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Sexta-feira, 14/4/2017
Impressões Digitais
Ayrton Pereira da Silva

 
O VERBO ALQUÍMICO

Contra todas as minhas expectativas, cheguei, para o bem ou para o mal, aos oitenta de idade, acredito que em plena lucidez, embora com as limitações impostas pelo tempo, de que ninguém, de resto, escapa.

Em contrapartida, esta longa jornada me propiciou um acúmulo de observações e percepções — o que se costuma chamar de experiência — e neste momento desejo falar sobre isso.

Talvez seja uma veleidade minha, não sei. Trata-se de uma visão pessoal e, portanto, de minha exclusiva responsabilidade. O fio condutor dessas reflexões foi uma frase do poeta e livre-pensador, recentemente falecido, Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida só não basta”, que logo se transformou num chavão, no melhor sentido, é claro.

A poesia é algo imaterial e onipresente. O problema consiste em saber e poder captá-la, e para tanto existe a arte, na mais ampla acepção da palavra; ela sim tem o condão de abrir as portas para o inefável, conduzindo o homem às intangíveis paragens do sublime, que bem pode ser comparado a outro mundo: o universo poético.

É ela, a arte, que nos tira do rés do chão onde vivemos, subjazendo, porém, fora de alcance do olhar pragmático daqueles que encaram a vida como uma competição de vale-tudo.

Como até hoje me dedico ao ofício escritural, tenho preferência por este meio de tentativa da expressão, que é o poema.

Será, pois, de poesia e de poemas que falarei.

Em minha época de estudante, quando nos ensinaram análise sintática, eram passados, como dever de casa e de provas de português, trechos de “Os lusíadas”. Para nós, ainda meninos, nos sentíamos mais perdidos do que de se tentássemos, por absurdo, decifrar a Pedra de Roseta. Aquele fraseado arrebicado, em ordem inversa, da épica camoniana, nos deixava loucos de raiva. Daí, na contramão do que viria depois, criei aversão à poesia.

Um dia, quando já ao término do ginásio, numa tarde modorrenta, resolvi abrir a antiga antologia escolar, e, guiado pelas mãos do acaso, deparei-me com um poema lírico de Camões, cujo título era motivo de zombaria entre os estudantes, por causa do cacófato: o soneto “Alma minha gentil”, que considero o mais belo e sublime dos países lusófonos, escrito com as tintas da dor pela perda da chinesa Dinamene, seu grande amor, num naufrágio em que não pôde salvá-la.

Há quem critique a cacofonia do primeiro verso do soneto camoniano, que, todavia, se sacralizou, a despeito daqueles que, em sua visão reducionista, tomaram a parte pelo todo.

Existem, por outro lado, os que sustentam que, à época da concepção do soneto, usava-se a palavra teta, ao invés de mama.

Há também os que afirmam ter Camões, muitas vezes, parafraseado seu mestre Petrarca, a quem se atribui a criação dos sonetos, mas a poesia, como consabido, é a arte da imitação. Conforme ressaltado pelo crítico italiano Pellizari — mencionado por Hernâni Cidade em seu livro “Luís de Camões, o lírico”, in Livraria Bertrand, 3ª ed., 1967 — este bem pode ser um exemplo emblemático dessa forma de arte: a paráfrase, não o decalque servil, mas um modo de, com elegância e fino estilo, prestar homenagem a outro imenso poeta.

Trata-se, ao fim e ao cabo, a meu ver, de controvérsias de somenos.

Quanto a mim, o soneto “Alma minha” me surpreendeu no contrapé. Foi uma espécie de choque de alta voltagem em meu espírito. Uma epifania. Estava diante da verdadeira poesia que me tomou de assalto e não me deixou mais, feito uma doença crônica benfazeja.

Embebi-me de poemas, lendo, relendo, treslendo poetas nossos, franceses, ingleses, russos etc., magnificamente traduzidos para o idioma pátrio. Compulsava erraticamente os livros e andava nas nuvens, embriagado de poesia.

Não sei se fruto da vocação ou da obstinação, surpreendi-me a escrever os primeiros versos. Foi dificultoso, mas prossegui.

Não cabe ao poeta julgar suas produções, e sim ao eventual leitor — ou como disse Baudelaire, no derradeiro verso do poema inaugural de seu livro “As flores do mal”, que lançou os fundamentos da poesia moderna, tornando o feio em belo: “leitor hipócrita, meu semelhante, meu irmão!” ou no francês de origem — hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère!

A materialização da poesia num poema é como um salto metafísico: o poema chega de chofre e vai fluindo por si mesmo, como se proviesse do Inconsciente Coletivo, essa espécie de caixa-preta que todos carregam num ponto qualquer da mente, sem poder abri-la. Ali estão contidos os arquétipos, as imagens e signos remotos, decorrentes do passado pessoal e coletivo, nessa espécie de guardião avaro que somente, de vez em quando, os libera com extrema parcimônia, ensejando a feitura do poema.

Quem magistralmente definiu, numa só palavra, esse processo criativo foi ninguém menos que Fernando Pessoa ao batizar um de seus mais famosos poemas com o título de “Autopsicografia”.

O que se chama, correntiamente, de inspiração nada mais é que a “outridade”, a qual — segundo acentua o notável Nobel de literatura Octavio Paz — (...) “não está dentro, em nosso interior, nem atrás, como algo que surgisse subitamente do limo do passado; está, por assim dizer, adiante: é algo (ou melhor: alguém) que nos convida a sermos nós mesmos.” (“O arco e a lira”, traduzido por Olga Savary, Nova Fronteira, 1982).

Também Jorge Luis Borges observa que o autor deve interferir o mínimo possível na sua obra. Deve ser um escriba do Espírito ou da Musa, o que dá no mesmo. (“Nova antologia pessoal”, Ed. Sabiá, 1979).

