Blog de Fabiano Leal

busca | avançada
31762 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Artista plástica Ana Maria Tavares estará no Programa Arte-Papo da Fundação Ema Klabin
>>> Escritora Isa Colli faz lançamento oficial no Brasil de seu livro na Bienal do Livro Rio de Janeiro
>>> Shopping Metrô Tucuruvi traz literatura com muita diversão em Feira do Livro
>>> Seminário reflete sobre Arquivos e Direitos Humanos com documentos da Comissão Teotônio Vilela
>>> Evento gratuito discute as transformações do jornalismo
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
>>> Da varanda, este mundo
>>> Estevão Azevedo e os homens em seus limites
>>> Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá?
>>> A fotografia é um produto ou um serviço?
>>> A noite iluminada da literatura de Pedro Maciel
>>> Apontamentos de inverno
>>> Literatura, quatro de julho e pertencimento
>>> O Abismo e a Riqueza da Coadjuvância
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 4. Museu Paleológico
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> The game of Prones
>>> Pétalas neon
>>> À Lígia
>>> Um biombo oscila entre o côncavo e o convexo
>>> Síndrome da desesperança
>>> Simbiose
>>> Grafologia
>>> Premiadas
>>> Plagas e pragas
>>> Elas por elas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O Enriquecer é Glorioso!
>>> A maçã de Isaac Newton
>>> Televisão versus Internet: a disputa desnecessária
>>> O Frankenstein de Mary Shelley
>>> O engano do homem que matou Lennon
>>> Exibir sem mostrar
>>> It's my shout
>>> É batata!
>>> Solaris, o romance do pesadelo da ciência
>>> Eu blogo, tu blogas?
Mais Recentes
>>> Pop-up Game Of Thrones
>>> Um plano de saúde que Deus garante - Dr. Fernando M.F. de Oliveira
>>> Mais que um Carpinteiro - Josh McDowell
>>> O livro da selva 2ª ed.
>>> Criação, Graça, Salvação
>>> As Novas Antropologias. Um desafio à Teologia
>>> Teologia da Criação
>>> As Parábolas de Jesus
>>> O Pai-Nosso. A Oração do Senhor
>>> O Sermão da Montanha
>>> Convite à Filosofia
>>> O Advogado
>>> As Escravas do Diabo
>>> Trilogia Coleção Rubaiyat - O Livro de Job, O Livro da Sabedoria, Eclesiastes
>>> Ardente Reencontro
>>> Segredos Perigosos
>>> Voltando Para Você
>>> Prometida Para o Príncipe
>>> Oásis do Coração
>>> Diga Sim Ao Amor
>>> Procura-se Uma Babá e Uma Chance Para Amar
>>> Cenário de Sedução
>>> A Outra Face
>>> A Outra Face
>>> Os Frutos Selvagem da Sibéria
>>> A Filha do Deputado
>>> Os Frutos Dourados do Sol
>>> Safra Vermelha
>>> O Martírio do Obeso
>>> O Mistério Frontenac
>>> O Senhor das Moscas
>>> O Lado Escuro dos Ceús
>>> Um Rei na Manga
>>> Filhas de Outros Homens
>>> Na Asa da Borboleta
>>> Sereníssima
>>> Médicos em Perigo
>>> Plexus- A Crucificação Encarnada
>>> A Volta do Tarzan
>>> Em Aquário Ninguém se Esconde
>>> Trilogia: Peça-me o que Quiser, Peça-me O Que Quiser Agora e Sempre e Peça-me O Que Quiser Ou Deixe-Me
>>> Perdida
>>> Cerrrado em Perspectiva(s)
>>> Como Sobreviver A Perda de Um Amor
>>> Você é mais Capaz do Que Pensa
>>> Para o Dia Nascer Feliz
>>> Alegria e Triunfo
>>> A Cabala e a Arte de Ser Feliz
>>> A Arte de Separar-se
>>> A Droga da Obediência
BLOGS

Sábado, 16/4/2016
Blog de Fabiano Leal
Fabiano Leal

 
Por Que Impeachment?

