O batom | Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ

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Quarta-feira, 6/9/2017
O batom
ANDRÉ LUIZ ALVEZ

+ de 300 Acessos

Naquele fim de tarde de um dia frio, Horácio decidiu que havia chegado o momento de trair.

O casamento de sete anos com Nair já estava desgastado e ele sofria horrores com fantasias sexuais: comia todo mundo; a mulher do vigia, a secretária gorda dos dentes falhos, a mãe de um amigo, a menina magra, completamente sem bunda, que vendia buquê de flores no sinal fechado.

Sentia remorso, jamais duvidou da fidelidade de Nair.

Quando dormia, sonhava que era o jovem de antes, de vinte e poucos anos, tão belo, tão saudável.

E, novamente, comia todo mundo; as que realmente conquistou, as que deixou escapar, algumas inexistentes, estrelas da TV e do cinema e até uma freirinha linda dos olhos azuis que conheceu quando ainda eram crianças.

Não aguentava mais o desespero.

Optou por marcar encontro com uma mulher que conheceu através de um site de relacionamentos.

Seu perfil era claro: "procura sexo casual".

O nome da moça, Carmem, despertou-lhe antigos desejos no simples lembrar da dona do puteiro mais famoso da cidade, uma paraguaia dos cabelos negros como a noite, longos até a cintura e dona da boca borrada de batom dum intenso vermelho, a quem ele sempre sentiu atração, mas o receio de frequentar um lugar daqueles, o fez recuar.

Antes de sair do consultório, sentiu um frio na barriga e uma última fagulha de arrependimento.

Ligou para a esposa:

- Filinha, faz aquele bife acebolado que hoje vou trabalhar até mais tarde...

Nair respondeu com a habitual cortesia, prometendo, além do bife, uma saborosa polenta.

Os ponteiros do relógio demoravam a passar mas Horácio não pensou em desistir.

Quando enfim fechou o consultório, acenou brevemente para a secretária gorda dos dentes falhos e ela sequer lhe respondeu.

Girou a chave de ignição do carro e partiu para a aventura.

Não tardou a identificar Carmem, debruçada no canto esquerdo do balcão do bar.

Ela tinha os olhos puxados e claros, os cabelos tingidos de loiros, a boca pequena, porém carnuda e um belo par de pernas.

Horácio sempre gostou mais de pernas. Trocaram palavras rápidas, conforme combinado no site de relacionamentos, beberam juntos e numa só golada o copo ao meio de conhaque.

Poucas palavras durante o caminho até o motel. Horácio percebeu que somente o nome e o intenso batom vermelho borrado na boca combinavam com a dona do puteiro de outrora.

A Carmem diante dele era mais nova e (imaginou) mais fogosa, desde que entrou no carro, não parava de alisar suas pernas, os joelhos, tudo o mais... E fizeram de tudo no quarto.

Carmem beijou Horácio como se ele fosse o único homem do mundo.

Ele devolveu todos os carinhos, na mesma intensidade.

Quando enfim saciados, cada um caiu para um lado da cama, exaustos.

Um cheiro forte de morango permanecia invadindo o nariz de Horácio.

Ele caminhou até o banheiro e sorriu ao verificar sua boca suja de batom.

Tentou limpar com papel higiênico.

Nada, o batom permanecia intacto.

Lavou com água e sabão líquido.

Sem efeito.

Um leve desespero percorreu sua espinha, trazendo a imagem cândida de Nair fritando os bifes. Resolveu pedir socorro a Carmem:

- Filinha, esse batom não quer sair da minha boca.

Ela o encarou como quem encara um fantasma:

- Ihhhhh...Esse meu batom é mesmo ruim de sair...

- Mas você deve passar alguma coisa, um líquido que retire...

- Não...Eu só uso esse...Vou retocando todos os dias pela manhã, ele prega mesmo na boca.

Horácio podia sentir o cheiro do bife e também os olhos de Nair pairando por cima da sua boca suja de batom.

O desespero bateu de vez.

Chacoalhou Carmem pelos ombros:

- O quê nós vamos fazer agora?

Ela sorriu, ligeiramente maliciosa:

- Você eu não sei...Eu uso batom desde os quatorze anos, quase nunca estou sem...

- Filinha, você tem que me ajudar!

- Ah cara, sei lá, tenta passar álcool.

Ele então jogou no rosto o tanto que coube de uisque nas mãos feitas em concha.

Esfregou com força, para cima, para baixo, para os lados.

Tudo o que conseguiu foi espalhar ainda mais o batom no rosto. Saíram do motel às pressas.

Procuraram uma farmácia.

