A viuvez da palavra | Ezequiel Sena, BLOG

busca | avançada
35024 visitas/dia
896 mil/mês
Mais Recentes
>>> Biblioteca Central da UnB recebe exposição artística 'Quem sou Eu, Quem somos nós'
>>> Feambra traz convidados para discutirem o tema "Museus e Sociedade"
>>> A Cultura do Subúrbio é tema do segundo debate #Colabora com Ideias
>>> Núcleo Viver estreia "Coração Supliciado...", no CRDSP
>>> Jikulumessu é a nova novela angolana que a TV Brasil estreia nesta quinta (25)
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O dia que nada prometia
>>> Super-heróis ou vilões?
>>> Seis meses em 1945
>>> Senhor Amadeu
>>> Correio
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> On the Road, 60 anos
>>> Viena expõe obra radical de Egon Schiele
>>> Dilapidare
>>> A imaginação do escritor
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
>>> Ebook gratuito
>>> Poesia para jovens
Últimos Posts
>>> Jano
>>> Diário
>>> Infinitamente infinito
>>> Encantarias da palavra, de Paes Loureiro
>>> Animus mundi
>>> A partilha
>>> Dobraduras e origames
>>> Andamento
>>> Branco (série: Sonetos)
>>> Coroa, só de flores
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A Literatura na poltrona
>>> A aridez de Beckett
>>> Jornalismo em tempos instáveis
>>> Nine Inch Nails e The Slip
>>> Por um corpo doente, porém, livre
>>> Iraque: plano de guerra
>>> A rocha que voa num labirinto
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
Mais Recentes
>>> Movida pela Ambição
>>> Leite Derramado
>>> Teatro da Obsessão/Nelson Rodrigues
>>> A Distância entre nós
>>> Quem Sobreviverá?
>>> São Máximo, o confessor- Centúrias sobre a Caridade e outros escritos espirituais
>>> Teria Deus morrido?
>>> Operação Cavalo 4 De. Troia Nazaré
>>> Photoshop CS para Fotógrafos Digitais
>>> Viagens no Scriptorium
>>> Este Lado do Paraíso
>>> Amor Líquido - Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos
>>> Quinta Avenida, 5 da Manhã - Audrey Hepburn- Bonequinha de Luxo e o Surgimento da Mulher Moderna
>>> La Consolante
>>> Notre-Dame de Paris
>>> A Arte da Guerra
>>> A Sociologia de Norbert Elias
>>> Bhagavad Gita - Como ele é
>>> Bhagavad Gita - Como ele é
>>> Cântico dos Cânticos
>>> La femme de trente ans
>>> The Notebook
>>> Foe
>>> Os Versos Satânicos
>>> Terra Sonâmbula
>>> Caim
>>> O Evangelho Segundo Jesus Cristo
>>> O Monge e o Executivo - Uma História sobre a Essência da Liderança
>>> O Beijo Infame
>>> Antes da Coisa Toda Começar
>>> Estruturas da Mente - A Teoria das Inteligências Múltiplas
>>> Guia Politicamente Incorreto da América Latina
>>> O Contrato Social
>>> Tess of the D´Urbervilles
>>> O Grande Conflito
>>> Ágape
>>> Dicionário Enciclopédico Ilustrado Veja Larousse - Volume 1
>>> O Cantor De Tango
>>> 1.000 Lugares Para Conhecer Antes De Morrer
>>> Nietzsche para Estressados
>>> Estorvo
>>> Cozinheiros Demais
>>> A Outra Face Da Doença - A Saúde Revelada Por Deus
>>> L'approche par compétences dans l'enseignement des langues
>>> Pensar Por Conta Própria
>>> O Evangelho Da Meninada
>>> Sinal De Contradição
>>> Limites Sem Trauma
>>> Desta Vez Eu Emagreço!
>>> Alucinado Som De Tuba
BLOGS >>> Posts

Terça-feira, 14/2/2017
A viuvez da palavra
Ezequiel Sena

+ de 300 Acessos

Crônica vencedora do Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação, 16ª edição/2010, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade.

Pela fresta da janela entreaberta, côa-se uma luz fêmea, de manhã nascitura. Raio sorrateiro pousa rasante sobre “A Rosa do Povo” em cima da mesa desarrumada do escritório. Abre-se o livro, bebe-se o cálice diário de poesia.