Porque o impeachment não é um golpe como alardeia o governo, mas um antídoto constitucional, decerto extremo, só aplicado aos que insistem em tolher a ordem vigente em nome de interesses particularistas. Para o governo, o impeachment era um recurso destinado a outrem, e não a si próprio. A razão para isso está no fato de o partido se conceber como a verdadeira encarnação da vontade do povo. Sob tal pretensão, repousa a idéia de democracia popular, ou seja, de que ao governo bastaria o apoio dos que lhe concederam o voto. Porém, esta é uma condição necessária, não suficiente; pois nas modernas democracias governa-se para todos e não para um grupo seleto, o que pressupõe uma boa dose de observância às regras do estado de direito. Daí as democracias populares serem uma miragem do ideal democrático que, invariavelmente, se degeneram sob o ímpeto voluntarista da liderança popular. Por isso, vale recordar a sagaz lição de J. G. Merquior, em A "Natureza do Processo" (1983), de que a verdadeira democracia é a liberal, pois só nesta reside à oportunidade de se vivenciar o poder como autoridade, jamais como força ou violência.

Impeachment, porque, além de ser um instrumento legal, o crime de responsabilidade que lhe dá vida, se faz presente. As ditas “pedaladas fiscais”, em que pese o nome simpático, são a marca de um retrocesso. Pois, nelas se esconde o desejo de voltarmos a um estado de desmazelo a respeito das contas públicas, com a finalidade de satisfazer o saudosismo por um nacional-desenvolvimentismo. Trata-se da velha estória de que, para vencermos o subdesenvolvimento, um pouco de inflação não faz mal a ninguém; decorrendo assim a expansão dos gastos públicos, a generosa, mas nem sempre realista desoneração de impostos, o aumento de salários acima das taxas de produtividade e, "last but not least", o controle de preços.

O resultado é que só uns poucos se beneficiam dessa trágica conduta emanada do filantropismo populista, cabendo aos demais pagar a conta, via inflação e/ou aumento de impostos. Eis aí, diria Roberto Campos, a receita para se empobrecer mais rápido. Nisso, reside a mais notável ignorância acerca da interdependência das variáveis, um dos fatores decisivos de nossa complexa vida contemporânea, cuja lição é que não se pode agir arbitrariamente sobre uma variável sem que as demais sejam afetadas. Assim, temos adiado o inadiável, isto é, o encontro com as boas maneiras da lógica, que nos ensina que o desenvolvimento econômico se faz com robustos sacrifícios de poupança, constante aprimoramento do capital humano e uma indefectível dose de bom senso.

Por isso que dissemos sim ao impeachment. Não se tem, somente, o crime de responsabilidade. Mas todo um conjunto de circunstâncias que nos leva à outra metade da acusação, os chamados aspectos políticos. Pois, como tem sido averiguado na recente história dos países que dão lume ao que Samuel Huntington chamou de "third wave democratic", presidentes se tornam vulneráveis a processos de impeachment a partir da convergência de três fatores principais: escândalos de corrupção, envolvendo o núcleo central do poder; perda da maioria da câmara; recessão econômica, do tipo em que a causa está nas decisões tomadas pelo governo, e não em eventos exógenos, além dos protestos massivos que eclodiram em 2013. Dificilmente um presidente verá seu mandato ameaçado por um ou outro fator. Porém, o governo Dilma Rousseff, devido à vasta capacidade de prodigalizar erros, conseguiu dar ensejo aquilo que muitos analistas chamam de "a tempestade perfeita".

Consequentemente, a corrupção não é apenas mais um escândalo, mas uma atividade sistêmica. Como se das urnas se tivesse lavrado o monopólio de uso da corrupção, canhestramente justificado pelos petistas como um instrumento legítimo de dominação. A Providência, segundo a metafísica social petista, teria lhes conferido um papel especial no que tange à corrupção, permitindo-lhe usá-la contra aqueles que tradicionalmente a tinham como um prêmio por vencer o embate eleitoral. O saldo dessa utopia às avessas foi o agravamento de vários aspectos do sistema político, que o faz voltar-se para si mesmo, como se pode corroborar com o exponencial crescimento no número de partidos.

Já a recessão, que desponta como a mais severa desde a última, nos distantes anos 30, teve como antecipamos acima, as digitais do governo. Adicionalmente, refletem um estatismo vulgar de antes da queda do muro de Berlim, amplamente desacreditado pela fartura de evidências contrárias em razão da importância, ainda não completamente entendida por certas seitas políticas, da natureza complementar entre democracia e mercado. Nesse sentido, deveríamos está debatendo como ajustar o tamanho do estado ao do PIB, sabendo que não há estado para todos, tal como vislumbrado pelo modelo cesáreo-papista-populista ainda em voga.