O atendente, um senhor calvo e de óculos fundo de garrafa, não percebeu a mancha, mas entendeu o pedido.

Afirmou que tinha um removedor de manchas infalível. Horácio sorriu ao mesmo tempo em que pedia para ocupar o banheiro da farmácia na intenção de usar imediatamente o removedor.

Olhou antes para o espelho, suspirou num pequeno alívio e lambuzou o rosto com o removedor.

A ardência o fez recuar ligeiramente e tapou o grito que lhe veio à garganta ao perceber que o único efeito que conseguiu foi mudar a cor do batom, agora mais claro, do vermelho ao rosa, com tons azulados nas extremidades. Carmem se mostrou impaciente: - Desculpe, mas o problema é seu. Preciso ir embora, meu marido chega amanhã de viagem e... Horácio não permitiu que concluísse, armando no rosto rebocado de batom uma veia pulsante de ira, – Filinha, você disse que era solteira! Ela sorriu um tanto desajeitada: - Sou casada desde os 16 anos...Mas meu marido é caminhoneiro, vive viajando, então é como se eu fosse solteira. Horacio juntou as duas mãos em torno da cabeça, inconformado. – Seu marido é caminhoneiro? Nós transamos sem camisinha, entende como isso é terrível, filinha? - Você que não quis usar... - Porque pensei que você fosse pura. - Pura? Como assim? - Não digo virgem, mas com pouca rodagem... Ela fez um esforço para conseguir arregalar os olhos puxados: - Olha aqui, meu senhor, eu sou uma mulher limpa, de poucos homens! - Quantos? - Menos de trinta. - O quê? Trinta? Ela balançou a cabeça, nervosa, - Não contei os pintos, acho que a média é essa. - De todos, certamente eu fui o único que não usou camisinha. Carmem esboçou um riso falso e um leve balançar de cabeça. - Talvez...Bom, eu... Horácio sentiu um arrepio percorrer o corpo todo. - Mas o pior de tudo é o caminhoneiro. Ela colocou o dedo indicador nos lábios, se fazendo ingênua: - O que isso tem a ver com o meu marido ser caminhoneiro? Um longo risco de suor escorreu pela testa de Horácio: - Filinha, caminhoneiro come tudo o que encontra pelo caminho, até travesti! Carmem postou com firmeza as duas mãos na cintura, enfezada: - Olha aqui, meu senhor, meu marido é um homem honesto e trabalhador, fique sabendo! Enxugando o resto de suor da testa, Horácio preferiu se livrar de um problema de cada vez. Além do batom borrado no rosto, agora carregava a preocupação de uma doença venérea. Abriu a carteira e dela retirou cinqüenta reais. – Pegue um táxi e vá embora. Carmem balançou a cabeça: - Cinquenta reais não vai dar, moro na Moreninha 3. – O quê? No site você diz que mora na vila Planalto. Ela balançou a cabeça: - Trabalhava lá...Quando era doméstica, mas agora estou sem trabalhar e... – Ok, ok, de quantos você precisa? – Cem reais... – O quê? Cem reais? Ela sorriu diante do desespero do companheiro de aventuras. – Você não pensou que ia foder de graça, né? Vou pagar o táxi e no caminho comprar um vinho forqueta, duzentas gramas de mortadela e pão. Preciso reabastecer minhas energias. Amanhã tem mais... Horácio arregalou os olhos: - Escuta aqui filinha, por acaso você é puta? Foi a vez de Carmem formar na testa modos de ira: - Olha, o senhor me respeita! Aceitei transar numa boa, não exigi nada, fizemos um monte de coisas na cama, coisa que não faço nem com o meu marido, então o senhor me respeita, eu nunca fui puta nessa puta vida. Horácio deixou o ombro cair. – Desculpe, desculpe, não quis ofendê-la. Tome aqui os cem reais. Ela apanhou o dinheiro na ânsia dos desesperados. Depois tentou fazer um carinho ao limpar com os dedos molhados de saliva a marca de batom no rosto de Horácio. – Tadinho...Tenta gasolina. – Oi? O quê você disse? Perguntou completamente abraçado pela surpresa. Ela ameaçou um sorriso: - Acho que só sai com gasolina... Antes que Horácio pudesse responder, Carmem ajeitou o vestido e tocou os lábios com a ponta do dedo num gesto de adeus.

Assim que começou a caminhar, ainda teve tempo de ouvir a última pergunta de Horácio: - Não vai chamar o táxi? - Vou...Na outra esquina deve ter... E o mundo desabou na cabeça do traidor, combinando com o som de um trovão que explodiu num céu ali perto, clareando a noite.

