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Quinta-feira, 10/8/2017
Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ
ANDRÉ LUIZ ALVEZ

 
Enquanto as pandorgas singram os céus...

No final da tarde, da varanda de casa, contemplo o céu.

Simone de Beauvoir certa vez afirmou: “O inconsciente não tem idade”.

Penso nessa frase enquanto ergo o nariz para cima e tento sugar na brisa gelada todos os cheiros da natureza.

Minhas vistas se embriagam, vejo várias pandorgas singrando os céus.

Eu nunca soube fazer pandorgas, por receio da eficiência alheia e também porque os moleques mais velhos não permitiam.

Gostava da eufonia provocada pela rabiola de plásticos coloridos enquanto a linha era esticada: o gemido da vida ganhando forma num brinquedo colorido.

Aquele barulho da subida aos céus ainda navega na minha mente.

Ficava então rodeando a brincadeira, até que alguém me permitia apanhar a latinha envolta em linhas banhadas de cerol e meu coração pulsava acelerado: agora, a pandorga, presa a uma tênue rede de linha, dependia da firmeza da minha mão. Era como se a vida pulsasse no céu.

No anseio do momento, muitas vezes os dedos sangravam, mas eu nem ligava, eu era criança, ah, eu era uma criança soltando pandorgas...

O tempo malvado passou e de repente sou esse senhor de cinqüenta anos, com dores no joelho e nas juntas do corpo, sem nenhuma linha nas mãos para puxar.

Quanto tempo ainda me resta para ficar na varanda de casa observando as pandorgas?

Há certa gravidade naquele cheiro no ar, porque o conheço tem um bom tempo, desde quando eu era criança.

O cheiro é o mesmo, já eu, abismado, não enxergo os rumos do vento.

E dano a riscar na cabeça vãs filosofias: tal e qual a pandorga, nossa vida é segura por um fio.

Às vezes o cerol inimigo corta a linha, outras vezes a linha se rompe e a impressão é de uma quilha cortando a onda fina do rio; basta um sopro mais forte do vento para a pandorga se soltar, devagarzinho, bailando no ar, até sumir no infinito.

Súbito, uma pandorga caiu estraçalhada nos fundos do quintal.

“O inconsciente não tem idade”, quando dei por mim, já estava com ela nas mãos.

Alguns ajustes e ela voa novamente – pensei num sorriso -.

Chamei o meu filho para brincar de soltar pandorga, a custos o tirei do computador. “O nome disso é pipa, pai!” ele disse, enquanto observava eu agachar com dificuldade, ajeitar as tiras do bambu e colar cuidadosamente o papel de seda, reclamando das vistas cansadas, com o dedo indicador pregando mais fundo os óculos no rosto.

Para mim sempre será pandorga.

Dias atrás, após uma inesperada crise de labirintite, o susto foi tão grande que pensei no fim da linha. Dominado pela tontura, vi de perto o pior, imaginei repousar no lugar dos esquecidos, prendi as mãos nas paredes, como antes as prendia com firmeza entre a linha que segurava a pandorga.

Por momentos me deixei levar pelo medo de morrer amanhã, mas hoje já é amanhã e prossigo tão vivo bem mais do que antes.

A tortura mandei embora e armei no rosto um sorriso de criança ao perceber que posso olhar para o céu, rever as pandorgas e cheirar o vento sem sentir tontura.

Enquanto as pandorgas singram os céus, cá embaixo eu cuido da vida, pedindo para o tempo passar devagar, na busca por aquele cheiro bom de antes e que ainda sopra no vento que envolve a varanda da minha casa.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
10/8/2017 às 08h46

 
Sudório dormiu na despensa

Na manhã fria de domingo, ao abrir a despensa, lá estava ele, estirado no assoalho, dormindo de olhos abertos, o menino de nome Sudório.

Depois do susto, rompemos em risos.

Como ele conseguiu dormir naquele chão frio em meio às panelas?

Tudo o que sabíamos é que era um dos amigos do mesmo curso de Publicidade e Propaganda da Andreza, dos tantos a invadir nossa casa nos fins de semana de festa ou estudo.

Sudório é um pretinho (me recuso a falar afro-descendente) bem magro, dos olhos grandes, da voz faceira e do dom de fazer amizade na mesma proporção que distribui sorrisos e gentilezas.

É o típico amigo para qualquer hora, atende sem hesitar qualquer pedido: vamos cozinhar, ir ao mercado, limpar os pratos, organizar a bagunça? Ele sempre está disposto.