Assim, a meu ver, o poeta se torna, por assim dizer, um médium de si próprio, ou seja, do “outro”, que nada mais é do que seu eu profundo, a quem dá vez e voz, daí surgindo o momento mágico da revelação poética, espelhado no poema.

Que tudo isso exalça e extasia, não há dúvida, mas não é maior que a vida, o enquanto em que duramos, meros transeuntes do tempo, nada mais.

A verdade é que, com o passar das décadas e o desgaste inevitável por ele causado, esses momentos vão rareando. Em geral, tem-se a disponibilidade que não se tinha antes, mas não se tem mais a faísca que ateia o fogo sagrado de Prometeu.

À medida que descemos a montanha pedregosa da vida com o sol pelas costas, e a visão crepuscular prenuncia o escuro do desconhecido, a natureza como que nos prepara: os sentidos vão, aos poucos, esmaecendo, o mundo vai perdendo as cores e as sinapses rateiam, numa espécie de anticlímax sem pompa nem circunstância.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
14/4/2017 às 16h09

 
DOIS POEMETOS E UM SONETO INÉDITO

ANTIBIOGRAFIA

Acho que a vida

inteira

entrei por portas cerradas.


Ou me enganei

de endereço

entrando em portas erradas.


(Assim me resumo

à grafia

de apenas duas palavras).

in Destempo, 7 Letras


LUSTRAL

Fora de tempo

Fora de hora

A poesia mostra a cara


Feito um dente já doente

Dói por dentro

Rói silêncio


Maturada cada sílaba

Deixa enfim sua crisálida

Veste a forma da palavra

idem


SONETO

Como a luz da manhã, sem prévio aviso,

aroma, flor, ninho de passarinho,

enfeitaste de sonhos meu caminho,

para que a vida tivesse sentido.


Muito cedo seguiste o teu fadário

com teu rastro de luz de ausente estrela

que o tormento mudo de não vê-la

acendeu-me no breu um fogo-fátuo.


Na escuridão da noite que me envolve,

mergulhando nas trevas nossa saga,

há de restar a luz que jamais morre


de um amor que persiste e não se apaga

como um espectro verde de esperança

que a longa mão da morte não alcança.


Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
21/3/2017 às 17h22

 
A TROCA

O senhor me perdoe a inconveniência de dirigir-lhe a palavra sem sequer conhecê-lo, mas um dos poucos benefícios que a idade avançada permite aos velhos é este — o de ser nada. E um nada não incomoda a ninguém porque inexiste. Portanto, faça de conta que não estou aqui, não tenho corpo e muito menos voz. O meu acidental interlocutor nem se tocou. Permaneceu mudo e quedo, uma estátua.

Então, de mim para comigo, sentado neste banco do cais, fiquei contemplando o crepúsculo sob a aragem do entardecer que tornava o ar mais leve e fino, matutando que a verdadeira beleza da vida estava na gratuidade das coisas e o que atrapalhava tudo, como quem picha um monumento público, era a realidade com seu pragmatismo nu e cru. Era ela, ou melhor, esse Leviatã que a espécie humana foi, aos poucos, através das gerações, gestando, nutrindo e aparelhando, que acabou se tornando o carrasco dos próprios sonhos da humanidade, os sonhos que, num tempo não muito distante, um dia todos tiveram e cuidaram como algumas pessoas até hoje cuidam de flores e jardins. Agora, se ainda houver sonhos, já nascem póstumos, o que é pior que natimortos. Os sonhos póstumos, como qualquer um de nós, também têm vida, só que, por assim dizer, intrauterina.

Não me contendo mais no silêncio absoluto de meus pensares e pesares, impulsivamente resolvi confrontar minha velha inimiga íntima — a consciência, essa tal que cada um carrega dentro de si, e com quem nada simpatizo, pois não raro ela me põe contra a parede, ora me censurando, ora me cobrando, logo a mim que já tenho um superego tirânico, como se isso, por si só, já não bastasse.

Estava disposto a vingar-me e comecei a provocá-la:

“Vamos falar de platitudes, pois é, platitudes... aliás, você sabe o que é? Ora, isso não é desdouro pra ninguém (se me permite a linguagem coloquial), platitude quer dizer banalidade em bom e puro vernáculo, outra palavra que faz tempo não ouço mais ninguém dizer e muito menos vejo escrever. Isso me entristece, mas não surpreende mais. Quem viveu até onde já cheguei e viu e leu, amou, sofreu, errou e acertou, sabe que no final a banca sempre vence.

A vida, na sua expressão mais simples, se resume a uma singela troca: não por acaso expressões como “o amor é o sal da vida” e outras que tais universalizaram-se desde as mais remotas eras. O termo salário provém de sal, quando o escambo ou troca, antes do advento da moeda, era a forma principal de pagamento de uma compra feita ou um serviço prestado. De lá para cá, só mudaram os condicionamentos exteriores, ou seja, o chamado processo civilizatório, tênue camada de verniz para melhorar as aparências.

Houve progressos sim, gigantescos até, e assustadores também, mas o descompasso, a dicotomia essencial ente instinto e razão não acompanhou a evolução científica e tecnológica que atingimos. Antes, agravou-se, face ao uso dessas conquistas tanto para o bem quanto para o mal. Como é notório, historicamente, as ferramentas da técnica e da ciência sempre foram caudatárias do poder, independentemente de seus criadores.”

Eu era um nada falando para o nada. Por meio desse exercício no vazio tentava também preencher as lacunas que cresciam no território da memória, assombrando-me.