Lá fora, o sol ladrilha o dia, escancarado em luzes e cores, e o calendário do relógio lembra que é 17 de agosto. Há 23 anos, morria Carlos Drummond de Andrade. De tão multifacetado, até dizem por aí que a morte emendou a Gramática: “Morreram Carlos Drummond de Andrade”.

Uma concordância ideológica para os tantos poetas que trazia em si. Morta Julieta, filha e razão da sua vida, coração se esvaziou, resolveu pedir licença, fechar a porta e ir-se, morrer-se. Nesta inusitada transitividade do verbo morrer – aí proposital – evoca-se o modernismo transgressor, de cujas águas, um dia, bebeu o poeta.

Farmacêutico por formação, jornalista por sobrevivência, poeta por sina, não mais gastaria “uma hora pensando num verso que a pena não quer escrever”. “Pássaro […] livre na prisão do ar”, por certo, poderá, agora, penetrar “surdamente o reino das palavras” à cata das suas íntimas parceiras numa metalinguagem recorrente.

Pois bem, sem Drummond sobra uma dormência no território das palavras: um tanto de viuvez, um tanto de deserto. Elas se recolhem dicionarizadas, cobertas de pó, expostas nas prateleiras, à espera de um demiurgo que as ressuscite, que as reinvente, que as desperte do estado letárgico de hibernação.

É verdade: palavras rasas se esgotam no estro de outro, menos no de Drummond, que lhes resgata um significado novo com a lógica de uma semiótica ousada. Sem ele, palavra é pássaro de gaiola, é terra lavada e estéril, perde a liga, não dá tijolo para o verso, mergulha-se na trivialidade do óbvio, perde o brilho da alegoria, não insufla de alma o poema.

Sem ele, palavras são velhas prostitutas que não suportam a luz da manhã a lhes expor as rugas, a lhes desmascarar o viço postiço de uma maquiagem barata. Sem Drummond, sobra um outono sombrio e temporão na estação dos versos. Vestiu palavras gastas com tecidos novos – chitas ou sedas – e fê-las crer-se vestais nunca dantes manipuladas, ataviadas em pedrarias.

Assim, rompeu-lhes a maldição de “estado de dicionário” e as dicotomias denotação/conotação, significado/sentido. Soprou-lhes espírito de animação e fê-las pairar como a onda antes de arrebentar-se nas pedras da escarpa e, assim, postarem-se coaguladas, num instante eterno, à espera que sua pena as colhesse na plenitude da essência para o cio alquímico do poema, espraiando-se num mar de significados e vida, pois que, de cara lavada, palavra não gesta poesia e descamba para a noite eterna da insignificância.

Palavra na tinta de Drummond é bicho vivo, pulsa, queima, sangra, veste-se das mais inimagináveis metáforas, para decantar a angústia humana nas cenas triviais de uma “vida besta, meu Deus”. Conquanto armado de misterioso alçapão de pegar momentos, o fazer poético em Drummond era uma quase contrição, tão natural como o germinar de sementes; tão despojado, a ponto de decantar a flor plebéia, tímida, insegura e amedrontada que “furou o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio”. Tudo tinha a duração de uma vírgula pausando a eternidade de um minuto.

Drummond transitava entre o destecer de significados e o entretecer de outros, até que elas (as palavras) saltassem novinhas em folha para dentro do poema. Um mesmo vocábulo, corpo morto em lavra pobre, enraíza-se na seara do poeta e viça com vigor de ineditismo. Assim como, no dizer de Octávio Paz, “a pedra triunfa na escultura e humilha-se na escada, e a matéria, vencida ou deformada no utensílio, recupera seu esplendor na obra de arte”, na estética drummondiana, as palavras flutuam num campo semântico de sentidos vários, e se transubstanciam.

Hábil, Drummond sabia cortejar as emoções, de modo a cristalizá-las em versos, para o regalo e banquete do leitor. Há um abismo intransponível entre a poesia do momento e o ato de registrá-la, porque a matéria-prima do poema é etérea, fugaz, insubstancial, intangível, embora com intermitência de vaga-lume. Entanto, ante Carlos Drummond de Andrade, o fio do tempo – bicho arisco – estanca-se num coágulo poético, sem, paradoxalmente, deixar de fluir na sua sina e sede de eternidade.