Dias desses me fez um desafio: “você podia escrever alguns relatos de experiências.

Ajudaria quando a faculdade acabar e o mundo vier nos engolir vestidos de publicitários”.

O convite permaneceu latejando na minha cabeça, até pegar um papel e escrever a primeira lição: jogue as palavras para o alto e vá apanhando as que conseguir catar.

Depois é só alinhar até terminar numa frase, que desembocará num texto.

Quanto mais ressonância, melhor será o resultado.

Junte crepúsculo com aurora e coloque a noite e a madrugada no meio.

Fale do sol como se fosse uma bola de fogo ao alcance das mãos, desenhe raios tortos, daqueles que racham as árvores ao meio, tente descobrir o que um louco está pensando, porque a loucura tem tudo a ver com o publicitário.

Procure se achar nem que para isso precise primeiro se perder; mergulhe nas pedras, as transforme em águas cristalinas e deixe os peixes passeando bem perto, sem se espantar, porque ao percebê-lo nadando e respirando debaixo d’água, o bicho não pensará que você é humano, mas um reles peixe estranho sem escamas.

Ao se deitar, prenda um travesseiro na cabeça e outro metido entre as pernas, é naquele momento de silêncio que ocorrem as melhores ideias.

De manhã, antes de esfregar os olhos, tente lembrar o que sonhou, geralmente os sonhos dão pistas de coisas geniais.

Desenhe na parede uma canção.

Isso mesmo: desenhe.

Porque quando um publicitário está criando, tudo é concreto.


E por mais belo que seja o resultado, jamais se dê por satisfeito: o melhor trabalho é aquele que ainda não foi realizado.

Leia, leia sempre, de tudo: uma crônica do Rubem Braga, algo do Guimarães Rosa, a poesia de Florbela Espanca, o realismos fantástico de Gabriel Garcia Marques.

Leia também porcarias; os tons de cinza e as tolices de auto-ajuda.

Vá sempre ao cinema, assista aos programas de televisão, é dever do bom publicitário conhecer tudo, das séries cativantes como Breaking Bad a coisas deprimentes como os reality shows.

Saiba um pouco de tudo, por exemplo, a diferença entre espada, sabre e florete; se pergunte por que a Anita faz tanto sucesso e os Beatles ainda tocam nas rádios.

Verá que há uma enorme ponte separando o efêmero do eterno.

Sobretudo, quando um murmúrio de ideias esvoejar sobre a sua cabeça, procure um papel e anote a ideia, que inspiração é caça preciosa, se bobear, voa longe para nunca mais voltar.

E se tudo que eu disse lhe causar cansaço, entre novamente na despensa e durma um sono bom.

Se preferir, pode usar o quarto de hospedes. Prometa-me apenas que um dia será o publicitário que eu nunca consegui ser.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
6/7/2017 às 09h46

 
A tirania dos segredos

Ouvi um velho sábio dizer que todos temos segredos.

Esse mesmo velho sábio afirma que nós, humanos, não sabemos guardar segredos.

Então fiquei um bocado de tempo analisando se eu tenho segredos guardados num canto da mente, trancado a sete chaves, repletos de senhas indecifráveis.

Segredos são solitários e singulares, concluí.

Não vou contar quase nada daquilo que me surgiu à mente, apenas deixo como pista o balançar de cabeça, de um lado para o outro, o riso fácil escapando de meus lábios e a lembrança que muitas vezes me surge em sonhos, a imagem trêmula, mas ainda real, tão assustadora que parece ter vida: um gavião pinhé montado no lombo de um boi, sem ser incomodado, passeando pelo pasto encharcado de lama, em torno dos capins das pontas secas, espalhados ao redor da Sapolândia, em meio aos quais nos escondíamos, um bando de guris descalços, armados de fundas, prontos para acertar à pedradas o gavião.

– É a sua vez! Gritou o menino mais velho, apontando o dedo para mim.

Ainda hoje sinto o cheiro da borracha esticada, o pedaço de pau em forma da letra ipsilon, envergando até não mais poder e o suor quente que da minha testa caía, inundando os olhos, cegando tudo ao redor e eu, que sempre fui ruim de mira, talvez por conta do anseio e das mãos trêmulas, acabei acertando bem no meio do peito do gavião pinhé, que caiu abatido e restaram os gritos de triunfo dos meus amigos, empolgados por ser aquela a primeira vez que eu fazia alguma coisa certa.