Vivia o bizarro paradoxo da existência sobre que tanta vez meditei e bem ou mal escrevi, aludindo à cruel ironia da vida que marcha irrefreavelmente da síntese para a análise, do início para o inevitável fim, do alfa ao ômega. “Em meu fim está meu princípio” (“In my end is my beginning”) não é senão uma admirável imagem de T. S. Eliot, um dos luminares da poética universal, capaz, é claro, de nos tornar até um pouco mais humanos, como se tocados por algo de etéreo e iridescente que, do ponto de vista puramente material, não vai além de uma associação de palavras. Este o poder de transfiguração da poesia, carente de força motriz, valor mercantilístico, cotação na bolsa ou expressão econômica qualquer. Ou seja, um tudo que é nada ou exata e precisamente o contrário.

A vida como ela é, vida como vida, dura um mero enquanto. Sim, o fugaz enquanto de nossa transitória existência. Houve um filósofo cujo nome se esfumou na densa névoa de meus vazios que a figurava como um lindo bordado tecido por mãos caprichosas: na primeira fase da vida até o fim da maturidade, ele é visto em seu lado certo, embora, com o correr das décadas, já sem a mesma vivacidade das cores e riqueza dos finos detalhes de antes; na segunda fase, a do envelhecimento, o bordado mostra-se ao avesso — aquele emaranhado de linhas entrecortadas, embaraçadas e de nós cegos, indesatáveis, que não podem ser refeitos e, se desfeitos, desaparecerá por inteiro o bordado.

Numa reação instintiva de autodefesa, durante nossa breve vida ativa, nos iludimos e eludimos a consciência de nossa finitude, triste legado da racionalidade, numa espécie de jogo de esconde-esconde, faz de contas de falsa e triste brincadeira de adultos que tentam em vão, patéticos e desajeitados, ressuscitar a criança que foram um dia.

Mas é impossível transformar o enquanto, em que se resume nossa vida fugidia, num encanto, de modo a reencontrar o retorno ao solo mágico da fantasia, só à infância acessível. Ou talvez, quem sabe, os que perderam de todo o juízo possam retornar ao intransitável e encantatório caminho defeso aos adultos ditos normais.

Na busca de rotas alternativas, manobras diversionistas que nos afastem da ideia recorrente do desfecho que nos espreita, inventamos todo um rol inacabável de devaneios, de ilusões que não passam de melancólicos adiamentos da temível e indesejável hora — aquela que se evita pensar e muito menos falar e que, aliás, nunca andou tão próxima como agora com esses artefatos de destruição nuclear em massa encontráveis nos arsenais das mais diversas potências de matizes ideológicos divergentes. Outrora, as guerras, dada a limitação dos armamentos, tinham seu teatro de operações circunscrito; hoje, não. Eis o diferencial aterrador.

Daí a ânsia de viver o agora, e como ninguém oferece almoço de graça, a vida continua como começou, baseada na troca. Tudo tem seu preço. Nada mudou. Até o casamento, essa instituição praticamente falida, é uma troca de direitos e obrigações, de caráter contratual.

A racionalidade, que nos diferenciou e tornou a espécie dominadora de todas as demais, fez-nos também o mais temível dos predadores. Diz-se, por isso, que essa duvidosa faculdade é o tributo mais gravoso cobrado ao ser humano. Eis a superlativa ironia da vida...

Mas, creio, não devam levar muito a sério as divagações de um velho, que, não raro, se perde entre lacunas e hiatos, ziguezagueando sem mapa ou bússola nos descaminhos de um cérebro fatigado. Concedam-lhe, pelo menos, o benefício da dúvida. Garanto que dormirão melhor.

A essa altura, o sol já se pusera, a noite começava a cair. E meu suposto interlocutor ali estava, mudo e quedo, impávido e olímpico, uma estátua que não usava óculos. Lembrei-me, em contraponto, de Drummond, eternizado em bronze num banco da Praia de Copacabana. Com dificuldade, levantei do banco do cais em frente à pedra da Itapuca, em Niterói, ainda ofegante pelo esforço de falar comigo mesmo.

— “Você, além de velho, é maluco e um patético niilista, cuja obsessão doentia consiste em querer estragar a vida dos outros, com suas teorias mórbidas, roubando-lhes o direito de exercer, em plenitude, o dom da vida. No fundo, você não passa de um reles ladrão da felicidade alheia” — pareceu-me dizer, categoricamente, a voz de minha consciência. Era o seu revide, ao qual fingi não dar ouvidos, enquanto seguia a passos lentos para o exíguo apartamento de aluguel onde morava, tendo por pano de fundo a paisagem desalentadora dos edifícios que barravam a luz do sol e a passagem dos ventos.

Ela falara a verdade.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
2/3/2017 às 12h11

 
DESLEMBRANÇAS

O tempo não tem pressa

e lentamente

erige em seu lugar as deslembranças

pedaços de hiatos

fragmentos de espaço

decompondo a memória

e sua história.


O sorriso paterno

esbatido na distância

já é um rictus

nem riso nem sorriso

e sua voz não soa mais no ouvido.


O retrato da casa em si tão vívido

desenhado em relevo na saudade

vira saudade só

sem corpo apenas mito.


Assim o tempo desconstrói a sua obra

acrônica e atópica

que se afirma por si

tão metafísica quanto metafórica

de vácuo preenchida

na sua imponderável engenharia.


Ayrton Pereira da Silva

(in Umbrais, Sette Letras, 1977)



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
5/2/2017 às 19h15

 
FRIBURGO, MINHA TERRA DE ADOÇÃO

”Soverteu num rompante. A terra encrespou e tudo veio abaixo”. Ouvi essas palavras de um peão de obra, que havia trabalhado na construção de uma casa na encosta serrana, tal como ele estava contando a seus companheiros, na folga do almoço. Isso ocorreu muito antes da tragédia que se abateu sobre a cidade. Mas já não seria o prenúncio do que viria depois? Não sei, a natureza tem seus caprichos, é imprevisível.

