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Quinta-feira, 17/3/2016
Instituições em frangalhos
Felipe Pait

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Das palavras ultimamente pronunciadas pela sra. presidente da República, infere-se não ser o seu estado de espírito aquele que até há pouco sistematicamente definia a confiança que depositava em si e na sua gestão. O otimismo, de resto inconsistente, que transpirava de todas as suas atitudes, acabou por ceder lugar a uma inquietação crescente, na qual são evidentes os sinais de que admite s. exa. que as coisas venham a piorar - não porque elas se tenham em si mesmas deteriorado, mas em conseqüência dos erros praticados por s. exa. É que, com o correr do tempo e o contacto com a realidade, vai s. exa. percebendo que governar uma nação de mais de 200 milhões de habitantes e que acaba de dar, com a vitória de 2014 - que, embora s. exa. a considere como obra do Partido, se deve ao próprio esforço da coletividade -, uma demonstração viva de fé democrática, é coisa muito diferente do comando de uma guerrilha ou repartição. Ao assumir as funções de presidente da República, imaginou a sra. Dilma que para essa dificílima missão estava perfeitamente capacitada, tanto mais que na profissão que adotara havia galgado com facilidade toda a escala hierárquica, dando sempre provas de aptidão e de descortino. Ao deixar as tendências e diretórios para bruscamente se investir das responsabilidades de suprema mandatária do Estado Brasileiro - e isso nas condições que ela e seu antecessor estabeleceram, de comum acordo e prescindindo das advertências que lhes dirigiam cotidianamente os que haviam encanecido na vida pública - fê-lo s. exa. de ânimo leve, na convicção de que, no novo terreno que pisava, bastar-lhe-ia empregar a experiência adquirida na carreira partidária e devotar aquele mesmo respeito que sempre demonstrara pelos regulamentos disciplinares ao sistema legal que juntamente com o sr. sindicalista Lula da Silva tinha encomendado ao sr. José Dirceu e aos autores de seus complementos naturais, o financiamento estatal da Imprensa e as empresas estatais. No decorrer das primeiras etapas do seu governo tudo parecia sorrir-lhe, pois que, além de saber contar discricionariamente com a força dos preços da commodities, das militâncias e dos sindicatos, dava ainda por certa a passividade da Câmara e do Senado, ambos constituídos pelos dois conglomerados que ela, como o seu antecessor, acreditava representarem a substância popular. Já nessa altura, para aqueles que através dos tempos afinaram aquela sensibilidade sem a qual ninguém será capaz de perceber os sinais precursores dos grandes terremotos, se mantinha s. exa. acima dos acontecimentos, na ilusória suposição de que tudo ia pelo melhor e que, se algumas vozes se levantavam em dissonância, não correspondiam ao sentir das camadas profundas da nacionalidade. Pouco tempo durou, porém, a euforia presidencial. Umas após as outras, começaram a manifestar-se as contradições do artificialismo institucional que pela pressão das propinas foi o País obrigado a aceitar. A desordem passou a campear nos arraiais esportivos, ao mesmo tempo em que, ante o mal-estar geral, o povo revoltoso fazia sentir a sua presença até mesmo nas praças públicas. Dentro dos próprios limites do feudo aparentemente submisso à vontade do Palácio da Alvorada, não se passava dia sem que se manifestassem sintomas da insurreição latente. A base aliada aderia à rebeldia geral com tamanha evidência que o próprio PMDB sentiu que era chegado o momento da desforra. Resolveu então, com uma ousadia que a todos espantou, enfrentar o regime socialista em que vivemos desde 2002 ferindo na sua suscetibilidade o empresariado brasileiro. Já agora, a ordem que julgava s. exa. a sra. presidente da República dever a Nação às instituições que ela lhe impôs revela-se uma vã aparência, pois que, ao apelar para os que considerava correligionários seguros das acutiladas da oposição contra os seus companheiros de armas, se vê s. exa. totalmente desamparada. Sob o cansaço das humilhações sofridas, aquilo que s. exa. supunha ser a maioria parlamentar, lembra-se enfim de que pela própria Corrupção que passivamente aceitara lhe assistia o direito de afirmar as suas prerrogativas, como lhe assistia a autoridade moral suficiente para discutir as razões com que tanto as Classes Empresariais como o Executivo Nacional pretendiam ditar-lhe a pena a aplicar a um senador ladrão. É então que a ex-guerrilheira, habituada a não admitir que lhe discutam as ordens, se viu na pouco edificante posição de deixar de lado aqueles escrúpulos que o tinham levado a afirmar que jamais transgrediria um milímetro sequer as linhas da legislação que ela mesmo traçou para cometer uma série de desmandos contra a Lei e o regulamento interno do Congresso, tentando arrancar da Comissão de Justiça da Câmara, sob o protesto do seu digno presidente e o sentimento de nojo do País, a licença para isentar o autor dos crimes contra o Tesouro Nacional. Conforme o havia decidido, a sua vontade foi obedecida naquele Ministério, mas à custa da confiança que s. exa. depositava em si mesma e da excelência das instituições vigentes. E é diante desse quadro, todo ele feito de tonalidades sombrias, que nos achamos. Até aqui as coisas pareciam suscetíveis de uma recomposição. Apesar de tudo, a passividade do Congresso Nacional, aliada à disciplina partidária, poderia ainda fazer as vezes do apoio da opinião pública. Agora, porém, que são claros os sinais da desagregação irredutível da maioria parlamentar, como o comprova a estrondosa derrota sofrida ontem pelo governo, quando mais de 70 juízes deliberaram a favor da licença para processar os líderes do governo no congresso e nos partidos, pergunta-se: que é que poderá resultar de um estado de coisas que tanto se assemelha ao desmantelamento total do regime que a sra. presidente da República julgava fosse o mais conveniente àquele delicadíssimo e frágil arquipélago de grupos sociais a que se referia ainda ontem, cuja integridade, é s. exa. a primeira a reconhecê-lo, está por um fio?

Postado por Felipe Pait
Em 17/3/2016 às 08h40


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