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Sábado, 8/4/2017
Flávio Sanso
Flávio Sanso

 
Escolta

A feira acontece ao rés do chão. Ao longo da calçada estendem-se toalhas, sobre as quais as mercadorias estão expostas. É um comércio rasteiro (na acepção literal da palavra).

Pulseiras e cordões com referência à Jamaica, brincos artesanais, pedras coloridas, porta-incensos, estatuetas de corujas, gatos, elefantes, gnomos simpáticos, tudo isso está à venda, mas o fato é que os mesmos produtos repetem-se em todas as toalhas, não há variedade que diferencie umas das outras. É talvez por esse motivo que um dos vendedores tenha inventado maneira de ganhar destaque.

Sentado em posição de Meio Lótus, ele equilibra na cabeça uma bola azul de plástico, é impossível não lhe dedicar alguma atenção, nem tanto pela habilidade matreira, mas em especial porque as gargalhadas lhe saem fácil, vão sendo despejadas num ambiente inóspito ao entusiasmo, são vibrações sonoras deslocadas no domínio das expressões emburradas que vão e vêm. Qualquer coisa é razão para um sorriso, qualquer coisa mesmo, inclusive as duas armas que, pela esquerda e pela direita, passam rente a cada uma das orelhas.

A cabeça mantém-se imóvel, é preciso preservar o equilíbrio da bola azul, já os olhos, como se entretidos numa partida de tênis, vão de um lado ao outro, acompanham a movimentação ao redor. E ainda que um pouco menos extravagante, lá está o sorriso, ele agora assume a forma de ironia ao poderio dos instrumentos letais que chegam impondo presença ameaçadora, um hippie não se curva às truculências do mundo.

Coturnos, trajes escuros, armas na cintura. Quando surgem os vigilantes de carro-forte, é inevitável que se instaure no ar uma tensão. Repare os dedos no gatilho, as mãos preparadas para o saque da arma, não é momento de esboçar qualquer atitude brusca, a prudência recomenda cabeça baixa, distância, se possível convém deixar claro: sou pessoa comportada. Mas nem poderia ser diferente, está em jogo o mais perseguido dos anseios, não é com flores ou gentilezas que se defende o objeto de obsessões seculares.

Estão de volta, vindos do shopping ou talvez de algum banco, alguma rede de fast food. As bolsas parecem pesadas, dia de boa produtividade. Sem dúvida, o trabalho é feito com diligência, é como se o dinheiro recebesse tratamento de monarca bem protegido, de celebridade a salvo da histeria. O cortejo vem trazendo a carga preciosa até o carro-forte estacionado logo ali atrás de onde o hippie, sentado, ainda equilibra a bola azul sobre a cabeça, eis aí o sorriso infalível, o hippie observa a cena, continua a sorrir, acha muita graça de tudo isso, afinal o patrimônio que lhe é mais caro, a alegria, não requer escolta.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
8/4/2017 às 10h27

 
O mapa da África

Eles estão vestidos da mesma forma, mas, todos sabem, a juventude é hábil em burlar padrões. O garoto usa uma touca certamente inapropriada para o calor do meio-dia, uma das garotas tem a lateral da cabeça raspada, a outra garota combina o vermelho do aparelho com o vermelho da armação dos óculos. Os três carregam mochilas muito gordas, não há precisão se aquilo é só material escolar ou se ali dentro também estão guardados os sonhos de cada um deles. É coisa fácil de comprovar por aí: nas sextas-feiras os colegiais falam mais alto, os sorrisos saem soltos, às cambalhotas. O garoto de touca e a garota da cabeça raspada fazem um resumo descontraído da semana, debocham, riem, relembram peraltices, voltam a rir. Enquanto isso, a garota dos óculos de aro vermelho está em silêncio, mantém a concentração, examina o pilar que sustenta o telhado do ponto de ônibus. Ela é paciente, espera os outros dois se aquietarem para anunciar uma descoberta:

– Olha só, o mapa da África.

O garoto de touca e a garota da cabeça raspada não dão tanta bola, voltam ao assunto de antes e agora estão ainda mais efusivos. O ônibus vem chegando, a garota do óculos de aro vermelho faz sinal, se despede. Quando então restam só os dois, o garoto de touca e a garota da cabeça raspada vão depressa até o pilar de ferro, conferem com apuro o formato de uma mancha de ferrugem, um deles lança uma interrogação:

– Como é que ela nota essas coisas?



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
3/9/2016 às 09h28

 
Preservativo para a inconveniência

Xarope em promoção, aparador de cutículas, descongestionante nasal, odorizador de ambientes, balas de gengibre para a garganta, lixas de unha, álcool em gel e uma barriga.