O barulho dos nossos pés amassando os gravetos secos estirados pelo caminho, se confundindo com os gritos da molecada em correria, ainda consigo ouvir com exatidão, bem como a dor nos pés a cada pisada em falso, nada se comparado à euforia do momento, o prazer inenarrável de ter abatido o gavião.

Mas quando cheguei perto, vi o sangue escorrer do peito do animal, debruçado, abraçado aos últimos suspiros, tentando voar, mas as asas não lhe obedeciam e eu tremi diante do sangue que escorria do seu peito, tentando controlar o choro que ameaçou escapar dos meus olhos.

O boi tentava reavivar o pássaro com as patas e aquela imagem me perseguiu durante muito tempo, até que alguém decifrou aos meus ouvidos o enigma: diferente daquilo que eu imaginava - uma incrível amizade entre bichos completamente diferentes - o gavião comia os carrapatos no lombo do boi, causando alívio.

O menino mais velho apontou novamente para mim: “deixe de ser marica, senão vou contar na escola que você é um chorão”.

Engoli todo o sentimento e me pus de pé diante dele, a lágrima transformada em ira, já armado pela recordação de pouco antes, quando ele, se divertindo do meu rosto de profundo espanto, revelou, sem meias palavras, que era mentira a história da cegonha, e para que eu nascesse, terríveis atitudes foram tomadas por meu pai e minha mãe enquanto todos dormiam, certamente numa noite tenebrosa de lua cheia, que se transformou em tempestade sem fim, até que fosse criada “a criatura feia e desengonçada” que eu era.

Esse mesmo menino mais velho foi testemunha da minha cara de medo quando as nuvens de chuva se formavam sobre nossas cabeças e o pavor que eu sentia a cada raio, a cada trovão.

Dias atrás reencontrei esse personagem dos meus tempos de infância, sentando no banco de um boteco, copo de conhaque ao alcance das mãos, agora um senhor grisalho, pouco mais velho que eu, porém aparentando bem mais; estava tudo ali, naquele olhar murcho, perdido num começo de catarata, mas que manteve a altivez ao me reconhecer e eu novamente esmoreci, fraqueza que aos poucos consegui dominar, já sabendo que dentro daquela mente desfilava meus tenebrosos segredos de infância: ele sabe que eu matei um gavião pinhé.

Sabe também que eu chorava por qualquer coisa.

Ele se levantou e partiu na minha direção, as pernas trêmulas, mas o mesmo rosto de superioridade.

Quando recebi o aceno sorrindo, devolvi, num gesto frio, sereno e indiferente, o resto de mágoa que guardei, sentimento que me vi liberto assim que meus passos seguiram adiante e ele ficou para trás, como se fosse aquele boi, sentindo a falta do gavião pinhé a lhe bicar os cantos do lombo.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
8/6/2017 às 12h52

 
Quase todos os meus desejos

Há tempos não me ocorria dormir acordado, largado no pensamento, num trotar de imagens.

A moça à minha frente tem um piercing no septo. .

Peço um chope, ela nem olha para mim, pergunta a marca, digo Brahma, “não tem”, responde num jeito quase hostil; peço outra qualquer, ela prossegue sem olhar para mim.

Aquelas argolas no nariz me causam má impressão, fazem lembrar o mitológico minotauro. .

Quando por fim me passa a caneca, ergue os olhos e pergunta: “o senhor deseja mais alguma coisa?”. .

Então larguei os meus olhos abertos e a boca sorrindo enquanto o mundo apagava. .

Diante daqueles olhos miúdos e tristes, permiti milhares de desejos no pequeno segundo transformado em horas de pensamentos, sonhando com os olhos abertos, absorto na última pergunta: “deseja mais alguma coisa?”. .

Sim, querida desconhecida do nariz furado, desejo viajar para Paris, conhecer os Pirineus, entrar de manhã numa livraria e só sair de lá tarde da noite, sem me preocupar com o horário.

A cura do câncer, a paz entre os homens.

Desejo também nunca mais ter que dirigir, o trânsito me enlouquece, nem votar, desperdício de tempo, e que essa maldita dor nas costas desapareça para sempre.

Permita-me ainda desejar ganhar alguns milhares de dinheiro, dos quais ficaria com a metade, o resto distribuiria entre os mais pobres (será?) e daria as migalhas aos pombos. .

Um desejo bastante pessoal me ocorre, não que me faça falta (será?), mas gostaria se meus cabelos tornassem a nascer.