E a perda da maioria no parlamento? Esta se deu, ao menos, por três razões. Primeiro porque a maioria era artificial, ou seja, a aglutinação se devia menos às ideias políticas e mais ao fisiologismo reinante. Segundo, o projeto político petista é muito recalcitrante em não compartilhar os despojos. Assim, lideranças partidárias que se atribuíam alguma importância foram relegadas a papéis secundários junto às esferas de decisão, incluído aí o vice-presidente. Terceiro: em algum momento, o governo nutriu a vil ambição de reduzir o poder de aliados importantes como o PMDB. Um erro que deflagrou uma corrida armamentista tácita nos bastidores, pois na política, assim como no mundo natural, impera o espectro da Rainha Vermelha, em que todos precisam correr continuamente para permanecer nos mesmos lugares. Destarte, ante a menor suspeição monopolista, o que fora uma vasta maioria se transforma numa oposição renhida.

Por último, temos as manifestações, cujo choque fora acachapante para o governo, visto que nasceram de forma espontânea e emergente, isto é, fora dos círculos políticos tradicionais. Na raiz dos protestos, está uma profunda insatisfação não só com o projeto petista, mas também com o sistema político como um todo, devido à sua incapacidade de responder satisfatoriamente aos anseios da população. Finalmente, a sabedoria das multidões tinha emergido; e ao emergir, se deparou com um limite bem claro: o sistema é frágil não só porque é inábil em não suprir aquilo que promete, mas, sobretudo, por permitir que determinados grupos políticos acalentem pretensões autocráticas.

No âmago lulopetista, existe uma séria propensão que faz com que o partido se veja como o portador da verdade final. Nas origens dessa maneira de ver, está a junção de marxismo e populismo. Cada qual oferecendo o que o outro não tem, a saber, a liderança carismática de cá e o conteúdo revolucionário de lá. Sendo que ambas estão definitivamente irmanadas quanto ao alto pendor messiânico, ao ponto do filósofo francês Raymond Aron denominá-las de "religiões seculares". Da crença populista, resultam governos que debilitam propositalmente as instituições de modo, que estas se transformem em apêndices da vontade da liderança carismática e do partido-estado. Opiniões contrárias não são permitidas, quando não são encaradas como inimigas da causa. Uma rápida vista de olhos no panorama de nossa Latino-América nos dá uma ideia dos resultados catastróficos. A única tendência real no populismo é o ímpeto rumo a maiores apelos irracionais.

É por isso que, tal como muitas Molly Bloom , dizemos sim ao Impeachment, porque o governo que ora desvanece só tem uma vocação, a do poder perpétuo, que gira em torno de um único pensamento: a busca irrefreável da sacralização de todas as coisas, detendo-se nas mais altas pretensões e esquecendo-se do essencial profano de nossas vidas que não pode ser redimido porque, como nos lembra a célebre frase de Immanuel Kant, tão ao gosto de outro iminente liberal, Sir Isaiah Berlin,"do madeiro tão torto de que é feito o homem, nada perfeitamente retilíneo pode ser talhado".

[Comente este Post]

Postado por Fabiano Leal
16/4/2016 às 20h34

 
A Incômoda Normalidade Democrática

A quem a democracia tanto incomoda?

A pergunta é legítima diante das declarações do ministro da Comunicação Social Edinho Silva, quando disse que os protestos ocorreram dentro da normalidade democrática. Na entrevista coletiva, conclamou os brasileiros a acreditarem no Brasil e disse que o momento é de diálogo. Mas, com a sutileza paquidérmica que caracteriza os petistas, frisou também que as manifestações tinham uma agenda que pedia o "fim da democracia". Em nota, o PT seguiu a mesma toada, apontando para os propósitos conservadores e antidemocráticos e, no final, incita à militância a defender o governo.

Ora, em que pese à participação de conservadores, as manifestações reuniram grupos dos mais diferentes matizes políticos. E, diante de um espectro tão amplo, e mutável a cada protesto, se mostra pouco útil aplicar um rótulo, tal como nossa cultura política oficial tanto gosta de fazer. Assim, não conviria chamar pautas que clamam pelo combate à corrupção, à observância as regras do orçamento, reforma política e a defesa dos valores da ética e da liberdade, como exemplos de um pendor antidemocrático. Mesmo o impeachment é uma reivindicação legítima. Pois, este não figura na Constituição? Se a população está ou não a par dos meandros do processo legal, aí já são outros quinhentos. O que não dá para dizer é que se trata de um genuíno furor golpista com tem sido freqüentemente alegado.