Barriga espremida contra o balcão de vidro, o homem aponta para o varal de embalagens multicoloridas, quer informações pormenorizadas. De pronto, a atendente esclarece dúvidas sobre quantidade, preço e até sobre cheiros e sabores. O homem não está satisfeito, sua intenção agora é apalpar a mercadoria. As cartelas, então, são trazidas até o balcão. A atendente as espalha como se lidasse com peças de roupas. Não deixa escapar qualquer indício de constrangimento, o que, aliás, distingue o seu bom profissionalismo, mas o problema é que ela acumula a função de atendente com a de caixa, e isso quer dizer que a fila de pagamentos já se estende quase para além da saída.

Indiferente ao comprimento da fila, o homem ainda não fez sua escolha, continua a tomar de assalto a atenção da atendente, ele examina medidas, concentra-se na leitura das especificações técnicas, repete perguntas, em especial sobre a quantidade, ao que parece quer deixar claro que costuma fazer uso constante do produto. As pessoas na fila começam a demonstrar suas impaciências, atravessam o grau de insatisfação em que olham com cara feia para diferentes pontos, como que pedindo providências.

Outra atendente, a responsável pelas receitas médicas, percebe a gravidade da situação e assume o caixa. Crédito, débito, via do cliente, a fila vai diminuindo até não restar quem tenha que pagar pelo que comprou. Enquanto retorna ao seu posto, a atendente das receitas médicas observa a cena em que o homem ainda se demora em investigações. Meio indignada, meio sarcástica, ela resmunga:

– Só falta ele querer experimentar.


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flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
24/7/2016 às 20h28

 
O que brota no meio da música

Quando entrou no salão, não imaginava que o aperto no peito a desconcertasse tanto. Já fazia muito tempo. Depois de décadas, o lugar agora parecia menor, é como se as paredes tivessem dado passos para frente. Olhou apressada para o canto onde ela e as amigas gostavam de ficar, chegavam cedo para conquistar território, chegavam quando ainda não havia quase ninguém. E era exatamente só naquele canto que agora uma montanha de entulho se acumulava. Ela gostava de chegar cedo também porque era no início, sempre no início, que tocava a sua música favorita. Jump they say, do David Bowie, era um privilégio para os adiantados. Ouvia a música alta, fechava os olhos e dançava em hipnose. Durante a semana, esperava ansiosa por aquela noite que era o intervalo entre o tédio do domingo e as preocupações da segunda. As preocupações daquela época eram tão ingênuas! Só não ia, e isso com grande pesar, nas semanas de prova. No alto já não há vestígio do equipamento de luz que testemunhava olhares furtivos, cochichos, conversas de fazer o coração palpitar. Não tem mais contato com aquelas amigas, saudade delas, cada qual seguiu um rumo na vida, certa vez soube por alto que uma delas inclusive havia morrido. O que vê à frente é decadência de navio naufragado. É triste estar ali sem as músicas, sem as amigas, sem a juventude da época, a sensação é a de que ela, ali parada e sozinha, tenha ficado para trás. O silêncio e a poeira querem dizer que tudo passou, a cada dia está mais longe e desbotado. Mas às vezes ainda resta um recurso, toda vez que ouve Jump they say, ali no meio da música as memórias resistem, se achegam e ganham algum colorido.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
7/6/2016 às 13h07

 
Depois do cinza

Ali estava uma tela impossível, mas alguém conseguia desenhar na superfície irregular, eram traços, cores, efeitos, técnicas que venciam chapiscos e infiltrações. Isabela, garota sempre ocupada com fones minúsculos que lhe invadiam os ouvidos, era a única a se impressionar com aqueles desenhos, afinal um muro de cemitério não é dado a receber olhares que demorem tanto. Na verdade, nem era a única. Todas as vezes antes de fazer subir e descer o rolo ensopado de tinta cinzenta, o zelador da prefeitura se demorava em contemplar o desenho, reparava cada detalhe como se se despedisse. Isabela não se importava quando dava de cara com o muro pintado de cinza, sabia que em breve haveria de se encantar com um novo desenho. Até gostava que fosse assim, a espera tinha sabor que alegrava parte do dia. Depois, Isabela sentiu crescer uma força que lhe exigia invadir aquele mistério. Arriscando-se entre as artimanhas da madrugada, passou a fazer vigília em frente ao cemitério e eis que o flagrante se deu na terceira vez. Lá estava ele a tratar o muro como relíquia. Isabela reconheceu as galochas, os cabelos cheios, a postura torta. E o jeito de contemplar o desenho. Um artista que vivia de renovar sua obra. O zelador da prefeitura era assim.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
19/4/2016 às 22h35

 
Os frutos

Na subida da Alameda Isaac Newton, os braços dela envolviam o pacote pardo de compras, um abraço forte feito os de saudade. Dentro do pacote, agitação. Uma maçã foi expulsa pelo rebuliço das frutas, quicou, rolou, desceu ligeiro, a velocidade em aceleração exponencial até encontrar freio na lateral de uma bota. A devolução foi feita entre sorrisos acanhados e olhares intermitentes. Vieram os filhos, os netos, já há inclusive bisnetos. É a árvore genealógica que nunca existiria não fosse o declive da Alameda Isaac Newton.