Sim, eu desejo ser cabeludo.

Também gostaria de ser invisível, não para sumir, mas para suprir um desejo de infância, bisbilhotar as outras pessoas sem ser visto.

Outro desejo me consome, aquele de ver o sorriso da pessoa lendo essa crônica e pensando: “nossa, eu também desejo isso”.

Faço sinal com o dedo e a moça do piercing já sabe que desejo mais um chope.

E os pensamentos prosseguem num desesperado trotar; eu desejo assistir ao show do Paul MacCartney, também do Chico Buarque, já que o do Belchior não vai dar mais. Desejo ainda o deslumbre do encontro com outros ídolos, apenas para um abraço ligeiro: olá Caetano, você é lindo, Ney que bom você existir, eu te adoro Gil, não faz idéia, Djavan, o quanto me faz bem, desde quando aprendi a sonhar o seu sonho.

Continuei sorrindo calado para a moça do piercing no septo e ela já começava a se inquietar, os olhos, antes miúdos e tristes, agora sobressaltados em alerta.

“Quer com colarinho”, faço um gesto afirmativo com a cabeça, enquanto meus olhos se perdem entre os brilhos que escapam do piercing

A espuma do chope escorrega pelos cantos dos meus lábios no exato momento que a idéia da eterna juventude explode nos meus miolos. Ah, seu eu pudesse voltar aos vinte anos com a maturidade que hoje tenho...

Imaginar desejos é beber um balde de água salgada: a sede nunca é saciada.

Lavo meus pés na enxurrada de desejos; Comidas venham, eu as desejo, costela de porco assada, pudim, sorvete de coco.

Sinto enlevo, sonhar é preciso e precioso.

Prossigo naquele tropel de pensamentos, ameaço um novo sorriso, mas recuo ao perceber que a moça arregala ainda mais os olhos, convencida de vez que eu não regulo bem das idéias, lava ligeira os copos, desconhece por completo meu novo pensamento: será dolorido colocar um piercing no septo?

Bebo tudo de uma vez e sem querer, bato com a caneca no balcão.

“Deseja mais um chope, senhor?”

Não, por hoje chega, respondi preocupado: quanto tempo irá durar esse tropel de desejos a desfilar na minha cabeça?

No fim, desejo nada mais desejar...

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
19/5/2017 às 09h59

 
Made in Japan

Meu filho Bruno adora mangás e animes.

Quando lhe contei sobre como descobri a existência do Japão, ele abriu um sorriso e me mostrou um parafuso guardado na gaveta, desses novos, com carinha de smiley estampada como se fosse um sorriso.

Mas afinal, o quê tem a ver a terra do sol nascente com o parafuso?

Primeiro um volteio, num dia de outros outonos, ao instante que a esposa de um antigo vizinho, num tropel pelas ruas do bairro Guanandi, apanhou um objeto no chão e o ergueu até perto dos meus olhos: “o mundo não seria nada se não fossem os parafusos” – disse, fazendo aparecer a boca que o buço forte escondia, embaçada num olhar ao mesmo tempo sério e contemplativo.

Olhando atentamente para a cabeça do parafuso, li a frase impactante: made in Japan.

De posse do parafuso, pesquisei nos livros e logo fiquei sabendo se tratar de um país distante, exatamente do outro lado do planeta.

Alguém mais velho garantiu: “para chegar lá, basta cavar um buraco e depois se atirar a uma viagem até a terra do lendário povo dos olhos puxados.

Fiquei fascinado!

Quem poderia supor, debaixo dos nossos pés, existia um lugar fabuloso, antes impenetrável, mas agora bastava cavar para chegar até lá?

Quando contei a novidade, meu amigo Zé Lata ficou extasiado; no instante seguinte, já retirávamos com as mãos a terra barrenta da Sapolândia.

Desistimos da empreitada logo após os primeiros ventos de frio.

Tempos depois, no colégio Oswaldo Cruz, vi-me cercado por nisseis, e a amizade logo surgiu, marcada pelo riso aberto enfeitando aqueles olhos riscados: Oshiro, Arakaki, Katayama, Higa, Mori, Hokama, Paulino, Rose, Reginaldo, Maurício...

Com eles aprendi o significado do sol vermelho estampado na bandeira branca, também sobre a neve que cobria o topo da montanha, as histórias dos corajosos samurais, a valentia insana dos kamikazes, sobre o império e as encantadoras gueixas em seus vestidos de seda e dos cabelos presos num coque deslumbrante.