“Quando tomei tento, tinha sumido dali”, o peão acrescentou, enquanto jogava no chão do botequim de beira-estrada um pouco de cachaça, dizendo que era pro santo. E foi tudo que vi e ouvi, pois já saía do bar onde fora comprar um copo d´água mineral. Tinha pressa de chegar até a casa de campo onde a família me esperava. Entrei no carro estacionado no acostamento e parti.

Esse cara, pensei enquanto dirigia, estava repetindo, como tantos outros, sem saber, o gesto irônico de Sócrates, o grande filósofo grego, ao fingir entornar uma porção de cicuta, que fora condenado a beber, dizendo ao carrasco e aos discípulos ali presentes, solidários e comovidos ao lado de seu mentor nos últimos instantes de sua vida, que seria uma reverência a algum deus — e não aos deuses do Olimpo cuja existência negava — para que o guiasse em sua peregrinação rumo ao desconhecido. Esse gesto simbólico, em seu despojamento e singeleza, tem mais de dois milênios e está descrito nos Diálogos de Platão, que foi seu discípulo e depois mestre de Aristóteles.

Friburgo sempre me pegou por duas coisas: a paisagem bem diversa da orla do mar em que vivo e gosto de viver e um certo sabor encontrável em seus pequenos achados, diminutas pepitas ocultas no ramerrão dos dias. Às vezes uma surpresa, como a coleção inteira das aventuras de Sherlock Holmes, em primeira edição, que arrematei, a preço vil, num velho bazar de variedades em Olaria, ou uma informação, em português castiço, prestada por um modesto quitandeiro sobre a incidência do sol à tarde em Mury: “o lado de cá é solarengo, o de lá é noruega”, disse-me ele. E era um nativo do lugar, tão brasileiro como eu.

Friburgo me pegava também pela linguagem por vezes tão surpreendente e peculiar.

Então, fiquei matutando: esse quitandeiro, modesto, de origem humilde, nunca deve ter folheado um clássico qualquer, mas como, perguntei-me, de onde saíra aquela frase perfeita, de um vernáculo irretocável, deslocada no tempo e no espaço? E a resposta me acudiu rápida e prontamente: da tradição. Sim, da velha e boa tradição oral. Pois é.

As cidades montanhesas, creio, são assim: ainda reservam raras riquezas somente acessíveis às mentes e aos corações.

Quanto ao ato corriqueiro de saudar o santo nos botecos da vida, sua perpetuação no tempo em fora é algo que dá o que pensar. E, diga-se, não é somente um costume local; tanto quanto eu saiba, é comum aos bebedores da quase totalidade dos botequins e biroscas de nossa terra. Seria culpa do inconsciente coletivo de Karl Jung, responsável também pelo cisma que o distanciou de Sigmund Freud? Ou quem sabe da memória atávica, da psicogenética... sei lá. De qualquer sorte, resta um vasto campo aberto a inumeráveis lucubrações de ordem metafísica, transcendental, esotérica, extrassensorial e outras teorizações que tais. Há vertentes para todos os gostos. Façam suas opções. Mas, na verdade, sinto dizê-lo, não é nada disso. Trata-se simplesmente de uma tradição, a boa e velha tradição consistente na passagem da memória dos acontecimentos fastos e nefastos de uma para outra geração. Este o exato significado da palavra tradição: entrega, passagem de alguma coisa de alguém para outrem. Infelizmente, costumes como esses, que forjaram o caráter dos povos e das nações, estão caindo em desuso, cedendo lugar ao advento de uma nova era. Sinal dos tempos que avançam irreversivelmente.

Lembro que, criança ainda, quando de minha primeira viagem a Friburgo, pelos fins dos anos 40, foi como se vivesse um sonho acordado. As cenas de outrora agora me acorrem, vívidas, em slow motion, quadro a quadro, como num fotograma de que sou eu mesmo o roteirista.

Estou abismado, na estação da Leopoldina Railway, no centro de Niterói (ou Nictheroy, como se escrevia antigamente), diante daquele monstro negro de ferro resfolegante, que despedia faíscas e grossos rolos de fumaça para todos os lados, no esforço esclerótico das caldeiras, pronto para partir, tracionando uma fileira incontável de vagões. Chamavam carinhosamente aquele colosso ameaçador de Maria Fumaça, mas para mim talvez fosse preferível chamá-lo de Moura Torta, que eu não sabia bem como era, mas assombrava, às vezes, minhas noites com terríveis pesadelos.

Meu pai, munido de guarda-pó, para proteger-se da fuligem que invadia o trem, mal saíamos da estação, abria o Correio da Manhã para ler as notícias do avanço das tropas aliadas, retomando as cidades europeias que a máquina de guerra nazista ia abandonando em fuga. Já nossa mãe se azafamava em retirar da bagagem os agasalhos que iríamos vestir na subida da serra envolta em brumas, porque a temperatura despencava vários graus à medida que a locomotiva galgava as grimpas, bufando, arfando e apitando como um dragão ensandecido.

Quando a curiosidade do menino vencia a batalha contra o medo, era possível vislumbrar, em meio à névoa, pelo retângulo da janela do vagão em movimento, a beleza rara da paisagem serrana em sua versão altaneira, matizada pelo pincel e as tintas do clima frio e do ar balsâmico dos eucaliptos, o verdor exuberante das ramagens, o multicor buliçoso dos matizes da flora silvestre, nascida ao deus-dará, a folhagem prateada de árvores que se alteavam sobre as demais, as frondes das araucárias abertas em leque, o delicado esparrame de flores das quaresmeiras, a algazarra das cores berrantes dos ipês tão perdulários de beleza, a gratuidade da natureza em estado de plenitude e, quase, de pureza.

