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Quinta-feira, 28/9/2017
Digestivo Blogs
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Sem fundamento

Morrer
de quê?

Viver
de quê?...

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Postado por Metáforas do Zé
28/9/2017 às 16h08

 
Bíblia ao acaso

Os poemas
não devem
ser

publicados
remetidos,
enviados

Os poemas
apenas
devem ser
achados

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Postado por Metáforas do Zé
28/9/2017 às 09h18

 
No compasso de espera

Esperar é a meta de quem vem ao mundo.
Criança, adolescente, jovem ou adulto
No compasso da espera.
Felizes ou infelizes, descalço ou bem calçado,
De anjo ou endiabrado,
Carrega o estigma do esperar.
De tanta espera, longa, às vezes curta,
Não atenta ao seu chegar.
Com ela não há quem possa, nem esperteza nem bossa,
Faz a morte recuar.
Morte, o fim de todas as coisas: arrogância e desamor,
Do ímpio, do desonesto e do ladrão,
Do corrupto por profissão e do desagregador.
Vai o corpo, vai a beleza, o sorriso e o chorar,
Não adianta esconder-se
Um dia, por certo, vem te buscar.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
23/9/2017 às 11h40

 
O que sei do tempo V

De volta à casa das avós, no umbigo
do portão floresce esta mandala de madeira.
Ao rastro das horas perseverando em direções
contrárias, minha flor da Ásia liberta-se
dos acontecidos.

Ante o grande centro da impermanência,
o que sei do tempo é ser ele um crivo
que se abre em todas as direções.

Em visitação ao ancestral, o que sei
das chaves é a cega oposição
entre o abrir e o fechar.

Perseguindo caminhos diversos,
dou de beber à rosa dos ventos,
invertendo nortes nos mapas
da Terra.

De uma direção à outra,
sou desobediência.

A desengrenar o passado das águas,
nos gelos reencontro a gestação
do arado e das mãos.


(Do livro Nada mais que isto: São Paulo: Scortecci, 2011)

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Postado por Blog da Mirian
22/9/2017 às 18h10

 
É de fibra

Música
não se
ouve.

Música
se vibra

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Postado por Metáforas do Zé
21/9/2017 às 10h05

 
O indomável Don Giovanni


Cena do Jantar, Don Giovanni (Homero Velho). Fonte: SECULT-PA


A primeira experiência arrebatadora ao se assistir à Don Giovanni é a exposição temática introduzida por Mozart que nos anuncia a vida romântica, intensa e trágica do conquistador. A sensação é de que entraremos em um mundo não apenas fantasioso, de máscaras e capas, mas em uma espiral que, incessante e inevitavelmente, empurra o destino e a vida.

Na apresentação realizada no XVI Festival de Ópera do Theatro da Paz, esse mergulho vertiginoso, aliado especialmente à atuação memorável dos cantores, novamente se apresenta em toda sua dramaticidade. O que dá essa sensação pulsante a essa obra, encenada há 230 anos, ainda hoje?

Em grande parte, é justamente sua qualidade estética. É a música de Mozart marcando e acentuando o drama; tornando-o jocoso quando assim deve ser na personalidade de Leporello (em Belém, na interpretação e no canto contagiantes de Silverio De La O). Mas é também na temática que se relaciona com alguns dos nossos mais caros sentimentos e com as formas pelas quais eles se nos conduzem (empurram).

Bernard Shaw, o dramaturgo irlandês, escreveria em seu prefácio para sua peça Homem e super-homem (1903) que “filosoficamente, Don Juan [o arquétipo de Don Giovanni] é um homem que, embora suficientemente bem-dotado para saber distinguir com excepcional clareza entre o bem e o mal, segue seus próprios instintos sem nenhuma consideração pelas leis costumeiras, estatutárias ou canônicas. E assim, ao mesmo tempo em que ganha a ardente simpatia dos nossos instintos rebeldes (que se envaidecem com o brilho com que Don Juan os conjuga), coloca-se em conflito mortal com as instituições existente e defende-se à custa de fraudes e do uso da força, da mesma maneira inescrupulosa com que um fazendeiro defende suas plantações contra as pragas”.