E a tristeza marcada nos rostos dos olhos puxados à simples menção do nome Hiroshima, “a rosa com cirrose, a anti rosa atômica”, que enfeita de forma triste os versos transformados em melodia na voz do Ney Matogrosso.

Agora me percorre a lembrança do friso pasmo em meu rosto ao me dar de frente pela primeira vez com alguém usando um kimono e ostentando com orgulho uma faixa preta presa à barriga.

O tempo passou, Made in Japan, a frase novamente ecoa pela minha memória enquanto afago os cachos dos cabelos do meu filho, adentrando ao seu sonho de conhecer o Japão, não por conta de um parafuso, ou via um buraco que atravesse a terra, mas pelos mangás e animes, sua adoração, desejo que agora também é meu, movido pela imensa vontade de ver de perto a neve que cobre o topo da montanha, o sol nascer no horizonte inverso, tão vermelho quanto está exposto na bandeira branca do Japão.

E num momento de pura magia, me perco sonhando enquanto aperto com os dedos o parafuso, desses novos, com a carinha sorridente, tipo smiley, desenhada na cabeça.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
6/4/2017 às 15h50

 
Turbulências

A primeira vez que voei ocorreu na semana seguinte ao atentado às torres gêmeas.

Antes eu não tinha medo de quase nada, só de fantasmas, lobisomem e ratos.

É bem provável que essa lista seja mais extensa, mas voltemos ao avião: o primeiro desconforto foi perceber que aeroporto é um lugar fácil de se perder.

Em meio a setas, monitores e gente estranha, me senti um vencedor quando encontrei o portão de embarque.

Eu estava um pouco ansioso, mas o meu queixo danou a bater quando uma voz feminina anunciou o embarque do vôo 6666 com destino a Campo Grande.

As escadas de alumínio refletiram alguns rostos e senti uma vontade enorme de fugir, recuar, mas nem tive muito tempo de pensar, já arrastado pelos passageiros que vinham atrás.

Meu lugar era na poltrona do meio e me lembro com detalhes o senhor enorme ocupando a janela e uma senhora muito magra que ficou na poltrona do corredor.

Exprimido entre eles, tentei mentalizar a quinta de Beethoven , embora o momento pedisse um rock pauleira.

A voz do piloto ecoou pela nave e bateu de vez o desespero.

Será que ficaria muito chato se eu pedisse para descer?

A comissária se postou ereta à nossa frente, fazendo gestos com os braços, aumentando minha aflição.

O suor quente escorreu por minha testa após o último aviso: em caso de queda no mar, as poltronas serviriam de canoa, ou algo assim: danou tudo, pensei, eu não sei nadar.

Tentei conversar com o sujeito da janela, mas ele estava entretido fazendo palavras cruzadas.

Olhei com olhar de filhote de cachorro para a dona magra no outro lado, mas ela estava em meio a uma oração.

A imagem das torres gêmeas era tudo o que eu conseguia pensar.

A voz do piloto me pareceu grave demais: “tripulação, preparar para decolagem”, e não disse mais nada, o bicho rugiu feio, os motores explodiram e eu percebi o quanto a vida não vale nada, bastava uma faísca errada e todos viraríamos carvão.

Joguei novamente as vistas para o lado da senhora magra e percebi, abismado, que ela simplesmente fechou os olhos e dormiu.

Como alguém consegue dormir estando próximo do fim de tudo?

Veio então o primeiro solavanco e meu olho esquerdo afundou.

Só o esquerdo, o direito permaneceu aberto mais que o normal, em constante vigília.

Novos solavancos se seguiram e tive ímpetos de gritar para que a dona magra do corredor acordasse ou o infeliz da janela parasse com as palavras cruzadas.

As luzes acenderam e a voz grave do comandante avisou que havíamos passado por uma zona de turbulência, garantindo tranqüilidade dali adiante; quanta maldade podia ter avisado antes, talvez eu não tivesse trocado o fígado de lugar com a garganta.

Quando enfim pousamos, abri no rosto o sorriso igual ao gato de Cheshire.

Meus pés tocaram o solo moreno da minha cidade e ainda que os ouvidos zunissem, senti um alívio tão grande que quis dançar a galopeira.

Nesse troço “num munto mais”, pensei, juntando restos de palavras misturadas ao suspiro de alívio.