Mas nem tudo eram flores e cores. Havia também aquele zumbido chato nos ouvidos, uma surdez repentina provocada pela altitude, que os mais precavidos procuravam amenizar mascando chicletes, como antídoto contra a descompressão. Vencida a serra, o trem parava na estação de Cachoeiras de Macacu, onde ainda hoje ecoa, no labirinto de meus ouvidos, a mistura de vozes dos garotos apregoando suas mercadorias: pastéis, morangos, caquis, frutas-de-conde, curau, pamonhas, sucos. Eu e meu irmão menor a tudo assistíamos de dentro do vagão, com água na boca, pois era um risco ingerir algo de que não se soubesse a procedência. Portanto, nem valia arriscar um pedido aos nossos pais. Fôramos educados à maneira dos severos usos e costumes oitocentistas, pois nosso pai nascera antes mesmo da Lei Áurea e educou-nos na rígida disciplina do século XIX.

Dessa primeira ida a Friburgo restaram uns poucos fragmentos de recordação, que, anos após, com a ajuda de meus irmãos mais velhos, pude, em parte, recuperar. Mas são detalhes de somenos, valem somente para uso interno.

Retornei muitas e muitas vezes, de lambreta e de carro, a Friburgo. Alcancei ainda os tempos do Hotel Glória, os carnavais antigos do Clube Xadrez, a Confeitaria Danúbio Azul, que era um ponto obrigatório da juventude dos Anos Dourados. Que tempos aqueles! Pelo retrovisor da memória, cada vez mais distante, são como imagens fragmentárias de um caleidoscópio quebrado...

Lembro da chuva das cinco, sempre pontual, cujos primeiros pingos, em algumas férias de verão passadas ali, em minha infância, eu recolhia na concha das mãos, para beber direto das fontes do céu a água benta (assim pensava em minhas fantasias de criança); lembro do fog que baixava sobre a cidade ao entardecer, encenando uma atmosfera gótica que evocava as estórias de mistério e assombro ao estilo de Jack, o estripador, e do Cão dos Baskerville.

A regência do tempo obedecia a outro compasso e a vida montanhesa guardava os ares de um pacato burgo alpestre.

Mas são lembranças antigas, de que não ficou comigo sequer um retrato. Melhor assim, pois o filtro da memória, em sua benfazeja generosidade, somente libera as evocações de que os peregrinos de outras épocas carecem como um nutriente necessário à preservação do que restou da autoestima a caminho da desintegração — e não da ilusão barata da eternidade falsa dos retratos.

A Friburgo de hoje, como, de resto, parece que tudo, nesse mundo velho sem porteira, sofre os efeitos do esmeril de Chronos, Senhor do Tempo, e de nós mesmos, coadjutores do processo erosivo de destruição do planeta.

Apesar de todos os pesares, se rastreados bem, Friburgo ainda guarda em seus refolhos alguns achados que os raros, tenho certeza, inconscientemente, sabem onde estão e, os que não sabem, com certa dose de engenho, mente e coração, ah, esses, seguramente, também, quando menos esperarem, encontrarão.

Mas a história não termina aí, a vida continua, e aquele rio-tempo ou tempo-rio a que se referia Heráclito de Éfeso continua a correr, irrefreável, reinventando-se, sempre e novamente. A Vida em si é uma obra em comum perpetuamente em aberto, na qual cada um deixa o seu contributo, na breve viagem de navegante nas águas vertiginosas do tempo que lhe couber.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
3/1/2017 às 18h48

 
MARINHA

3

... e pois seguimos nós no mar brumoso

galgando ora montanhas liquefeitas

ou descaindo em socavões profundos

nesta casca de noz

escaler de papel

de velhas folhas de um jornal extinto

de um incerto dia onde se liam

em tipos garrafais

letras que agora não se leem mais.

5

porque a água em vagas salitradas

solapa letras sílabas palavras

a água lava apaga

mesmo a memória dos mais nefandos fastos

mas deixa um rasto enlutado

de borrão sépia

tinta de polvo

inventando ao acaso outro alfabeto.

6

esse mar de palavras revoltoso

é um mar de marés imprevisíveis

a que presidem lunações perversas

é um mar de profundas reticências

que volta e meia

circunflexo relampeja

e agudamente craseia.

9

essas palavras de mar viram oceano

são palavras demais

e aderem ao casco das naus

às quais retiram o sentimento das águas

o que é um risco

pois uma quilha sem corte

não enxerga

os perigos das sintaxes nas pedras

nem percebe

o cântico enganoso das semânticas.

13

semiótico enxergo claro o tempo

das palavras concretas em bom porto.

há de chegar o tempo, marinheiro,

de fundear o barco bonançoso.

“há de chegar o tempo

o tempo o tempo”...

repete a gaivota em pleno voo.

15

D. Giovanni:

“a esta hora os mortos retornam

à sua tumba de bravos marujos”.

era um crepúsculo

de brônzeos reflexos

um amarelo-magma

um ocre ígneo.

“não são de Deus esses marujos mortos

sem sepultura cristã”.

não são de Deus talvez

mas são de Posseidon.

... e esses peixes que devoram os olhos

dos náufragos são de Deus talvez?

ou essas aves que nada fazem

e mereceram citação supina?

D. Giovanni não responde, cala.

assim é ele: um velho marinheiro italiano

afeito às calmarias às bonanças

ao fogo de Santelmo e às borrascas.