Inalienável da temática da sedução, o destino cavalga em/com Don Giovanni (Homero Velho, em exemplar atuação no da Paz) e impele à conquista e, principalmente, à conquista de si. Estamos na constelação psicanalítica da sedução, segundo interpretação de Renato Mezan (A sombra de Don Juan e outros ensaios) a respeito do galanteador e de sua idealização narcísica. “O aspecto mais crucial da sedução, segundo Laplanche, é que ela veicula significações inconscientes para o próprio sedutor, significações estas que vão impor ao seduzido um trabalho de simbolização e repressão. Ora, não é o que ocorre com Don Juan, que acredita amar as mulheres, quando na verdade ama apenas a si mesmo?”.


Donna Elvira (Kézia Andrade) e Leporello (Silverio De La O). Fonte: SECULT-PA

Donna Elvira faz o par ideal para os excessos e as faltas que compartilha com e para seu amado. Ficamos com a impressão, na ária em que ela se pune por amá-lo tanto (no canto comovente, que ainda hoje a melodia ecoa, da soprano Kézia Andrade), que aquilo, de algum modo, nos atravessa. Ela, como seu amante, está condenada a esse destino indomável. Luta contra ele, mas ela é como Don Juan, que mergulha em sua angústia, em “seu ritmo dionisíaco infernal” e isso é “tanto uma corrida ‘para’ quanto uma fuga ‘de’”. Tanto um mergulho para o deleite que exalta as mulheres e o bom vinho, quanto um artifício para sua incontrolável incompletude (libido).

É o mesmo páthos que impulsiona o conquistador a atacar e se defender, inescrupulosamente, dessas “pragas”; é o que gera em nós a empatia juvenil da rebeldia que cria sua própria ruína.

Mas nós, durante o espetáculo, também ficamos encantados com essa crisálida que no humano habita. Repudiamos e torcemos pelo libertino. Parece quase – e esse quase é decisivo para a fruição – inacreditável seu ataque à “boa” Zerlina (Dhuly Contente) e sua dissimulação para com o valoroso Masetto (Idaías Souto). Mas sua fantasia é tão bem construída que, na cena em que ele lhe faz juras de amor (“Là ci darem la mano!” – “Lá nos daremos as mãos!”), de repente, esquecemos tratar-se de mais uma ilusão, e olhamos nos olhos dele e ele, realmente, parece acreditar no que diz. E, de fato, em certo sentido, acredita. O que para nós pode parecer uma ilusão, para ele é, sempre, necessariamente, fantasia.

Talvez por isso ele, ao final, enfune o peito, encarando a morte, ao desafiar a estátua do Commendatore (Anderson Barbosa). A estátua instila nele uma dor tão grande que ele parece, pela primeira vez, ter visto algo “incontestavelmente” como realmente é. Ao apertar a mão gélida e se negar a mudar de vida, sua fantasmática prova de realidade é incapaz de modificá-lo. Ele grita: não! Negando-se, ele desce ao inferno, desaparecendo. Abrindo nossos olhos e fechando nossa cortina.


Relivaldo Pinho é pesquisador e professor.


Texto publicado em O Liberal, 20 de setembro de 2017, p. 2.

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Postado por Relivaldo Pinho
20/9/2017 às 19h13

 
Caracóis filosóficos

Novelo de
ventos

Travesseiros
dobrados

Uma
morada
helicoidal-
mente
configurada

qual o
marulhar
dos próprios
pensamentos

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Postado por Metáforas do Zé
15/9/2017 às 09h07

 
O mito dos 42 km

Desde que comecei meu caso de amor com a corrida, não foi nada difícil uni-lo a outra grande paixão, que é a leitura. E, conforme esse amor foi crescendo, relatos de corredores amadores, atletas profissionais e livros sobre esse tema me foram apresentados como se fossem cupidos ansiosos por manter essa chama sempre acessa.