Texto originalmente publicado no site reticencia.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
29/3/2016 às 13h25

 
Streets of Philadelphia

Ela chega em casa e flagra a si mesma repetindo os mesmos gestos de sempre, é como se fosse um dia só, que se repete, se repete, o mesmo cansaço, o mesmo desânimo, as mesmas chaves atiradas sobre a mesa de vidro, é o mesmo barulho escandaloso, não encontra sentido, não enxerga saídas, mas ligar o rádio pode ser uma boa ideia, quando ouve música costuma se sentir um pouco melhor, músicas da rádio FM porque aí são músicas aleatórias, entre uma música e outra um fino lapso de expectativa, é o máximo de esperança que consegue ter, logo essa música, não, essa música não, ela é triste, hoje era a última música que ela queria ouvir, foi a trilha sonora de um filme em que o Tom Hanks, novinho, magrinho, morreu de AIDS, ela pensa, há pessoas sofrendo de AIDS, de câncer, de febre amarela e eu aqui com a minha falta de ânimo, é o tipo de comparação que não funciona, não funciona sentir-se culpada, ela ainda está mal, talvez pior, estava triste e agora está com a consciência em xeque, ela corre até o celular e o desliga, não aguenta mais a sensação idiota de esperar a vibração da mensagem que nunca chega, a vibração da ligação que há uma semana não irrompe e não a faz correr para atender, alô, tudo bem? Como foi o dia? O teclado dessa música é tão melancólico, soa tão depressivo, ela ainda não desligou o rádio porque ainda precisa se sentir corajosa de enfrentar a merda de uma música triste, o telefone fixo toca, ela lamenta ter se esquecido de deixar fora do gancho, e se não for quem ela quer que seja, e se for quem ela quer que seja, ela se pergunta se deve atender, hesita, atende, não atende, avança, recua, e se o telefone nunca mais tocar, já tocou demais, está prestes a parar de tocar, ela atende, um engano.



Texto originalmente publicado no site reticencia.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
22/3/2016 à 00h45

 
O uniforme do herói

Descer a escada rolante do shopping é tarefa das menos marcantes. Ninguém, quando entregar a cabeça ao travesseiro e conferir o saldo do dia, terá lembrança do exato instante em que descia a escada rolante de um shopping. A não ser que lá embaixo desponte o zelador tomado pela agitação de quem enfrenta a urgência. Num gesto rápido, lança mão da habilidade de perito e aciona o mecanismo que imediatamente para a subida dos degraus. Só depois percebo que ao meu lado, na escada de subida, dois idosos estão caídos. Como terá sido isso? Uma senhora tem o corpo enviesado entre os degraus, um senhor está logo atrás. Impressiona que os dois mantenham tanta calma. Não se debatem, não gritam por socorro, estão deitados com olhares direcionados para cima como se descansassem numa cama. O bombeiro, a moça da loja de doces, o rapaz da perna tatuada, logo se amontoa muita gente ao redor dos dois. Durante o resgate, ambos permanecem serenos embora haja dificuldade de se porem novamente em pé. Ali está a comovente resignação que só vem com o tempo.

Já aos pés da escada e ainda estranhando ter presenciado tamanha eficiência, chego perto do zelador e lhe digo que sem ele tudo seria pior. Sem abandonar a modéstia, ele diz que as serras no topo da escada rolante poderiam ter ferido gravemente os dois idosos. Reparo no uniforme que exibe o emblema do shopping e me despeço dando-lhe parabéns, ao que o zelador agradece encabulado. Mais à frente me deparo com o cartaz do cinema. Dois super-heróis estão vestidos com capas, roupas coloridas e máscaras. De imediato o que me vem ao pensamento é que nossos heróis, heróis de verdade, usam uniformes discretos.