Muitos vôos depois, já não sinto medo, apenas me entupo de calmantes e durmo a viagem inteira.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
9/3/2017 às 11h49

 
O fio de cabelo no lóbulo da orelha

Estava com o rosto diante do espelho contando as rugas quando percebi algo quase invisível se movendo.

Encostei o rosto até bem perto do espelho e me dei conta que havia um longo fio de cabelo no lóbulo da minha orelha direita.

Puxei o danado, gritei de dor.

Com o rosto abrasado, fiquei me perguntando por quanto tempo ele estava ali, sem que eu percebesse.

Por segundos insanos pensei em fazer com aquele fio de cabelo o mesmo que fazia com o cigarro nos tempos de fumante: puxar papo, conversar diversos assuntos.

Puxei novamente, a dor recuou porque já não existia a surpresa e no instante seguinte me preparei para dar fim ao incomodo, apanhei a tesoura e estiquei o fio até o fim, mas eis que reparando de perto, notei que o danado tinha um tom dourado.

Será que alguém vai acreditar que quando criança eu era loiro dos cabelos cacheados?

Talvez fosse o último remanescente dos meus tempos de cabelos cacheados e que tenha sobrevivido há mais de meio século.

Senti um inesperado apego por aquele fio de cabelo e até pensei em guardá-lo numa caixa de vidro.

Minha nossa, que louco é esse que guarda o fio de cabelo numa caixa de vidro?

Depois fiquei em dúvida se devia contar isso numa crônica.

Eis me aqui, decidido.

Devo declarar que desde muito moço sofro com a falta de cabelos.

Tenho cultivado ultimamente uma barba ralinha para disfarçar, que cuido com esmero, por vaidade e porque se tornou um motivo para eu ir a uma barbearia, costume que havia abandonado desde os anos noventa, quando os cabelos se foram e me tornei ligeiramente calvo.

Foi um tempo ruim, de repente, tudo despencou.

No começo, tentei disfarçar usando boné, mas não me acostumei, porque me pesava a cabeça e escondia os olhos.

Nunca entendi o sujeito que tem cabelos e usa boné.

Resolvi deixar para o outro dia o que fazer com o fio dourado. Quando acordei, corri para frente do espelho e procurei em vão o meu precioso fio dourado, mas notei apreensivo que só existia a maciez de sempre no lóbulo da minha orelha.

Será que durante o sonho puxei sem querer a ponta da orelha e o fio se soltou?

O que foi que sonhei, afinal?

Não me lembro de nada.

Mas recordei com riqueza de detalhes uma árvore imensa que existe bem à frente do colégio Dom Bosco, tão velha que deve ter visto de tudo, seus galhos secos insistem abraçar em tons cinza a cidade que engoliu o vilarejo, e lá no alto, bem no canto direito, num verde tão belo que emudece, despenca um fino galho de folhas verdes.

E me apeguei àquele galho verde para nunca mais, porque ele desperta a vitalidade, o conhecimento e toda a história que ainda pulsa na árvore antiga, talvez tal e qual o fio dourado, agora desaparecido na minha orelha.

Então pensei no amigo Marcos Estevão, que além de médico é poeta, psiquiatra dos bons, quem sabe numa boa conversa ele me indique algum remédio, ou apenas um bom gole de uísque, para por fim à falta que me faz aquele cabelo dourado, que sumiu sem se despedir, deixando esse inexplicável sentimento de vazio no lóbulo da minha orelha direita.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
5/2/2017 às 18h25

 
Toque uma canção antiga

Música antiga é atualmente um dos meus melhores passatempos.

Fico horas buscando no youtube aquelas canções do passado que de alguma forma me marcaram.

Tenho um gosto um tanto eclético, vou do rock ao brega, passeio em vôos rasos pela MPB, gosto também de samba e sertanejo, desde que sejam os de raiz.

É exatamente na raiz do samba que gosto de me perder.

Causa-me espanto quando alguém confessa que não conhece o Cartola, o compositor que afirmou que “as rosas não falam”, contrariando meu pensamento de outrora, que acreditava que as rosas sussurravam poemas.

E como sempre confundo rosa com flor, Nelson Cavaquinho me ensinou que espinho não machuca a flor.

Mas será que o espinho às vezes não se confunde com o perfume que a rosa exala?

Mais um clique na tela do computador e me torno apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco.

Por onde andará o Belchior?

Ele bem que avisou antes que iria sumir: “Se você vier me perguntar por onde andei...”.