Entre os vários livros que li, alguns que mais me marcaram (e ensinaram) foram: O ultramaratonista, de Dean Karnazes, Rocco; Nascido para Correr, de Christopher McDougall, Globo; e Correr – o exercício, a cidade e a maratona, de Drauzio Varela, Companhia das Letras, isso para citar os mais conhecidos, pois a lista é extensa. E, mesmo lendo sob a ótica e a experiência de vários autores, com suas perspectivas e objetivos distintos, a essência das histórias é praticamente a mesma: o amor pela corrida.

Mas o que sempre me intrigou foram alguns relatos sobre a conclusão de maratonas (42 km). Muitos deles são extremamente desanimadores, para dizer o mínimo. Li relatos de corredores que correram com cãibras fortíssimas; corredores que chegaram se arrastando, totalmente desidratados; corredores que passaram mal durante e após a corrida, com febre e dores pelo corpo; muitos e muitos corredores que não conseguiram concluir a primeira maratona. Enfim, relatos que me fizeram avaliar seriamente a minha intenção de encarar o desafio dos 42 km. A única certeza que eu tinha era de que eu não poderia tentar correr essa distância sem estar preparado.

Protegido por essa fácil desculpa (a de não estar preparado), fui adiando esse sonho até o dia em que resolvi fazer a minha inscrição para a Maratona Internacional de Florianópolis, que seria realizada em 27/08/2017. Fiz a inscrição no dia 06/01/2017 e fiquei “dormindo” em cima dela, literalmente, pois ainda não estava convencido de que iria participar e se conseguiria fazer a preparação física e mental necessária para esse desafio. Na verdade, o próprio período de treinos (no meu caso, foram 14 semanas) já foi um enorme desafio, pois tive que aumentar o meu volume de treinos semanais, que era de aproximadamente 30 km, para quase 60 km na semana mais intensa, com “longão” de 34 km... Entre os treinos de corrida e fortalecimento, sobrava apenas um dia de folga por semana.

Vencido o desafio dos treinos, entrei na semana da prova com sentimento de dever cumprido e extremamente relaxado para aproveitar ao máximo a minha primeira maratona. A minha previsão de chegada, que inicialmente era de 4h30min, foi caindo conforme aumentava a confiança, chegando a 3h45min um dia antes da prova.

Mesmo com a confiança nas alturas, quem corre sabe que, no dia prova, muitas variáveis podem afetar o nosso rendimento, tais como: clima muito frio ou muito quente, mal-estar por alguma alimentação inadequada e, até mesmo, ansiedade pré-prova. No meu caso, o único contratempo aconteceu no hotel em que fiquei hospedado, que não ofereceu um café da manhã adequado no horário combinado, às 5h da manhã. Tive que procurar outro hotel nas proximidades, que estava preparado para o evento. Mas esse fato isolado não chegou a abalar a minha confiança em nenhum momento.

A largada foi mágica, assim como é a ilha de Floripa. O clima primaveril (apesar de ainda estarmos no inverno) estava tão perfeito para correr que me peguei correndo acima do pace médio programado por alguns quilômetros, tendo que me policiar constantemente para “frear” essa empolgação que poderia minar as minhas pretensões de chegada, coisa muito comum em corridas de longa distância. Esse é um erro extremante banal, mas que acontece com muita frequência entre corredores que participam de sua primeira maratona.

Após esse período de ajuste, consegui encaixar o ritmo programado até o km 36. A partir desse momento, comecei a sentir o verdadeiro peso dos 42 km. A sombra do mito criado em minha mente a partir dos relatos que li começou a pairar sobre mim, e, apesar de não ter duvidado em nenhum momento de que conseguiria completar a prova, já não estava mais tão seguro de que seria no tempo programado, ao ponto de não mais verificar o tempo total em meu relógio Garmin, monitorando apenas o pace médio, que começou a se distanciar assustadoramente da meta inicial.

Nessas horas é que se percebe nitidamente o quanto a nossa mente é importante nesse processo. Consciente de que tinha feito o dever de casa, comecei a “scanear” meu corpo em busca de algum sinal que pudesse comprometer o meu desempenho nos quilômetros finais. Após uma rápida verificação, constatei que essa velha carcaça ainda estava inteira e que não precisaria me preocupar. Feito isso, comecei a me concentrar ainda mais no movimento correto das pernas e dos braços, e na minha respiração.