Caminhou até o carro, estacionado há dois quarteirões, mas olhando ligeiro, parecia vários quilômetros.

O celular não parava de vibrar e ele resolveu dar uma conferida.

Sete mensagens de Nair.

Horácio respirou fundo e usando o resto de calma, leu uma a uma.

Todas as mensagens falavam da preocupação com a demora, o receio que “algo ruim” tivesse acontecido ao marido.

E carregava ainda a preocupação de esposa recatada e do lar: “Venha logo, só vou passar os bifes quando você chegar”. A dor do remorso fura fundo o peito. Danou a conversar sozinho, espantando os transeuntes. - Nair não merece isso, eu sou um patife, um canalha! O rosto da esposa cavalgava em sua mente, momentos bons que juntos passaram desfilavam a cada segundo, viu de perto o precipício e o cheiro do inferno tinha o sabor de morango. - Ela nunca irá me perdoar... – pensava a cada passo dado, imaginando todas as virtudes de Nair, a mulher que abandonou uma próspera carreira no ramo imobiliário para se casar com ele, aquele merdinha cheio de maus costumes, um sem noção presunçoso que se referia a todas as mulheres pela mesma palavra: “filinha”.

Até isso Nair aceitou sem reclamar.

Permitia que ele lhe chamasse sempre de filinha, assim como a todas as outras mulheres que conhecia. “Uma mulher exemplar!” – suspirou ao pensar que ultimamente haviam desistido de ter filhos e as noites de sexo foram reduzidas a quase nada, quando muito, uma vez ao mês.

Nair ficava em casa imaginando pratos, uma comida especial, algo bem apetitoso para compensar o dia certamente difícil do marido, isso sem se esquecer de manter as latinhas de cerveja sempre bem gelada.

Que ideia estúpida aquela da traição. Maldita hora que acessou o computador e encontrou aquele site de relacionamentos. Suspirou novamente ao pensar que os poucos minutos de prazer em nada se comparava com aquele total desespero. Descobriu, de peito aberto, que havia algo muito pior que a tão decantada marca de batom na cueca. A cara dele estava no lugar da cueca, lisa, límpida, ligeiramente oleosa e completamente entregue naquela cor rosa misturada com riscos azuis. - Vou processar o fabricante. – Pensou, tentando alguma forma de alívio Ligou o motor do carro, acelerou sem sair do lugar.

O quê dizer para Nair?

Passou a imaginar várias hipóteses:

Entrar num boteco, beber o bastante até provocar uma briga na qual levaria um merecido soco na cara, que certamente ficaria num tom róseo misturado com azul... Não...um murro causa dor, deixa seqüelas... Talvez se fantasiar de papai Noel e dizer que estava ensaiando para as festas do final do ano da empresa e, descuidado, não percebeu que esqueceu de trocar de roupa.

Imaginou até uma fala: - Você acredita, filinha, que as pessoas me olhavam no trânsito e eu pensei que estavam me achando bonito? Não...Tal recurso necessitava uma boa atuação e também do figurino de papai Noel que não tinha. - Maldita a hora que abandonei aquele curso de teatro... Acelerou levemente. O dedo tocava ligeiro no volante do carro na tentativa de espantar o nervosismo.

Novas idéias surgiam: Quem sabe desaparecer por uns dias, até o batom sair de vez do rosto e no retorno contar histórias mirabolantes de discos-voadores, abdução, coisas do gênero. Não...Mentira longa demais. Contou as horas no relógio, a madrugada estava por vir e ele ainda imaginava desculpas: Quem sabe colasse uma história bonita de visita a um hospital, no qual abraçou alguém sofrendo de uma doença contagiosa, cujo sintoma principal era aquele rastro róseo cheirando a morango na cara, mas, que bobagem filinha, logo sairia e o importante fora o gesto de caridade humana. - Não...Filinha sabe que nunca fui solidário com porra nenhuma...Que merda, ela sabe que detesto hospital e evito gente doente. De repente, um estalo: - E se eu falar que fui pegar a filha de um amigo no colo e a desgraçada da criança tinha a boca abarrotada de batom... - Não...Detesto crianças, filinha sabe.

O jeito era apagar aquela maldita marca na cara, convenceu-se por final.

Acelerou o carro num sinal amarelo e logo à frente avistou um posto de gasolina.

A sugestão de Carmem agora não lhe parecia tão sem sentido.

Gasolina poderia resolver.

Se não desse certo, usaria creolina, querosene misturada com Q-boa, qualquer coisa que lhe tirasse do rosto a marca da traição.