De repente tudo muda quando ouço Creone, Barrerito e Mangabinha.

Quem?

O Trio Parada Dura, que navega num barco de papel em busca do castelo de amor e que acaba bebendo o orvalho das flores.

E já que falei tanto sobre rosas, espinhos e flores, devo acrescentar a canção divina que agora me invade os ouvidos causando enlevo: a pétala do Djavan.

Mas será que o amor é mesmo exato?

Rosa, flor, espinho, pétala...

Do que mais você precisa para compor um belo poema, amigo poeta?

Troco de novo o ritmo, curto Legião, Titãs, RPM.

Que coisa estranha esse Paulo Ricardo que nunca envelhece!

Fagner musicou os poemas da Florbela Espanca e da Cecília Meireles, e tudo ficou tão lindo...

Toca Raul! A minha turma costumava gritar para o carinha que dedilhava a viola, sentado num banquinho de bar.

E eu não sei se era efeito do álcool ou se por culpa da fumaça do cigarro, mas o cantor sempre se tornava a imagem perfeita do Raul Seixas.

Ainda que tivesse a cara lisa, o enxergávamos de cabelos longos e cavanhaque.

Nas iris de nossos olhos, entre um gole e outro de cerveja, depois de andar pelos quatro cantos do mundo, procurando, compreendíamos que somos feitos da terra, do fogo, da água e do ar.

E tudo voltava até dez mil anos atrás.

No final, o carinha do violão provocava: “tente outra vez”.

E a gente prosseguia tentando.

Uma noite de Nagibão – o melhor barzinho que já existiu em Campo Grande- era tudo o que precisávamos para que a vida prosseguisse pelos caminhos ternos da juventude.

Ah, que dor eu sinto quando hoje passo em frente e percebo que o Nagibão agora é apenas um estacionamento.

E troco de novo a música no Youtube, sim querida Mercedes, “el tiempo pasa, nos vamos poniendo viejos”.

Hoje eu entendo perfeitamente o trecho daquela canção do Geraldo Espíndola: “saudade existe pra quem sabe ter”.

Saibamos então sentir saudades, que no meu caso, basta um clique no youtube que o tempo volta, dói um bocado, mas é uma dor tão gostosa que acaba ajudando a viver.

E o que é a vida? É a rosa, os espinhos, são as pétalas que voam através do tempo em forma de lindas canções.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
26/1/2017 às 09h22

 
Ano novo, casa nova.

Depois de quase duas décadas morando na mesma casa, eis que enfim nos mudamos para a casa nova.

Mudanças me causam o assombro de tudo que é novo e qualquer pensar ligeiro, remete à antiga morada.

Na casa antiga deixei meu pé de limão, boas lembranças e os gatos que não quiseram nos acompanhar.

As paredes que agora nos cercam são azuis e até o cheiro daqui é diferente, mas posso ver da sacada a cidade abaixo, pulsando no ritmo acelerado de sempre.

Dizem que para ser completo, todo homem precisa escrever um livro, ter filhos e plantar uma árvore.

Eu já escrevi quatro livros e tenho dois filhos, então, só me falta plantar a árvore.

A casa nova é de esquina, no cruzamento de duas ruas de pouco movimento, típico dos condomínios fechados, cortado pelo verde das árvores lá fora, o que me faz sentir falta da jabuticabeira no antigo quintal, que dá frutos adocicados, que eu tentava dividir com os passarinhos, mas que quase sempre acabava em brigas, porque os bichos bicavam as frutas maiores antes que os meus dedos a tocassem.

Passarinhos existem aos bocados por aqui, como o casal de coruja que fez casa cavoucando o barranco que fecha os muros.

As corujas também estão de casa nova.

Num relance percebo que preciso mudar a posição da última lâmpada, que dela desprende um feixe luminoso que apaga o arco-íris.

Um casal de tucanos corta o ar, seguidos de pássaros que desconheço, trazendo até a minha lembrança os tempos que as andorinhas tingiam de cinza o céu da cidade a todo entardecer.

Que fim levaram as andorinhas?

Ajeito meu corpo na almofada do sofá com todo cuidado, que o sofá me custou os olhos da cara.

Dois mil e dezessete há de ser melhor que o ano passado.

Os pássaros prosseguem atravessando o céu da nova casa, cortando o silêncio, que só não é completo porque é rota dos aviões, mas que na imaginação, faço deles desenhos de outros pássaros maiores, daqueles que não existem mais.