18

um marinista melhor que um marinheiro

deve aos que chegam deixar esse registro

do cemitério naval onde carcaças jazem

as ossaturas de ferro velho expostas

à ferrugem do sal e à maresia.

num outro quadro a este justaposto

com essas mesmas tintas

misturadas de modo diferente

pinte-as de novo o marinista anônimo

para mostrar a todos que como Flebas

um dia essas carcaças foram belas.

21

...e no entanto esse mar emoldurado

pelas janelas francesas da varanda

é um mar sem magia, não espanta.

não é o mar de Homero

ou dos fenícios

é um mar sem história nem prestígios.

é um pedaço de mar

um mar urbano

exposto ao olhar profano dessas gentes

que desconhecem trirremes e tridentes

e só por isso não temem sua fúria

quando os tritões assopram as grossas nuvens

desatando os nós dos ventos e das chuvas.

Ayrton Pereira da Silva

(in Umbrais, Sette Letras, 1997)



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
25/9/2016 às 15h52

 
ROMANÇA

Ana partiu tão cedo.

Ana tão cedo partiu.

Ela que tanto doou,

outro tanto mais levou.

Saiu sem me dar adeus,

porta afora de repente.

Fiquei sozinho e ausente.

Hoje à procura de mim,

nem sei quem sou ou não sou.

Ana ao partir me levou.

E assim fiquei duplamente

órfão de Ana e de mim,

de um modo súbito, frio.

Sobrevivo no hiato

de um tempo morto, apagado.

Ana me deletou.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
12/9/2016 às 18h16

 
A ABSTRATA MARGEM

Sinto o mar lamber meus pés, acariciando-me com sua língua aveludada. Sua lâmina imóvel reflete a cor do céu e fico achando que dessa associação deve ter nascido a expressão espelho d’água. É uma dessas manhãs de aquarela, irretocáveis. A certa distância, à esquerda, duas canoas de pesca dormitam ao sol, parecendo não se incomodar com as gaivotas pousadas e imóveis sobre elas.

Deixo a praia com a sensação de que o mar está completo e desembarco no meu quarto sem ter molhado meus pés, nem ter dado um passo sequer. É um aposento austero com área suficiente para as divagações de um velho octogenário, guarnecido pelo mobiliário que se resume a uma escrivaninha pequena, dessas com tampo corrediço, uma cama de solteiro e uma cadeira de braços para visitas que jamais chegaram. Um exíguo banheiro com chuveiro e vaso sanitário estabelece os limites de meu território privado, no qual se entra obviamente por uma porta entreaberta por onde diariamente passa Joana, uma espécie de anjo de avental, sempre com um sorriso atarraxado nos lábios e uma bandeja com minhas frugais refeições. Quando estou de bom humor, chego a pensar que sorri para mim, mas a impressão mais comum que tenho é de que sorri de mim...

Somos as únicas presenças de vida nesta casa, na verdade um cubículo.

Valquíria vem visitar-me, de quando em quando, à noitinha, mas ela não precisa passar pela porta nem saltar a janela. Chega em silêncio, senta-se na borda cama e parece segurar minha mão. Sempre foi uma mulher de poucas palavras e agora menos ainda, mas seus olhos interrogadores pedem que lhe diga como vou indo. Tenho muitas saudades, Val, de você e de mim mesmo. Até hoje não sei por que você partiu assim de súbito, assumindo uma postura de estátua. Seus olhos então me respondem de um modo um tanto oblíquo, reticencioso, sei lá, parecendo dar a entender que havia outros caminhos a seguir até chegar à abstrata margem, e não me dá maiores explicações.

Ontem fiz um poema para você, e ela me diz com os olhos que quer ouvi-lo, mas a audição é interrompida antes mesmo de começar, pois Joana chega com o meu jantar. Bom apetite, ela me diz gentilmente, como se fosse possível degustar uma tisana daquelas. Se ela tivesse um miligrama de massa cinzenta eu seria capaz de pensar mal dela, mas, não, seria impossível, dali só saíam mesmo gestos mecânicos: Joana definitivamente não se definira entre ter nascido uma pessoa ou um robô. Alguma coisa falhara na sua estrutura genética, a mãe natureza dera um cochilo ao projetá-la.

Sabedora de minha contumaz inapetência, Valquíria, com sua mão de vento, me ajuda a segurar a colher que a contragosto levo à boca, incentivando-me a tomar aquele líquido gosmento, de um verde catarroso. Olhe, Val, sei muito bem que, à medida que o círculo da vida se vai fechando, os extremos se aproximam, mas ainda não cheguei à segunda infância. Mas você precisa se alimentar para chegar à longínqua margem, dizem seus olhos.

O tempo me embruteceu, vivi dias maravilhosos e dias horrorosos, estes em maior número; ou você pensa que minha vida se resume nessa praia elegíaca que sempre emoldurou minhas melhores recordações e que até hoje frequento com os passos da imaginação?

Sou um homem sem raízes, embora paradoxalmente arraigado a esta cela franciscana. Ando com dificuldade e quando a artrite generalizada me permite mover-me dentro do meu quarto, ensaio penosamente uns poucos passos com a ajuda desse par de muletas postado à minha cabeceira como duas sentinelas de prontidão. Sabe, já não escrevo mais. Até aquele poema interrompido não foi escrito por mim, (devo confessar-lhe), e ficou bem melhor que ficasse assim pelo meio, como um aborto de filho indesejado.

Você nunca me descreveu essa abstrata margem e nada posso fazer quando seus olhos se calam.

São assim os meus diálogos com Valquíria.

O fim da estrada muitas vezes é assim mesmo. A nossa história pessoal morre conosco e em alguns casos até antes, quando o denso nevoeiro apaga a memória. Não sei afinal de contas o que vem a ser a tal de abstrata margem e nem ousei perguntar a Joana cujo sorriso alvar denuncia um cérebro de formiga. Certa feita, indaguei de um pescador se ele conhecia a abstrata margem, mas ele laconicamente respondeu que era um homem do mar e não de água doce...