O frentista bateu no vidro do carro: - pois não? – Coloca cem reais...Mas preciso de uma golada nas mãos. – Oi, como é, senhor? – Preciso de um pouco nas mãos. O frentista era um homem enorme e de poucas palavras, daqueles parecidos a uma máquina, poucas palavras, breves atitudes.

Completou o tanque e deixou um resto na bomba, que esparramou pelas mãos ligeiramente trêmulas de Horácio.

Fez que não reparasse quando o cliente esfregou o rosto com a gasolina fazendo movimentos frenéticos.

Depois correu até o espelho do carro e vociferou:

- Merda, não sai! Me dê mais um pouco. O frentista homem-máquina obedeceu sem reclamar. Horácio esfregou novamente, correu até o espelho do carro e quase chorou.

A marca persistia intacta.

O frentista homem-máquina percebeu o motivo de tanta angustia, chegou a sentir a mesma dor, naquela de obedecer a regra pré estabelecida desde os tempos de Adão: todo homem ajuda o outro em situações como aquela. Resolveu por dar uma sugestão:

- Quem sabe se eu der uma esguichada diretamente no local, a força do jato, quem sabe tira. Horácio topou sem muito pensar, encheu de ar a bochecha e se ajoelhou.

O frentista homem-máquina fez mira e lançou um jato, dois, três. - Está saindo? – perguntou Horácio,numa voz alterada pelo desespero.

- Não...Precisa de mais – respondeu o frentista, já com o rosto suado, como se apertasse o gatilho de uma metralhadora.

- Então capricha nessa porra! Gritou Horácio, mas ao fazê-lo abriu demais a boca e levou uma esguichada de gasolina que lhe atravessou a garganta... - Puta que pariu! Que mais me falta acontecer? Tentou cuspir, mas acabou vomitando, sujando a camisa. - Agora terei que explicar a camisa vomitada também...Disse, olhando com tristeza para o frentista, também com os olhos caídos de desapontamento.

Horácio soltou um arroto prolongado e dolorido, daqueles que só quem já bebeu gasolina pode entender...

Depois entrou no carro, ligou a ignição e arrotou novamente.

Não tinha mais nada a fazer.

Seguiu para casa. Nair o recebeu de camisola, lenço na cabeça de cabelos presos a bobes e um sorriso que logo desfez.

Imediatamente percebeu o batom escorrido nos cantos da boca.

Rosa com fundo azul, sabor morango. - Posso saber o que é isso? Horácio pensou nas desculpas que antes imaginou.

Tirando a abdução, as outras ainda cabiam.

Mas não teve forças.

A noite tinha sido longa e o cansaço o dominou.

Resolveu se entregar: - Eu...Bom...Esse batom...você sabe.

- Não, eu não sei. Mas quero ouvir.

Ele arrotou gasolina antes, esfregou os olhos em busca de lágrimas e descarregou tudo de uma vez:

- Eu te traí, Nair.

Foi isso o que aconteceu.

Estava sentindo muita falta de sexo, sabe?

Mas não o nosso costumeiro papai e mamãe, eu queria pegar uma mulher diferente, que se entregasse de todas as formas, em todas as posições, deitada, de lado, de quatro, em pé...

Eu queria ouvir outro gemido.

Queria cheirar outro cheiro.

Explodir num orgasmo dentro de outro corpo.

Errei, eu sei.

Sei também que não tem volta, só quero saber se você pode me perdoar.

Ela olhou primeiro com chispas de ódio.

Mas logo depois arrefeceu:

- Estamos quites. - Como é? - É isso mesmo, Horácio. Eu também te traí. Estamos quites. O rosto de Horácio empalideceu num tom intensamente rosa, praticamente cobrindo a mancha do batom. - Mas como assim, filinha? - Você acha que é fácil ficar o dia todo presa dentro de casa, olhando para as paredes sem ter o que fazer?

Mulher também sente prazer, Horácio.

Muitas vezes fantasiamos e fica nisso, mas às vezes não dá para segurar. - Com quem... - Não vou dizer. E deu voltas nos calcanhares, indo parar na cozinha.

Ele pensou segui-la, mas a surpresa lhe prendeu no assoalho.

De dentro da cozinha, Nair, calma e refeita, gritou para Horácio: - Como quer o seu bife? - Hein? - Bem passado ou mal passado? Horácio esfregou pela última vez a marca do batom no rosto e logo depois tentou abafar com as mãos um arroto forte, do gosto misturado de gasolina com batom sabor de morango.

Só então conseguiu responder:

- Tanto faz filinha, tanto faz .


Postado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ
Em 6/9/2017 às 10h53


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