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flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
4/1/2016 às 17h09

 
Assessoria de natal

Distraída com a tela do celular, a assessora do papai Noel negligencia a fila já bem comprida. Ele próprio, o assessorado papai Noel é quem devia repreendê-la, mas se mantém indiferente, está prostrado na poltrona vermelha, onde também se entretém com o celular. Um choro agudo faz a assessora do papai Noel despertar do sonho tecnológico, ela guarda o celular e se põe a enfrentar o batente, pega pela mão a criança birrenta e a leva até o colo do papai Noel, que imediatamente encontra abrigo para o celular. Papai Noel arrisca algumas frases clichês, foi bonzinho durante o ano?, o que vai querer ganhar de presente?, mas nada acalma o choro da criança. A mãe, sem mais argumentos, sem mais paciência, sem mais tempo, contenta-se em retratar o filho com careta de menino chorão. Aliás, na fila, muitas crianças protestam por meio do único recurso de indignação que lhes cabe. É até compreensível, choram por não querer proximidade com a criatura extravagante que esconde a cara por trás de tufos de algodão. Aí está só o início das incompreensões e desentendimentos entre pais e filhos que durarão pela vida afora.

A assessora do papai Noel dedica novamente atenção exclusiva ao celular. A maquiagem exagerada não disfarça a idade de quem ainda nem chegou à adolescência. Sua fantasia formada por gorro, luvas, meias longas transmite incômodo pela sensação de que deve provocar um calor dos infernos. Se bem que o ar condicionado do shopping traz algum alívio, ao que parece tenta simular a temperatura de onde veio o nosso papai Noel. Ao olhar para o lado, uma expressão de enfado. A fila não para de crescer.

Fim do dia, em meio a pessoas carregando bolsas de compras, a garota sai do shopping ainda fantasiada. Não fosse tempo de natal, a cena soaria estranha. Enfim, contexto é tudo. De repente, acelera o passo, o que a espera não são renas nem trenó, entra no ônibus e por sorte consegue lugar junto à janela. Mal se senta e já está conferindo as novidades na tela do celular. Aquele ônibus, cheio e barulhento, não tem ar condicionado.



Texto originalmente publicado no site reticencia.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
1/1/2016 à 01h11

 
A cada um a imortalidade de seu tempo

Observo o quadro que exibe a fotografia em preto e branco de uma cena congelada desde o início do século passado. 1910, mais precisamente. Há muitas pessoas na Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro. Vestem as roupas da época e olham curiosas na direção de quem lhes aponta a então moderna máquina de fotografar. A constatação é óbvia: todas as pessoas retratadas na fotografia já morreram. Outra constatação: absolutamente nada se pode saber dessas pessoas. Do mesmo modo, na cena atual de uma cidade movimentada qualquer, as pessoas que transitam agitadas pra lá e pra cá daqui a cem anos obviamente não existirão mais. E, a não ser que sejam cientistas que descobriram a cura de alguma doença, ou artistas geniais, ou modelo do artista genial (tal Monalisa), ou generais vitoriosos em guerra, ou membros da academia de letras, todos estarão desaparecidos da história para todo e sempre. É assim, milhares e milhares de pessoas passaram e passarão por este mundo e nada se pode nem poderá saber delas. Mas, claro, é caso de se admitir divergências, e nesse aspecto duas obras cumprem o papel de apresentar outras perspectivas sobre o assunto.

Agora traduzido no Brasil, o livro "Stoner", do norte-americano John Williams, acompanha toda a trajetória de William Stoner, que, nascido no campo, transfere-se para a cidade grande, cursa a universidade, torna-se professor, sofre pela morte dos pais, casa-se, tem uma filha, separa-se, aposenta-se e ... morre. O mérito do livro é ter extraído emoção do relato de uma vida comum, é ter iluminado o protagonismo de um homem afastado de qualquer proeminência. É como se o livro pudesse ter retratado a minha vida, a sua vida, a vida de um bancário, de um lojista, de um caminhoneiro.

E é de um caminhoneiro que trata o documentário "Um homem comum", de Carlos Nader. A vida de Nilson de Paula é acompanhada por cerca de vinte anos, período em que são examinadas as ocorrências ordinárias do convívio familiar, tais como a dor do luto e a relação conflituosa entre pai e filha. Também aqui, a obra artística joga luz sobre uma vida que se confunde com tantas vidas ao redor e que certamente passaria despercebida não fosse os holofotes das câmeras. Nilson de Paula, o homem comum, é, antes de tudo, dono de uma vida especial.

Enfim, as duas obras querem dizer que a vida de qualquer um daria um livro ou daria um filme. As duas obras demonstram que, usando uma adaptação torta de Vinícius de Moraes, cada um é imortal a seu tempo.



Texto originalmente publicado no site reticencia.com

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Postado por Flávio Sanso
2/10/2015 à 01h48

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