Já ao pedir diálogo, o ministro apontou para o momento de intolerância em que vivemos. Só que mirou um só lado, como deixou implícito na coletiva, como se aqueles que saíram à rua neste último domingo, encarnassem o emblema derradeiro da intolerância. Afinal, a intolerância é uma doença típica do universo petista; sempre refratário que é às críticas, mesmo se essas se fazem acompanhar de sólidas evidências. Uma intolerância que não vem de agora. Trata-se de algo que há muito faz parte do DNA de um partido que sofre da febre de "nostalgia soviética" em que o efeito mais visível consiste em dividi o mundo de forma maniqueísta. Como se só a eles fosse dado o privilégio de conhecer o lado certo da história. Desse modo, nada mais parecido com alguém que pede a volta da ditadura, do que um petista, pois ambos insistem, teimosamente, em acreditar em soluções que não se aplicam mais ao nosso tempo.

O governo, disse também o ministro, vai trabalhar para superar as dificuldades que levaram às manifestações. A questão é que, para os que protestaram, o governo é parte do problema e não a solução. E é a parte principal. As pessoas já sabem o óbvio: que as dificuldades não são de ordem puramente econômica. Ao contrário, que por trás da crise da economia, estão ilusões ideológicas de um projeto monopolista de poder, tanto político quanto econômico, conjugadas a uma grave crise de representação em que o sistema político já não responde aos desafios da sociedade. E, para o qual, o PT contribuiu fortemente para enfraquecer ao presumir que manteria a base aliada cativa aos seus anseios se lhes fornecessem uma ração mensal de propina, na vil esperança de cessar, definitivamente, a natureza competitiva intrínseca ao mundo político.

A crise, portanto, é política. E, dificilmente, será superada pelo otimismo irreal que o governo atribui a uma possível melhora nos indicadores econômicos. Isto, quando muito, facilitaria a reconquista de alguma popularidade, mas longe do que se viu no passado, tendo que conviver com um país, cujo conflito político se fará mais presente no cotidiano.

O fato é que a população associa, corretamente, corrupção ao governo e que esta se tornou indissociável da imagem da presidente e do Lula. Simplesmente, porque não é possível esconder que o "sistema PT", com bem designou a escritora Rosiska Darcy de Oliveira em sua última coluna no Globo (15/08/2015), foi de uma organicidade modelar, ao ponto que as digitais do planalto se tornarão indisfarçáveis.

Nesse ínterim, cabe afirmar que os brasileiros continuam acreditando no Brasil. Só não acreditam mais é no governo.

Em meio à convulsão governista, o mais grave é o planalto insistir em noções de democracia e legitimidade que satisfaz o gosto do partido e das tradicionais platéias circenses, mas que estão em profunda dissonância com o que diz a regra da lei. Isto é, a legitimidade do voto não é um cheque em branco para flertar livremente com a irresponsabilidade à revelia das instituições formais e as da sociedade civil. Nesse sentido, o significado da democracia nem é relativístico ou, como pensam muitos, propriedade de um único partido.

O que se esconde sob um pacato dia de céu azul?

Manifestações que passam ao largo da normalidade. E que deveras aborrece a retórica dos que estão assentes no poder. Manifestações que não podem ser subestimadas, já que são exemplos não de menos, mas da luta por mais democracia que ressurge, justamente, nas ruas e com o qual o PT, em especial, e os demais partidos têm muito a aprender.

Logo, os que propalam que isto ou aquilo é antidemocrático, conservador, intolerante ou pró-ditadura, estão na verdade dizendo, nesse caso, mais a respeito de si mesmos, como faz a presidente e o PT, dos que dos seus críticos.

[Comente este Post]

Postado por Fabiano Leal
20/8/2015 às 18h08

 
Festim Macunaímico

O clamor provocado pelos crimes cometidos por armas brancas é legítimo. Mas isso, por si só, não é suficiente para se conceber boas leis. Assim, esperava-se dos membros da Câmara e do Senado, minimamente, coerência e parcimônia, ao invés do deplorável fervor futebolístico com que o tema tem sido abordado, como se a excessiva falta de lucidez não lhes fosse suficiente.