Bem que Drummond poderia ter-se atido, tão somente, a decantar as mísulas das janelas barrocas, o cheiro de incenso fumegando nos turíbulos das novenas, a métrica dos pilões batendo cantigas nos quintais mineiros. Mas seu evangelho de versos era um tanto desmesurado a não caber no paroquialismo de sua aldeia. Havia de chegar, sim, o tempo do saudosismo, do tom afetuoso, em que, marcando sua poesia com o fogo da lembrança, “Itabira é apenas uma fotografia na parede”, a doer desatinada na alma do poeta, pois “Minas não há mais. José, e agora?”

O tom silencioso de “Infância”, a presença antitética da “preta velha No meio dia branco de luz”, a ingenuidade daquele “menino que ao sol posto perde a sabedoria das crianças” nem lhe davam conta de que sua “história era mais bonita que a de Robinson Crusoé”.

Drummond, uma caravela de seguidores navega nas águas abissais dos teus versos, vezes confessa como Adélia do Prado com “Quando nasci um anjo esbelto…”, vezes velada no “Brejo da Cruz” de Chico Buarque, vezes outras ignotas nos anônimos discípulos que fizeste. É fato que ainda há leiteiros, virgens ou não, varando a solidão das madrugadas; Minas cristalizadas nos retratos empoeirados de um casarão qualquer por entre montanhas num silêncio quase litúrgico; histórias de desamor em vestidos pendurados; josés perdidos na “Máquina do Mundo”; o tempo, em fatais, ainda “industrializa a esperança” de ano-novo; e a “Verdade”, recolhe-se na geometria das metades, num contínuo desafiar que a vejam “conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia”.

Na sua oblíqua relação com o “Bruxo do Cosme Velho”, teria Drummond herdado um jeito Capitu de trair as palavras, saindo de cena silenciosa e sorrateiramente? Ou foram elas que, por não acompanhá-lo, zanzam loucas de orfandade farejando “faces secretas sob a face neutra”? Quem se arriscaria a dizer?

O certo é que Drummond deixou viúva a palavra e não levou apenas “Alguma Poesia”, mas carregou consigo, entre “Versiprosa”, todo o “Sentimento do Mundo”.

(Texto gentilmente cedido pelo poeta: Esechias Araújo Lima)


Postado por Ezequiel Sena
Em 14/2/2017 às 10h04


Mais Ezequiel Sena, BLOG
Mais Digestivo Blogs
Ative seu Blog no Digestivo Cultural!

* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




CONVERSAS NO ADRO DA IGREJA
JACQUES GAILLOT E EUGEN DREWERMANN
NOTÍCIAS
(1997)
R$ 36,10
+ frete grátis



MIMESIS -A REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE NA LITERATURA OCIDENTALL
ERICH AUERBACH
PERSPECTIVA
(2009)
R$ 51,10



REVISTA PLACAR NUMERO 292 31/10/1975
VARIOS
ABRIL
(1975)
R$ 25,00
+ frete grátis



ÉBANO - MINHA VIDA NA ÁFRICA
RYSZARD KAPUSCINSKI
COMPANHIA DAS LETRAS
(2002)
R$ 67,90



O TURNO DA NOITE - VOL. 2 - REVELAÇÕES
ANDRÉ VIANCO
NOVO SÉCULO
(2006)
R$ 15,00



ATIVANDO O CORPO ENERGETICO
ROBERTO EPIFANIO DA SILVA
UNIVERSALISTA
(1995)
R$ 24,90



FÍSICA PARTE 2
ANTÔNIO MÁXIMO E BEATRIZ ALVARENGA
SCIPIONE
(2017)
R$ 30,00



A SOCIEDADE ABERTA E SEUS INIMIGOS VOLUME 1
KARL POPPER
ITATIAIA
(1998)
R$ 39,00



O PODER INFINITO DA SUA MENTE
LAURO TREVISAN
DA MENTE
(1980)
R$ 33,50



GIBI CAMELOT 3000 O FIM DA SAGA
MIKE W. BARR
ABRIL
(1985)
R$ 14,00
+ frete grátis





busca | avançada
35024 visitas/dia
896 mil/mês