A partir daí, cada quilômetro concluído foi uma vitória, celebrada com parcimônia, pois o quilômetro seguinte não me deixava esquecer a distância que ainda teria de percorrer. Somente no último trecho, quando tive a certeza de que conseguiria concluir a prova, é que me liberei completamente para o início da comemoração. Mesmo antes de visualizar a linha de chegada, comecei a sentir os bons fluidos da conquista me invadirem completamente. Meu corpo já estava em festa, minha mente, aberta para saborear cada segundo da minha chegada.

Nesse momento lembrei-me de verificar o tempo acumulado, e, faltando uns 100 metros, aproximadamente, vi o cronômetro marcando 3h45min. No mesmo instante, ainda sem acreditar na minha sorte, acordei do transe da vitória e, mesmo já forçando a passada desde a entrada no km 42, ainda consegui acelerar o passo para não deixar o cronômetro virar em 3h46min. Confesso que, nesse sprint final, eu já não era mais dono do meu corpo e as passadas firmes e seguras já não tocavam mais o solo, tendo a nítida sensação de estar flutuando. Ao cruzar a linha de chegada, um misto de sentimentos e euforia invadiu meu coração e uma sequência com vários momentos marcantes da minha preparação passou só para me lembrar de que todo esforço valeu a pena. E de que foram justamente os dias mais difíceis de treino (frio, chuva e “longão”) que me fortaleceram ainda mais para que eu conseguisse vencer esse desafio.

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Postado por Blog de Isaac Rincaweski
13/9/2017 às 11h15

 
Setembro Paulista

"Era infantil se sentir decepcionado, mas a infantilidade é uma coisa que acontece tão naturalmente a um homem quanto a uma criança..." – Asimov, Fundação.

Tantas foram as obras de ficção científica que me causaram profundo impacto como a série Fundação de Isaac Asimov em que a visão periscópica de futuro e de sociedade apresenta ainda que com ressalvas, singular esperança. Tantas, porque particularmente não resisto a uma boa ficção científica, mas essa é precipuamente a melhor delas.

Asimov!

De minha parte, gratidão por obra tão espetacular.

Ainda que me agradem particularmente na literatura contemporânea, a prosa analítica de Umberto Eco, o fantástico de Gabriel Garcia Marquez – a ficção científica clássica de Asimov, me causa um rubor de esperança. Singular esperança, tão acanhada porque os anos nos recrudescem dessa habilidade pueril de acreditar, mas que timidamente se perpetua como quando caminhamos por uma rua tomada pela escuridão e nos solilóquios que se instigam freneticamente disparados pelo medo, pelo escuro, aguardamos a luz fraca do próximo poste, ainda que a distância entre os postes seja tão irregular que caracterize impossível compreendermos um padrão.

Como em Cities in Dust (canção aguda que merece obrigatoriamente em algum momento nesse lapso espaço-tempo, um arranjo pareado num game explosivo) nossas cidades jazem em pó. Nossas estradas espaciais jazem em pó, tão lúgubre e nada matinal essa desesperança nos faz um convite rumo à passividade. Esse desassossego humano, sempre insano rumo ao desconhecido em sua ímpar experiência num ciclo de vida tão passageiro é o que nos persegue simultaneamente tanto e quanto o perseguimos.

Não se trata aqui de uma ode à ciência inabalável, metódica, pois ainda que a Crítica da Razão Pura de Kant tenha me conferido um pouco de racionalidade, devo ignorar que para Kant “toda sensação é suscetível de diminuição, de tal sorte que ela pode decrescer e desaparecer insensivelmente”. Persisto numa auto sabotagem distrativa que me permite ignorar os desvanecimentos das sensações que há tempos me causavam súbito estupor. O fato é que para mim, a ficção científica incorpora o que há de luminescente nessa amplitude vazia a que estou submetida, tal como um vestígio de luz, cuja faísca da Graça adiada, resiste! (Não, não me refiro à graça cristã ululante que berra, estampada no rosto de Teresa de Ávila de Bernini, depois de ter tido a experiência orgásmica com a seta do amor cupido-deus. Blasfêmia? Não! Definitivamente não. Teresa de Ávila era mística e eu no meu ceticismo, não a compreendo. Nem preciso! É óbvio que a questão é quanto ao uso da palavra Graça restringir-se tão somente ao ideário judaico, cristão, católico, não importa. A Grace de Lar Vons Trier me apetece mais do que a graça divina. Reside nesse conceito de Graça, do qual me aproprio, um expurgo da religião e de toda essa fé cinzenta vendida e que não se aproxima ao menos, na minha soberba e intimista opinião, à magnitude do pôr-do-sol, da aurora boreal e da singularidade das marés, ou bem mais óbvia de ser compreendida como a comoção que Hades despertou em Orpheu que decidiu por Eurídice conquistar o reino dos mortos).