O projeto exumado pelo Congresso, cuja proposta revista prevê três anos de reclusão para quem portar objetos cortantes, é de uma ilusão estarrecedora. Dificilmente os meliantes renunciarão voluntariamente ao crime devido à simples aprovação de uma lei. E uma vez aprovada, não estaríamos livres de um cipoal de regras, impondo obstáculos kafkanianos ao uso dos mais simples objetos do dia a dia. Sem consideramos os prejuízos a que empresas e indústrias estariam sujeitas pela sanha regulatória que, cedo ou tarde, resulta em maiores despesas e ineficiências. Tudo isso sem que o indivíduo esteja realmente protegido até porque, criativo como o crime é, não demoraria a substituir facas por outros artefatos. Diante disso, só nos restaria o consolo de não só criminalizar tais objetos, mas também decretar que todos são suspeitos até que se prove o contrário.

A origem dessa fantasia reside em dois aspectos principais. Primeiro, em uma tradição estatutária e codiciliar, típica da ordem jurídica brasileira, que acredita no imperativo da doutrina sobre aquilo que é o comportamento ideal do indivíduo, ao invés de se pautar na cultura anglo-saxã, onde a lei é o resultado da observação dos fatos e costumes. O segundo é como essa tradição foi reforçada pela praga do politicamente correto, que atribui à lei o papel de redimir todas as injustiças históricas, superprotegendo o indivíduo na ilusão de assegurar uma sociedade isenta de riscos e preconceitos. A meu ver, ambos os aspectos estão impregnados daquilo que Hayek chamou de "construtivismo", a tentativa de moldar a realidade a partir de um projeto teórico da sociedade. Uma vez que isso acontece, não há limites sobre o que se pode propor, levando os governos ao encontro do que Miguel Reale chamou de "totalitarismo normativo", que nada mais é, dizia Hayek, que "deixar a jarra de leite sob os cuidados do gato".

A questão, portanto, não está na escassez de leis, mas no excesso - resultado da falta de cumprimento das leis existentes. Sendo isso o reflexo de uma sociedade desigual, lastreada por uma cultura patrimonialista, cujo status quo só sobrevive se a impunidade for garantida. Afinal, como sabiamente distinguiu Tácito, "muitas são as leis num país corruptíssimo". Previsivelmente, essa sobreposição acaba por perpetuar privilégios de grupos de interesse, além de, em grande medida, ser responsável pela ineficiência dos serviços públicos, acabando por incutir na sociedade um comportamento fatalista de que a crença no império da lei seria indigna de qualquer prece. Não é à toa o fato de as regras não serem iguais para todos, e do nosso fetiche estatutário ser um perigoso passatempo aristocrático, do qual muitos incautos participam já que preferem adiar o confronto com a realidade pela promessa da Terra Prometida.

Assim, sem levarmos em conta o cerne do problema, pouco adiantará o debate em torno da maioridade penal ou sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente. A maioridade penal, tema de reconhecida importância, jamais deve se vista como uma panacéia, dado as peculiaridades da violência juvenil. Ao menos, há dois bons argumentos em defesa da redução maioridade, estes são: (1) o fato de que crimes hediondos praticados por menores não sejam enquadrados como mera delinquência, pouco importando o percentual de crimes cometidos, e (2) porque se espera um poderoso golpe ao tráfico, pois elevaria os custos de recrutamento, indicando que o combate às drogas não deve ocorrer apenas no âmbito segurança, mas também atentar para alguns aspectos, digamos,típicos de uma economia-política, a saber, a forma como o crime se nutre de "incentivos anormais", oriundos muitas vezes de políticas públicas que tem como finalidade precípua combater o crime. No entanto, não há nada que indique que a eficiência vai se instalar automaticamente na vasta rede que envolve o aparato de justiça; porque esta depende de outras condições que ultrapassam em muito a existência da mera norma legal. Cabe alertar, porém, que esse argumento, bem como suas variantes, não deve servir de desculpas para transformar o assunto em um tabu.