Há manhãs em que com muito esforço vou até a praia pendente de um quadro na parede de meu quarto, mas até isso me cansa enormemente. Então começo a divagar, engolfado em meus pensamentos que me atordoam, sentindo-me à deriva, como um náufrago em seco sem esperança de salvação.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
27/8/2016 às 15h22

 
ENIGMA

Donde virá?

Sabe ninguém.

Vem do silêncio?

Do oco das palavras?

Do amor, do ódio,

(irmãos germanos

de sangue e coração)?

Da imaginação,

essa louca da casa?

Donde virá?

E o que será?

Será ou não?

Eu vos direi:

nem sim nem não!

É isso que me provoca:

algo que a si mesmo se interroga.

Mas para os outros será um sim ou não

— e uma interna interrogação.

Ayrton Pereira da Silva

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Postado por Ayrton Pereira da Silva
9/8/2016 às 20h10

 
UM NOME E TANTO...

Em seus últimos momentos, Juan de la Concepción Joaquin Esteban Fradique de Urtiaga carregava o peso de um enorme desgosto pela vida fracassada, agravado pelo tamanho sem fim de um nome de batismo pomposo que servira de mote inesgotável de piadas maldosas por parte dos conhecidos.

Consta da tradição oral que suas derradeiras palavras foram: “caralho, a porra desse nome não caberia nem na lápide que não vou ter.”

De fato, foi com um sentimento de alívio que se livraram do defunto, encontrado no pântano, já em adiantado estado de decomposição, mas surpreendentemente intacto, sem ter sido abocanhado sequer pelos crocodilos que infestavam aquelas águas pútridas nos confins da aldeota, com apetite insaciável.

Como ninguém reclamou o corpo e não houve vivalma disposta a velar o morto ou acompanhá-lo ao domicílio final, até porque o fedor que exalava era insuportável, foi enterrado num caixote improvisado de madeira de entulho que lhe arranjaram às pressas, pelo temor de que, se fosse para a cova rasa embrulhado num lençol velho, resolvesse voltar para assombrar os viventes.

A verdade, porém, é que Juan de Urtiaga, depois de morto, angariou um prestígio que jamais tivera em vida, sendo invocado, de início, nos terreiros e congás, como uma entidade de temíveis poderes, que levaram à loucura alguns médiuns desavisados que ousaram incorporá-lo e acabaram se atirando de um penhasco para o abismo sem fundo que delimitava um dos extremos do povoado, numa espécie de reprise do episódio bíblico da vara de porcos endemoninhados que, desatinados, se lançaram de um despenhadeiro para a morte.

De sorte que nas preces e exortações que lhe dirigiam com pedidos de luz para sua alma atormentada, seu nome de batismo deixou de ser declinado, passando a ser respeitosamente designado como o Guardião das Águas Paradas, de quem esperavam as benesses de seus misteriosos prodígios.

Nascera órfão de pai ignorado e mãe anônima que o depositara, como nos clichês dos folhetins antigos, na calada de uma noite tormentosa de inverno, defronte à porta da igrejinha do povoado de Urtiaga, um lugarejo sem registro no mapa, formado por um arruamento de modestas casas de porta e janela e pelo prédio maltratado da prefeitura que também abrigava, nos fundos, a dependência policial com sua única cela, onde os poucos bêbados do lugar curtiam sua ressaca. Esse vilarejo esquecido de Deus limitava-se de um lado pela escarpa pedregosa de vegetação rasteira e plantas venenosas e de outro por um pântano de fétidos miasmas deletérios.

O recém-nascido e futuro Juan de la Concepción Joaquin Esteban Fradique de Urtiaga foi recolhido de manhã pelo pároco da aldeia, de quem se dizia que fora, certa vez, visto com um halo de santidade pairando sobre sua cabeça, durante a procissão do dia da Ascensão do Senhor.

Quanto ao nome que recebera na pia batismal, as opiniões se dividiam entre aqueles que acreditavam tratar-se de um ato piedoso do padre ao atribuir ao enjeitado apelidos de família escolhidos entre aqueles com fumaças de nobreza, enquanto outros, com extrema malícia, achavam que a escolha do padre fora motivada por pura ironia.

Seguindo o destino dos enjeitados, Juan de Urtiaga fora coroinha em menino e sacristão quando trocara as calças curtas de zuarte pelas calças compridas de um tamanho maior, com fundilhos de coar café, arrepanhadas entre as sobras de um bazar de caridade.

─ Ô joão-ninguém do sino, já coou o café do vigário hoje? – motejavam os colegas do colégio público onde aprendera as primeiras letras.

Ele calava diante das piadas e dos insultos de mulher do padre, até que seus olhos, sem que ninguém reparasse, começaram a mudar de cor, adquirindo um aspecto estranho. Então, acontecimentos inusitados se desencadearam, quebrando a rotina movimentada do recreio quando o valentão da turma, depois de provocar Juan de Urtiaga até arrancar gargalhadas e gracejos do resto dos meninos, de repente cagou-se e mijou-se todo, como se tivesse visto algo aterrador em plena luz do dia, empestando o pátio do colégio com uma fedentina tal que tiveram de suspender as aulas por três dias para lavagem de todo o prédio com litros e mais litros de água sanitária e soda cáustica até que o cheiro de merda desaparecesse.

A partir daí, ninguém mais se atreveu a mexer com Juan de Urtiaga, que passou a ser evitado, principalmente pelo valentão da turma que mudava de calçada para não cruzar como ele. Juan até se alegrou com esse isolamento, pois jamais se sentira à vontade na presença dos outros. E já nem pensava mais no assunto, quando começaram os sonhos premonitórios.