A ficção científica é a prima-irmã do Iluminismo, a Graça encarnada nas páginas escritas, sonhos da razão, que em seu rastro luminoso, resiste na perspectiva de bonecos humanos de elastômero para a satisfação de desejos, resiste no braço biônico, resiste na publicidade desnecessária do Bóson de Higgs ou para os mais pessimistas como eu, resiste no borralho de ausência de humanidade ou naquela experiência louca de Playtest em Black Mirror. Essa vazão catártica de mim mesma, é o mais próximo que eu consigo chegar do enleio da Graça! Embalada numa Graça agônica à minha própria existência, minha existência se dá porquanto resisto. Resistir. Eu resisto. Todos resistimos nessa vértebra frugal que nos compele diariamente, ainda que o auto engano nos dissimule a infelicidade, nos dissimule o vazio e nos dissimule o medo de nossa finitude. Esse auto engano que me abranda dentro dos convescotes corriqueiros, nos feriados em família, nos acalantos sinceros e naquela sensação entorpecida de que tudo está exatamente onde deveria estar, quando por um tempo esqueço dessa carne que definha pouco a pouco. A ficção científica é a ciência do impalpável que se materializa na literatura de vanguarda, no futurismo da produção cinematográfica, na Arte daquilo é inatingível conceitualmente. A ficção científica nos sublima, quando assumimos nossa identidade como replicantes de nós mesmos e aguardamos tacitamente o aparecimento de um tricorder e nos projeta, quando ousamos um dia sonhar com um pulo paradoxal do tempo num universo paralelo.

É provável que essa mesma ciência do inacreditável, aquela que causa prostração diante de algo deslumbrante, que cega-nos diante de tanta incandescência, seja a que causou profundo terror aos europeus ao se depararem com civilizações tão desenvolvidas, quanto a dos ameríndios. Daí, a razão de Hernan Cortés em suas cartas sobre a conquista do México relatar com profunda naturalidade a barbárie dos crimes de guerra. “Lutaram conosco bravamente, mas quis Nosso Senhor dar tanta força aos seus que entramos pela água até o peito e fomos conquistando a vitória. Matamos mais de seis mil índios entre homens, mulheres e crianças, número que se tornou considerável em vista da ação dos índios nossos amigos, os quais, vendo como íamos conquistando a vitória, iam matando a torto e a direito. Quando chegou a noite recolhi a minha gente e pus fogo em algumas casas”. Para Cortés que sequer imaginava encontrar numa civilização supostamente primitiva, aspectos de vida inteligente, a imperceptibilidade do ouro enquanto despojo, o sol encapsulado em monumentos astronômicos cravados em rocha, erguidos com perfeição matemática é de se esperar que a única coisa que ao desbravador feroz restava, era primar pela completa dizimação do povo.

A verdade é que em tempos sombrios, (a escuridão é ainda pior que essa luz cinza! – Renato Russo) como já disse, Chine Miéville: “Nunca houve época tão boa para ser fascista”. Somos mesmos todos fascistas com as vontades alheias que sobrepujam as nossas ou nosso altruísmo consegue ser maior que nossas misérias internas? Não sei. O que sei é que o cotidiano, monstro escondido nas frestas da cidade, precipitado no noticiário da manhã, no pó que se intromete na soleira, na geladeira vazia, no painel do elevador, nos humanos com quem não escolheríamos compartilhar nossa existência se tivéssemos tal opção, nos explora... Quem é que suporta o peso dos dias? Eu não consigo mais! Agosto me empurrou ladeira abaixo num soluço doentio permanente como um cozido demorado de miúdos, intragável, nauseante como a minha própria cara esgotada, envelhecida e descoberta.