O mais grave problema é o ECA. Simplesmente, porque já não se pode dizer que muitos dos seus fracassos sejam apenas pontuais. Na verdade, estes são causados pela vasta utopia presente em vários de seus artigos o que torna parte de suas exigências impossíveis de serem cumpridas. Sendo assim, seria infecundo perguntar sobre o que precisa ser feito para que o ECA funcione plenamente, visto deste não passar de um playground ideológico de certas seitas políticas que sancionaram aos menores a condição de intocáveis, como se estes fossem de sua propriedade.

Ora, o que a proposta da redução da maioridade penal conseguiu, ao se aprovada nesta madrugada na Câmara, foi revisar justamente aquilo que no ECA é tido como dogma. A lição é óbvia: aquilo que resiste à revisão acaba sendo passível de substituição.

O certo é que seríamos poupados de muita discussão inútil se atentássemos para o óbvio: assegurar a vigência da natureza igualitária das "regras de justiça" liberal. Assim que isso toma forma, instala-se um ambiente de relativa paz social que, em longo prazo, proporciona às regras condições de aperfeiçoamento paulatino, expurgando-as de ineficiências e incertezas. À diferença das sociedades liberais democráticas, baseadas na convicção, de que podemos melhorar continuamente, a despeito dos solavancos, é que as culturas patrimonialistas são avessas ao menor sinal de melhora por isso implicar, invariavelmente, num impulso para maior igualdade.

Logo, a proposta de proibição de armas brancas é um acinte à inteligência do cidadão crítico. Quando muito, trata-se de uma ilusão, em que políticos se creem infalíveis, por acreditarem que os complexos problemas de segurança pública possam ser resolvidos por meio de jeitinhos. A pergunta que todos se fazem é do por quê da inexistência de um padrão de policiamento capaz de identificar e coibir atos criminosos emergentes. Novamente, a conclusão é indisfarçável: de que foi o ECA que facultou, - e quero acreditar, inadvertidamente -, a realização desses crimes, em função de suas punições brandas não serem outra coisa senão o consentimento do direito de delinquir. Daí nossa bizarrice sócio-política ter alcançado níveis inauditos, ao ponto que nem Lewis Carrol faria melhor, pois na república das rainhas vermelhas se ouve um só coro: "punam-se às facas, punam-se às facas, punam-se às facas..."

(A propósito: o estado do Rio de Janeiro, como não podia deixar de ser, chegou primeiro ao rol da insensatez ao aprovar um projeto que proíbe o porte de armas brancas.)

Enfim, precisamos escolher entre a piada e a prosperidade. A prosperidade repousa numa ordem livre necessária ao desenvolvimento, não só econômico, mas também social. Já a piada fica por conta de que em Brasília, neste momento, algum político esteja burilando um projeto de lei, quiçá um estatuto, para regulamentar o ir e vir das nuvens. Resta-nos torcer que o verdadeiro clamor seja pela prosperidade, até porque piadas, mesmo as melhores, são efêmeras.

[Comente este Post]

Postado por Fabiano Leal
2/7/2015 às 14h11

Julio Daio Borges
Editor

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




ABOLICIONISMO: ESTADOS UNIDOS E BRASIL, UMA HISTÓRIA COMPARADA (SÉCULO XIX)
CÉLIA MARIA MARINHO DE AZEVEDO
ANNABLUME
(2003)
R$ 30,00



QUERIDO JOHN
NICHOLAS SPARKS
NOVO CONCEITO
(2011)
R$ 13,00



HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL
J. K. ROWLING
ROCCO
(2000)
R$ 10,00



O BANCO DE TRÊS LUGARES - MARIA DE LOURDES TEIXEIRA (ROMANCE BRASILEIRO)
MARIA DE LOURDES TEIXEIRA
SARAIVA
(1951)
R$ 5,00



O HOMEM DE GELO - CONFISSÕES DE UM MATADOR DA MÁFIA
PHILIP CARLO
LANDSCAPE
(2007)
R$ 70,00



2001 UMA ODISSEIA NO ESPAÇO
ARTHUR C. CLARKE
ALEPH
(2014)
R$ 40,00



AVENIDA BRASIL: ENFIM UM PAÍS SÉRIO
PAULO CARUSO
DEVIR
(2010)
R$ 39,90



A ESTRATÉGIA DA CONFIANÇA
APOLINÁRIO TERNES
JOINVILLE
(1988)
R$ 8,00



HISTÓRIA DA FILOSOFIA GRECO-ROMANA II (DESDE ARISTÓTELES ATÉ OS NEOPLATÔNICOS) RODOLFO MANDOLFO
RODOLFO MANDOLFO
MESTRE JOU
(1967)
R$ 18,00