Ainda há pouco, percebi a distante luz dos olhos de um novo vizinho e fiz com as mãos um aceno breve, sem jeito, que selou talvez o início de uma nova amizade.

Algumas boas lembranças da casa velha me beliscam, provocando a dor da saudade:

Meus filhos nasceram na casa velha, grandes amigos moram nos arredores, o meu nariz reclama a falta do cheiro das telhas de barro e uma aflição toma conta de mim ao perceber que tudo era perto da antiga casa e que agora, até para comer, tenho que atravessar a cidade.

Detesto mudanças, mas entre um gole de café e outro, permito que a casa nova me preencha.

Por aqui espero passar uma velhice tranqüila, observando a tinta dos muros secar nos anos vindouros, durante os quais, solenemente permitirei o sopro do vento esticar a manga da minha camisa, até que a irresistível vontade me faça tocar a terra com as mãos e cumprir a última missão, aquela de plantar uma árvore, o pé de jaboticaba, que é para recordar sempre da casa antiga e ter o pretexto para quando as frutas ficarem maduras, brincar de brigar com os passarinhos.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
2/1/2017 às 18h43

 
O pulso do natal

O leitor que me acompanhar nessa crônica, certamente me tomará como uma espécie de Ebenezer Scrooge, o imortal personagem de Charles Dickens, que não conseguia incorporar o espírito natalino.

Acontece, porém, - e sei que estou sendo repetitivo - que a sinceridade me abraça quando digo que considero o natal uma festa chatíssima.

Acesso o youtube e escuto “O pulso” da banda Titãs.

Adoro essa música!

Que fim levaram os antigos cartões de natal? Antigamente eu passava horas escolhendo cartões que depois enviava para os amigos, como ainda hoje faz meu amigo Manolo, que dos EUA, todos os anos me envia cartões de natal: nunca consegui lhe enviar de volta sequer um reles cartão, e fico naquela de apenas agradecer, numa mensagem seca de muito obrigado, via whatsapp.

Nesses momentos, Mister Scrooge sentiria orgulho de mim.

Mas porque será que chove tanto em dezembro?

Eu detesto chuva.

Visito em pensamentos antigos natais, revejo os amigos e a canção que gostávamos de cantar longe dos adultos: Jingle bels, jingle bels, acabou o papel...

Ainda navega em mim a lembrança do pé de goiaba no quintal de casa, que enfeitamos com bolas de isopor, mas à noite veio a chuva de dezembro, forte e rápida, levou tudo embora e daquilo só guardei melancolia.

É no natal que esse sentimento aflora, assim que me vejo diante da figura nórdica do papai Noel: “ho, ho, ho” diz o senhor fantasiado de barba e roupão vermelho, sem se importar com a minha indiferença.

Talvez não passe de trauma de infância, porque nunca tivemos casa com chaminé e enquanto o filho da vizinha ganhava uma bicicleta, eu me contentava com um carrinho de plástico sem as rodas.

Ok, Mister Scrooge, eu também não gosto de vinho, peru tem a carne sem graça e castanhas me provocam engasgos.

Mas o pulso pulsa.

Arroz com uva passa? Não, passo, prefiro farofa.

Bebe-se muito no natal, penso, enquanto tomo mais um gole de cerveja.

Não devia fazer isso, um copo a mais é um neurônio a menos.

O pulso ainda pulsa.

Quando o fecho da noite de natal se aproxima, o único pensamento que me ocorre é que preciso urgentemente fumar um cigarro.

Eu não posso fazer isso.

Uma tragada a mais é um dia a menos de vida.

O pulso segue pulsando.

Alguém, por favor, me sirva um pedaço de panetone!

Eu sei que já disse diversas vezes que detesto panetone, mas talvez combine com o vinho, que agora está tão doce...

A noite termina e resta uma tênue luz que escapa de uma árvore de natal.

O pulso haverá de pulsar na manhã seguinte.

Suma daqui, Mister Scrooge!

É hora de preparar os festejos da virada de ano, que este que está acabando foi péssimo, levou David Bowie, Prince, Ferreira Gullar, Geneton Moraes Neto, um time inteiro de futebol.

No fim de tudo, fica em mim o inquietante sentimento que o natal é melancólico e é preciso permitir que o vento de coisas boas e novas assopre em meu rosto a brisa da fé e esperança, que o ano que vai começar seja muito melhor para todos e que o pulso prossiga pulsando por outros tantos natais.

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Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
15/12/2016 às 10h04

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