Setembro chega. Setembro chega com a Primavera e traz consigo o dia sete, Sete de Setembro.

Para mim, as opções que restam são poucas. Duas delas me comovem quase que por inteiro, esconjurar a Independência num grito ensurdecedor de desespero ou aguardar passivamente a segunda-feira que tão logo se avizinha com o prelúdio irônico da minha condição assalariada, (um queniz de trigo por um denário! Argh!) engrenagem descartável. Eu resisto. Todos resistimos. Resisto mais um dia, dois, um mês, toda uma vida! Guardo minha militância sonífera numa caixa de papel para os dias de luta que na medida da minha covardia torço para não acontecer...

Agarro-me à Asimov até dormir, acordo, vocifero contra o pote de biscoitos, fico à espreita do sol que não tarda em secar as flores amarelas caídas do Ipê que floresce tão próximo da janela das minhas tímidas esperanças tardias.

01/09/2017 – Lais Viajante
licabarbosa30@gmail.com

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Postado por Me avise quando for a hora...
12/9/2017 às 22h05

 
Apocalipse agora

Luz verde. Duas mulheres olham apreensivas para o semáforo, a troca das luzes lhes impõe uma missão. Luz amarela. É hora de se prepararem. Enfim, agora que o círculo vermelho acende, não perdem tempo em ocupar a avenida, postam-se à frente dos carros, segurando cada qual a ponta de uma faixa. Fazem isso sem qualquer entusiasmo, há no entorno delas uma evidente aura de constrangimento, ombros caídos, languidez nos olhos. Se ainda anunciassem o sonho da casa própria, algum saldão de ofertas ou as trinta e seis prestações que possibilitem a aquisição do mais arrojado dos automóveis SUV, mas o fato é que carregam o fardo pesado de terem que alertar a todos sobre questões apocalípticas.

Você está preparado para o apocalipse? É o que está escrito na faixa. Os motoristas e os pedestres leem a interrogação e inicialmente são tomados pela reação de quem se põe a refletir, cada um vai formulando sua resposta interna, mas isso dura pouco e logo se vê que os semblantes já estão novamente tomados pela impaciência, pela pressa, pela ansiedade, não é difícil imaginar a enorme figura do relógio mental que os assombra ao piscar incessantemente avisos sobre o horário da consulta médica, sobre o horário da escola dos filhos. Antes do apocalipse, há ainda muitos compromissos e preocupações com os quais é preciso lidar.

Chinelos de dedo, calça social, camisa de linho, um senhor pedala sua bicicleta pelo canto da avenida, deixa de girar os pedais e vai diminuindo a velocidade até parar junto ao meio-fio, já faz tempo que observa o teor da faixa estendida à sua frente. Agora olha para a calçada e procura alguém que possa esclarecer uma curiosidade: vocês acreditam nisso? Sem se importar com o fato de ter sido ignorado, ele retoma as pedaladas não sem antes emitir uma declaração para se for o caso de alguém querer saber: já passei tanta coisa na vida que tudo o que vier é lucro.

Num cruzamento movimentado, o maior dos pecados é a lentidão. Por mínima que seja a percepção de que algum veículo atrasou o arranque, tem-se aí motivo para a aplicação de um castigo cruel, que é o berro uníssono de muitas trombetas infernais, se a buzina estridente é o grito dos perturbados, dos irascíveis, a cidade se tornou a orquestra da insensatez. E é em meio a esse som ambiente que as duas mulheres continuam estendendo a faixa, juntam-se a isso o calor, a poluição, a exposição, o desconforto de serem alvo de olhares zombeteiros. Pelo que tudo indica, já estão tratando de se preparar.



Texto originalmente publicado no site flaviosanso.com
flavio.sanso@gmail.com

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Postado por Flávio Sanso
12/9/2017 às 17h29

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