Made in Japan

Meu filho Bruno adora mangás e animes.

Quando lhe contei sobre como descobri a existência do Japão, ele abriu um sorriso e me mostrou um parafuso guardado na gaveta, desses novos, com carinha de smiley estampada como se fosse um sorriso.

Mas afinal, o quê tem a ver a terra do sol nascente com o parafuso?

Primeiro um volteio, num dia de outros outonos, ao instante que a esposa de um antigo vizinho, num tropel pelas ruas do bairro Guanandi, apanhou um objeto no chão e o ergueu até perto dos meus olhos: “o mundo não seria nada se não fossem os parafusos” – disse, fazendo aparecer a boca que o buço forte escondia, embaçada num olhar ao mesmo tempo sério e contemplativo.

Olhando atentamente para a cabeça do parafuso, li a frase impactante: made in Japan.

De posse do parafuso, pesquisei nos livros e logo fiquei sabendo se tratar de um país distante, exatamente do outro lado do planeta.

Alguém mais velho garantiu: “para chegar lá, basta cavar um buraco e depois se atirar a uma viagem até a terra do lendário povo dos olhos puxados.

Fiquei fascinado!

Quem poderia supor, debaixo dos nossos pés, existia um lugar fabuloso, antes impenetrável, mas agora bastava cavar para chegar até lá?

Quando contei a novidade, meu amigo Zé Lata ficou extasiado; no instante seguinte, já retirávamos com as mãos a terra barrenta da Sapolândia.

Desistimos da empreitada logo após os primeiros ventos de frio.

Tempos depois, no colégio Oswaldo Cruz, vi-me cercado por nisseis, e a amizade logo surgiu, marcada pelo riso aberto enfeitando aqueles olhos riscados: Oshiro, Arakaki, Katayama, Higa, Mori, Hokama, Paulino, Rose, Reginaldo, Maurício...

Com eles aprendi o significado do sol vermelho estampado na bandeira branca, também sobre a neve que cobria o topo da montanha, as histórias dos corajosos samurais, a valentia insana dos kamikazes, sobre o império e as encantadoras gueixas em seus vestidos de seda e dos cabelos presos num coque deslumbrante.

E a tristeza marcada nos rostos dos olhos puxados à simples menção do nome Hiroshima, “a rosa com cirrose, a anti rosa atômica”, que enfeita de forma triste os versos transformados em melodia na voz do Ney Matogrosso.

Agora me percorre a lembrança do friso pasmo em meu rosto ao me dar de frente pela primeira vez com alguém usando um kimono e ostentando com orgulho uma faixa preta presa à barriga.

O tempo passou, Made in Japan, a frase novamente ecoa pela minha memória enquanto afago os cachos dos cabelos do meu filho, adentrando ao seu sonho de conhecer o Japão, não por conta de um parafuso, ou via um buraco que atravesse a terra, mas pelos mangás e animes, sua adoração, desejo que agora também é meu, movido pela imensa vontade de ver de perto a neve que cobre o topo da montanha, o sol nascer no horizonte inverso, tão vermelho quanto está exposto na bandeira branca do Japão.

E num momento de pura magia, me perco sonhando enquanto aperto com os dedos o parafuso, desses novos, com a carinha sorridente, tipo smiley, desenhada na cabeça.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
6/4/2017 às 15h50

 
Turbulências

A primeira vez que voei ocorreu na semana seguinte ao atentado às torres gêmeas.

Antes eu não tinha medo de quase nada, só de fantasmas, lobisomem e ratos.

É bem provável que essa lista seja mais extensa, mas voltemos ao avião: o primeiro desconforto foi perceber que aeroporto é um lugar fácil de se perder.

Em meio a setas, monitores e gente estranha, me senti um vencedor quando encontrei o portão de embarque.

Eu estava um pouco ansioso, mas o meu queixo danou a bater quando uma voz feminina anunciou o embarque do vôo 6666 com destino a Campo Grande.

As escadas de alumínio refletiram alguns rostos e senti uma vontade enorme de fugir, recuar, mas nem tive muito tempo de pensar, já arrastado pelos passageiros que vinham atrás.

Meu lugar era na poltrona do meio e me lembro com detalhes o senhor enorme ocupando a janela e uma senhora muito magra que ficou na poltrona do corredor.

Exprimido entre eles, tentei mentalizar a quinta de Beethoven , embora o momento pedisse um rock pauleira.

A voz do piloto ecoou pela nave e bateu de vez o desespero.

Será que ficaria muito chato se eu pedisse para descer?

A comissária se postou ereta à nossa frente, fazendo gestos com os braços, aumentando minha aflição.

O suor quente escorreu por minha testa após o último aviso: em caso de queda no mar, as poltronas serviriam de canoa, ou algo assim: danou tudo, pensei, eu não sei nadar.

Tentei conversar com o sujeito da janela, mas ele estava entretido fazendo palavras cruzadas.

Olhei com olhar de filhote de cachorro para a dona magra no outro lado, mas ela estava em meio a uma oração.

A imagem das torres gêmeas era tudo o que eu conseguia pensar.

A voz do piloto me pareceu grave demais: “tripulação, preparar para decolagem”, e não disse mais nada, o bicho rugiu feio, os motores explodiram e eu percebi o quanto a vida não vale nada, bastava uma faísca errada e todos viraríamos carvão.

Joguei novamente as vistas para o lado da senhora magra e percebi, abismado, que ela simplesmente fechou os olhos e dormiu.

Como alguém consegue dormir estando próximo do fim de tudo?

Veio então o primeiro solavanco e meu olho esquerdo afundou.

Só o esquerdo, o direito permaneceu aberto mais que o normal, em constante vigília.

Novos solavancos se seguiram e tive ímpetos de gritar para que a dona magra do corredor acordasse ou o infeliz da janela parasse com as palavras cruzadas.

As luzes acenderam e a voz grave do comandante avisou que havíamos passado por uma zona de turbulência, garantindo tranqüilidade dali adiante; quanta maldade podia ter avisado antes, talvez eu não tivesse trocado o fígado de lugar com a garganta.

Quando enfim pousamos, abri no rosto o sorriso igual ao gato de Cheshire.

Meus pés tocaram o solo moreno da minha cidade e ainda que os ouvidos zunissem, senti um alívio tão grande que quis dançar a galopeira.

Nesse troço “num munto mais”, pensei, juntando restos de palavras misturadas ao suspiro de alívio.

Muitos vôos depois, já não sinto medo, apenas me entupo de calmantes e durmo a viagem inteira.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
9/3/2017 às 11h49

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