O CAIBALION: ESTUDO DA FILOSOFIA HERMÉTICA DO ANTIGO EGITO E DA GRÉCIA
TRÊS INICIADOS
PENSAMENTO
(2015)
R$ 14,99




>>> Abrindo a Lata por Helena Seger
>>> Blog belohorizontina
>>> Blog da Mirian
>>> Blog da Monipin
>>> Blog de Aden Leonardo Camargos
>>> Blog de Alex Caldas
>>> Blog de Ana Lucia Vasconcelos
>>> Blog de Anchieta Rocha
>>> Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ
>>> Blog de Angélica Amâncio
>>> Blog de Antonio Carlos de A. Bueno
>>> Blog de Arislane Straioto
>>> Blog de CaKo Machini
>>> Blog de Camila Oliveira Santos
>>> Blog de Carla Lopes
>>> Blog de Carlos Armando Benedusi Luca
>>> Blog de Cassionei Niches Petry
>>> Blog de Cind Mendes Canuto da Silva
>>> Blog de Cláudia Aparecida Franco de Oliveira
>>> Blog de Claudio Spiguel
>>> Blog de Dinah dos Santos Monteiro
>>> Blog de Eduardo Pereira
>>> Blog de Ely Lopes Fernandes
>>> Blog de Enderson Oliveira
>>> Blog de Expedito Aníbal de Castro
>>> Blog de Fabiano Leal
>>> Blog de Fernanda Barbosa
>>> Blog de Geraldo Generoso
>>> Blog de Gilberto Antunes Godoi
>>> Blog de Haelmo Coelho de Almeida
>>> Blog de Hector Angelo - Arte Virtual
>>> Blog de Humberto Alitto
>>> Blog de Isaac Rincaweski
>>> Blog de João Luiz Peçanha Couto
>>> Blog de JOÃO MONTEIRO NETO
>>> Blog de João Werner
>>> Blog de Joaquim Pontes Brito
>>> Blog de José Carlos Camargo
>>> Blog de José Carlos Moutinho
>>> Blog de Kamilla Correa Barcelos
>>> Blog de Lourival Holanda
>>> Blog de Lúcia Maria Ribeiro Alves
>>> Blog de Luís Fernando Amâncio
>>> Blog de Marcio Acselrad
>>> Blog de Marco Garcia
>>> Blog de Maria da Graça Almeida
>>> Blog de Nathalie Bernardo da Câmara
>>> Blog de onivaldo carlos de paiva
>>> Blog de Paulo de Tarso Cheida Sans
>>> Blog de Raimundo Santos de Castro
>>> Blog de Renato Alessandro dos Santos
>>> Blog de Rita de Cássia Oliveira
>>> Blog de Rodolfo Felipe Neder
>>> Blog de Sonia Regina Rocha Rodrigues
>>> Blog de Sophia Parente
>>> Blog de suzana lucia andres caram
>>> Blog de TAIS KERCHE
>>> Blog de Thereza Simoes
>>> Blog de Valdeck Almeida de Jesus
>>> Blog de Vera Carvalho Assumpção
>>> Blog de vera schettino
>>> Blog de Vinícius Ferreira de Oliveira
>>> Blog de Vininha F. Carvalho
>>> Blog de Wilson Giglio
>>> Blog do Carvalhal
>>> Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
>>> Blog Ophicina de Arte & Prosa
>>> Cinema Independente na Estrada
>>> Consultório Poético
>>> Contubérnio Ideocrático, o Blog de Raul Almeida
>>> Cultura Transversal em Tempo de Mutação, blog de Edvaldo Pereira Lima
>>> Escrita & Escritos
>>> Eugênio Christi Celebrante de Casamentos
>>> Ezequiel Sena, BLOG
>>> Flávio Sanso
>>> Fotografia e afins por Everton Onofre
>>> Impressões Digitais
>>> Metáforas do Zé
>>> O Blog do Pait
>>> O Equilibrista
>>> Relivaldo Pinho
>>> Sobre as Artes, por Mauro Henrique
>>> Voz de Leigo

busca | avançada
31762 visitas/dia
1,1 milhão/mês