E foi assim que acordou em sobressalto, quase caindo do catre em que dormia no quarto de guardados da casa paroquial, por causa da visão clara de onde morava a mãe biológica que jamais conhecera e cujo nome e sobrenome ressoaram em seus ouvidos como um eco de palavras gritadas na nave de uma imensa catedral vazia.

Madrugada ainda, pôs-se a caminho, mastigando um pedaço pão dormido como desjejum, pois o trajeto a percorrer seria longo até chegar ao lugar onde, num casebre de pau-a-pique, morava uma anciã de melenas brancas que lhe caíam até a bainha de uma bata imunda e rota, que fedia como dez gambás.

─ A senhora é Doña Violante de la Anunciación de Roncesvalles – afirmou Juan de Urtiaga mais que perguntou, ante a figura espectral que assomara à porta do casebre, mal refeito da surpresa de haver pronunciado de cor o nome e o sobrenome, até aquele dia completamente ignorados, de sua mãe desnaturada, como se ele fosse um boneco de ventríloquo manipulado por uma entidade invisível.

─ Some daqui, emissário do Belzebu! Quem te mandou? Aposto que foi aquele padre de meia pataca que teima em não arder no fogo inferno. Sabe o que ele anda espalhando por aí? Que sou uma feiticeira. Tudo por inveja das curas das minhas ervas. Parece que tem medo da concorrência, pois as rezas dele só fazem efeito depois que o cristão entrega o corpo à terra.

Sem arredar pé diante dos vitupérios da anciã e debaixo de uma chuva de perdigotos saídos de sua boca desdentada, Juan com uma voz surdinosa sussurrou para a megera:

─ Sou seu filho, mãe.

Nem ele mesmo acreditou nas palavras que escaparam de seus lábios, e teve então a certeza de que definitivamente estava sendo manejado por alguma força alheia à sua própria vontade. Para dramatizar ainda mais aquele instante de absoluta perplexidade e espanto, a mãe, sem dizer palavra, cingiu-o em seus braços esqueléticos.

Juan, passando a viver com sua mãe biológica até então desconhecida, abandonou o ofício de sacristão, e só lhe deram pela falta quando, às seis horas da tarde, o sino do campanário não tocou as badaladas da Ave-Maria, e dizem que desde então grassou um tempo de adversidades que levou à ruína o que restava do povoado.

Sua mãe iniciou-o na arte hermética dos herbanários ancestrais, ensinando-lhe os segredos das ervas curativas dos males do corpo e do espírito e os arcanos proibidos das plantas de amavios e dos filtros de bem-querer e malquerer.

Aos poucos, foi-se operando uma metamorfose quase imperceptível em Juan de Urtiaga cujos olhos passaram a irradiar uma coloração iridescente de rara serenidade e harmonia, enquanto sua mãe rejuvenescia a olhos vistos, adquirindo o porte adelgaçado de uma matrona de traços senhoriais que nada tinha a ver com a aparência tosca do filho que gerara, fruto da imaturidade da adolescência, que mais parecia um boneco talhado a machado sem corte pelas mãos brutais de um lenhador e era a lembrança viva da insensatez que arruinara sua vida. Certa noite, sem nenhum aviso, deixou em silêncio o barraco do pântano, libertando-se para sempre da presença do filho que pela segunda vez renegava.

Foi desse modo, com toda crueldade e bruteza, que o destino golpeou-o mais uma vez, e Juan de la Concepción Joaquin Esteban Fradique de Urtiaga internou-se no pântano, passando a conviver com répteis, serpentes, batráquios, lacraus e toda espécie de animais repulsivos e peçonhentos que constituíam a fauna do pântano e aos quais alimentava com as aves que alvejava com seus olhos mutantes, em pleno voo, até caírem fulminadas.

Seus olhos adquiriram para sempre uma coloração de magma incandescente toda vez que alguma coisa o desgostava. Conta-se que ao morrer, quando suas pálpebras se cerraram, uma primavera súbita fez rebentar em flores o carrascal de cipós, ramagens cortantes como fio navalha e plantas bravas do pântano inóspito e indomável, mas quando, por efeito de um espasmo da musculatura facial, os olhos do defunto reabriram, todas as flores murcharam e nunca mais voltaram a brotar.

Segundo o relato dos moradores mais velhos do povoado, depois da morte de Juan de Urtiaga, insólitos acontecimentos subverteram a rotina do lugar, como a desorientação dos galos que passaram a cantar fora de hora e o delírio dos cães que uivavam nas noites de lua cheia até o raiar do dia, além do absoluto desgoverno das estações do ano, que não ocorriam na época devida, levando à ruína os agricultores que já não sabiam mais quando era chegado o tempo de semear nem o tempo de colher. Ninguém mais teve sossego diante dos desarranjos da natureza, como os aguaceiros torrenciais que, sem aviso, desabavam de um céu inteiramente azul ou das ondas sucessivas de calor seguidas de intenso frio, que ora tocavam as pessoas para a sombra das árvores e dos lugares frescos, ora as faziam tirar do fundo das gavetas velhos cobertores e grossos agasalhos com cheiro de naftalina. Esses descalabros acabaram por infundir o terror entre os nativos e quem podia mudou-se para outros pagos, fugindo da maldição que assombrou o lugarejo. Só permaneceram mesmo, por não terem para onde ir, uns poucos idosos, que assumiram o compromisso de dar testemunho do que ali ocorrera, dentre estes o pároco da igrejinha, que tinha se esquecido de morrer e, pelos registros do batistério, já estava próximo de completar cento e cinquenta anos de idade.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Ayrton Pereira da Silva
4/7/2016 às 17h14

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